Lisboa. Requalificação da Tapada das Necessidades atrasou, mas obras podem arrancar neste ano

O projeto que prevê transformar o espaço, aprovado em 2019 na Assembleia Municipal de Lisboa, ainda não viu a luz do dia. Mas de acordo com a empresa concessionária, as obras para reabilitar o espaço deverão começar até final do ano.

Um jardim renovado, estabelecimentos de restauração e parques infantis fazem parte do projeto da Câmara Municipal de Lisboa para a nova fase de vida da Tapada das Necessidades, na Estrela. Contudo, os trabalhos ainda não tiveram início mais de um ano após a aprovação em Assembleia Municipal, com votos contra do Bloco de Esquerda e PCP e abstenção do CDS-PP. De acordo com o promotor da obra, concessionada à Banana Café Emporium, a pandemia terá contribuído para o atraso do processo, que porém deverá arrancar ainda este ano.

O planeamento do projeto acumula seis anos de decisões e procedimentos burocráticos, tendo o licenciamento para as obras chegado "há cerca de seis meses", explica ao DN Bernardo Delgado, administrador da empresa concessionária.

Segundo este responsável, será agora necessário lançar o concurso para a empreitada e reunir investimento que permita recuperar o tempo perdido. Em causa estão cerca de cinco milhões de euros que devem ser assegurados pela Banana Café Emporium e parceiros, a que se junta o capital garantido pela Câmara Municipal de Lisboa.

Ao município cabe a responsabilidade de uma parte da reabilitação prevista, embora não tenha sido possível apurar junto do executivo o montante total que sairá dos cofres municipais ou as obrigações a que está comprometido. Apesar dos sucessivos contactos, a CML não respondeu aos pedidos de esclarecimento do DN até ao fecho desta edição.
A incerteza causada pela pandemia, aliada ao "impacto extremamente negativo que o setor do turismo e da restauração sofreram", condicionou a calendarização do projeto de requalificação.

O projeto para as Necessidades contempla espaços de restauração e parques infantis. Investimento do promotor da obra é de cerca de cinco milhões de euros.

Bernardo Delgado detalha, contudo, que "os fundos comunitários e autárquicos que estarão eventualmente disponíveis para apoio à retoma da atividade poderão ter um papel muito relevante a desempenhar" no financiamento previsto. O gestor acrescenta ainda que estão já a decorrer os primeiros contactos com investidores. Neste momento, o objetivo definido pelo promotor é de que as obras arranquem em setembro, apontando a conclusão da requalificação da Tapada das Necessidades para o verão de 2022.

Preservar o passado

Com projeto de arquitetura assinado por Pedro Reis, o local histórico lisboeta será totalmente requalificado e reabilitado para se tornar um ponto central da cidade. Os responsáveis acreditam que o espaço tem um "enorme potencial para se assumir como polo cultural e desportivo" onde cabem restaurantes, parques infantis, iniciativas educativas e de responsabilidade social, assim como um local exclusivamente dedicado à Associação dos Amigos da Tapada.

Além de devolver aos cidadãos um equipamento "esquecido e abandonado ao longo das últimas décadas", a Tapada das Necessidades "será um dos pontos de atração turística incontornáveis em Lisboa", afirma o administrador.

Contudo, o plano pensado pelo município e concessionário não reuniu, nos últimos anos, consenso entre partidos e instituições. Luís Newton (PSD), presidente da Junta de Freguesia da Estrela, lamenta não ter sido ouvido no processo de concurso público, em 2015, e garante ter apresentado à autarquia uma alternativa que não implicaria a demolição do antigo jardim zoológico, que dará lugar a um restaurante. "Se [a proposta da JFE] tivesse avançado, já poderia estar a dar vida e ter requalificado a tapada há mais de três anos", diz. "A única informação que vamos tendo tem vindo, curiosamente, dos promotores privados", aponta ainda o autarca.

As críticas ao caminho escolhido chegam de vários quadrantes políticos, apesar de todos reconhecerem a importância e a necessidade da obra. Em novembro de 2019, quando o tema foi discutido na Assembleia Municipal de Lisboa, o PCP e o PEV - Partido Ecologista Os Verdes pediam a revogação da concessão que, argumentavam, transferia o jardim histórico para a esfera privada e que implicaria a "demolição de parte dos edifícios históricos", nomeadamente a zona ocupada pelo zoo.

Já o PAN não só partilhava as mesmas hesitações, como acrescentava a importância da "preservação, conservação e restauro" dos edificados e pedia um "levantamento exaustivo de todas as suas espécies vegetais", incluindo as mais raras. Ao DN, Bernardo Delgado assegura que serão reabilitados alguns dos edifícios, muros e a estufa circular mandada erguer por D. Pedro V, no século XIX, que se encontra junto a um relvado do jardim, uma das zonas mais procuradas por quem visita o espaço.

A Tapada é um espaço público numa zona de Reserva Florestal Nacional, murada, com uma área de 10 hectares. Tem entrada principal pelo Largo das Necessidades e é limitada pela Rua Capitão Afonso Pala, Rua do Borja e Calçada das Necessidades. Está aberta ao público todos os dias da semana (incluindo sábados e domingos).

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