Lisboa. Inferno do trânsito voltou em força e está pior que pré-pandemia

O trânsito na capital já está a voltar aos níveis de 2019, tendo havido mesmo nas últimas semanas dias em que os valores ultrapassaram os valores pré-pandemia. Especialistas em transportes e ambientalistas apontam o receio que as pessoas ainda têm de usar os transportes públicos como o principal fator.

Os dias em que se podia circular de automóvel nas ruas de Lisboa sem apanhar trânsito são cada vez mais uma recordação dos tempos de confinamento. Se não vejamos: de acordo com os dados da TomTom Traffic Index, se nos primeiros 259 dias deste ano (37 semanas) apenas em um houve mais trânsito do que em 2019, nos 22 dias seguintes já se registaram nove dias com mais trânsito. De 27 de setembro a 3 de outubro, foi a primeira semana de 2021 em que o tráfego em Lisboa foi superior à semana homóloga de 2019, registando um valor 3% superior (em 2020, a capital tinha apresentado uma diminuição de congestionamento de 30%, quando comparado com o ano anterior). No acumulado da semana seguinte (4 a 10 de outubro) esse aumento não se repetiu, porque os números foram influenciados pelo facto de o feriado de 5 de outubro ter acontecido numa terça-feira (em 2019, tinha sido num sábado, por isso sem influência no trânsito); a segunda-feira, 4 de outubro, também ficou muito abaixo dos números de pré-pandemia, pois muita gente fez ponte. Mas nos restantes dias da semana, o trânsito em Lisboa superou os valores de 2019.

"Este aumento de tráfego deve-se essencialmente a vários fatores. Um deles é o desconfinamento e a retoma progressiva da atividade normal, com relevância para o início do ano letivo com aulas presenciais. Outro fator é a utilização do automóvel para levar os filhos à escola e que é responsável por cerca de 20% do tráfego em Lisboa. Há ainda que ter em conta que enquanto a memória da pandemia estiver presente, e o receio de uma nova variante que provoque uma nova vaga de pandemia estiverem presentes, a preferência pelo transporte individual manter-se-á. A parte das pessoas que podem funcionar em teletrabalho são uma percentagem reduzida em relação ao total do número de trabalhadores e cinge-se ao setor terciário superior, pelo que a sua contribuição para a redução do tráfego não será suficiente para cobrir os que passaram a optar pelo automóvel particular devido ao receio de utilizar os transportes coletivos", explica ao DN Fernando Nunes da Silva, professor do Instituto Superior Técnico e especialista em transportes e urbanismo.

Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista ZERO, fala em "altura absolutamente desastrosa". "Está a acontecer aquilo que nós não queríamos que acontecesse, porque basicamente o trânsito significa ruído, significa poluição do ar, significa baixa produtividade por causa das horas passadas em congestionamentos, significa mais gastos para as famílias, significa menos uso do transporte público. Ou seja, efetivamente aquilo que se tem verificado nas últimas semanas é tudo aquilo que não poderia acontecer e rapidamente nós precisamos de contrariar esse efeito, quer por medidas estruturantes nas grandes cidades, quer por uma mudança de paradigma das pessoas que não usam o transporte público...".

Os transportes públicos em Lisboa estão de facto numa trajetória contrária à dos automóveis em termos de utilização, apresentando em setembro números inferiores aos do mesmo mês de 2019. "O Metropolitano de Lisboa registou 8 442 194 validações em setembro de 2021. Este valor corresponde a 57,2% das validações do período homólogo de 2919, quando o ML registou 14 760 700 validações. Entretanto, quando comparado a setembro de 2020, quando o Metropolitano de Lisboa registou 6 878 768 validações, nota-se uma evolução positiva da procura de 22,7%. De um modo geral, o total de passageiros de janeiro a setembro de 2021 continua a ser inferior relativamente ao total de passageiros de 2019 e até de 2020 (ano atípico de pandemia)", adianta ao DN fonte do Metropolitano. "No entanto, quando analisado mensalmente, verifica-se um aumento gradual na recuperação dos passageiros quando comparamos 2021 com 2019 e 2020, tendo-se acentuado este aumento no mês de setembro, em resultado do início do novo ano letivo, bem como o regresso ao trabalho presencial", acrescenta a mesma fonte.

No que diz respeito à Carris, o cenário é semelhante. Os números provisórios de setembro apontam para 8,9 milhões de passageiros, menos 27% quando comparados com os 12,2 milhões do mesmo mês de 2019. Quando a comparação é feita com os 7,5 milhões de passageiros de setembro do ano passado, a Carris regista agora uma subida de 18%. "Na segunda metade do mês de setembro já se sentiu um aumento mais acentuado da procura, estimando-se que nas últimas semanas a procura já tenha sido cerca de 75% da procura registada em período homólogo de 2919", nota fonte da Carris. No acumulado entre janeiro e setembro, a empresa pública de autocarros de Lisboa registou 61 milhões de passageiros, uma diminuição de 40% quando comparado com os 101,9 milhões de 2019. Comparando o corrente ano com os 58,3 milhões do acumulado até setembro de 2020, houve um aumento de 5%.

Na opinião de Fernando Nunes da Silva, estes valores são explicados pelo receio que as pessoas ainda têm de usar os transportes públicos, sendo que este especialista acredita que é muito provável que o fluxo de trânsito em Lisboa seja cada vez mais superior aos valores pré-pandemia. "Enquanto a memória da pandemia e o receio de contágio persistir, é natural que as pessoas procurem evitar a utilização de modos de transporte em que o contacto e a utilização de espaços fechados e pouco arejados seja frequente. Durante a pandemia, mesmo quando o confinamento foi mais reduzido, um estudo europeu veio mostrar que os meios de transporte que mais cresceram em seis países do centro e norte da Europa foram o transporte individual e o andar a pé. Os transportes coletivos perderam mais de 50% e até o andar de bicicleta teve redução", comenta o professor do Técnico. "É importante não esquecer que o recurso ao teletrabalho está restrito a grupos profissionais do terciário superior ou a algumas profissões liberais, de modo algum são a maioria dos que têm que se deslocar. Por outro lado, mesmo esses, como se deslocam menos, quando precisam de aceder a atividades presenciais, vão preferir o transporte individual: já que se deslocam menos, preferem fazê-lo com maior liberdade e conforto", acrescenta o mesmo especialista.

Como utilizador de transportes públicos, Francisco Ferreira tem notado por experiência própria este decréscimo de passageiros, apontando que, perante o atual preço dos combustíveis e o valor dos passes, a questão passa muito pela confiança das pessoas. "Há aqui dois problemas: um é que precisamos de confiança por parte das pessoas, para isso é também fundamental as autoridades de saúde darem mais informação e os gestores dos vários transportes também apresentarem publicamente as medidas que estão em curso para garantir a segurança na frequência dos transportes públicos. Há aqui uma ação de sensibilização dos operadores de transporte, do governo, da própria ZERO, do Ministério da Saúde, no sentido de dar confiança às pessoas. Depois, foi dado um sinal errado em vários municípios, nomeadamente em Lisboa, quando se disse que os valores do estacionamento deviam diminuir, que não se devia colocar tantos obstáculos à utilização do automóvel no centro de Lisboa e isso é o oposto da sustentabilidade. Noutras cidades europeias, as medidas que estão a ser implementadas vão em sentido completamente contrário", nota o ambientalista.

Aposta única nas bicicletas não é solução

Nunes da Silva dá o exemplo de Barcelona e Paris como cidades que souberam aproveitar a pandemia para implementar medidas numa tentativa de diminuir o trânsito. "Para além do espaçamento dos horários de abertura (e consequente entrada ao serviço dos seus trabalhadores) das diferentes atividades económicas e de administração, da combinação entre dias de trabalho ou aulas presenciais e à distância, da reorganização da oferta do transporte coletivo rodoviário no sentido de o aproximar mais dos potenciais utilizadores e diminuir a concentração de pessoas em poucos eixos, foram desenvolvidas outras ações no sentido de apoiar o comércio de bairro, a criação de mais espaços para a circulação de pessoas e bicicletas e restrições ao acesso automóvel (salvo para residentes e serviços urbanos) em bairros e áreas centrais, no sentido de facilitar o andar a pé nesses espaços e providenciar locais de lazer e estar com menor concentração de pessoas", refere o professor do Instituto Superior Técnico.

Fernando Nunes da Silva viu a pandemia como uma oportunidade perdida para as autoridades portuguesas implementarem medidas para tentarem diminuir o trânsito nas grandes cidades, nomeadamente na capital.

"Infelizmente para nós, e particularmente em Lisboa, uma visão ideologizada do problema levou a centrar todas as medidas na promoção do uso da bicicleta, esquecendo que esse modo de transporte, sendo importante e devendo ser promovido, não tinha capacidade de resposta para o volume de deslocações que se devia satisfazer, além de que não é de um dia para o outro que as pessoas passam a andar de bicicleta, mesmo que tenham idade e condições físicas para isso. Ao contrário das duas cidades citadas, que a par da utilização da bicicleta tomaram importantes medidas para desfazer a concentração das deslocações no espaço e no tempo, assim como o reforço das redes de transportes coletivos de proximidade, em Lisboa procedeu-se a uma redução uniforme da oferta de transportes coletivos, o que levou a situações de congestionamento nas primeiras e últimas horas de ponta superiores às que existiam antes da pandemia. Essa situação levou a que, quem pudesse, se afastasse dos transportes coletivos e levará tempo a que regressa a eles".

Quanto ao futuro do trânsito em Lisboa, Francisco Ferreira nota que as propostas da coligação Novos Tempos, liderada por Carlos Moedas, vão em sentido contrário de ter uma cidade com menos carros. "E nós estamos obviamente apreensivos com aquilo que poderá vir a acontecer", diz o líder da ZERO, para quem há três medidas que o novo presidente da Câmara de Lisboa deve tomar para ter uma capital com menos trânsito e poluição. "A primeira é ter uma zona zero emissões. Uma zona mesmo só para veículos elétricos, bicicletas, trotinetas, andar a pé. Isso está a ser implementado também noutras cidades europeias e nós queríamos que Lisboa tivesse a zona mais central, a zona da Baixa, dos Restauradores, como uma zona zero emissões. Depois, que a zona de emissões reduzidas seja revista, porque ela não é revista há seis anos e, portanto, ela neste momento é pouco eficaz. E, por outro lado, que o estacionamento seja menor e tão ou mais dispendioso, a par de uma melhor oferta de transportes públicos, porque nós precisamos mesmo de menos carros em Lisboa e a vir para Lisboa".

A ZERO teve uma reunião com Carlos Moedas, mas também com os outros candidatos, durante a campanha para as autárquicas, a quem explicaram estas ideias. "Eu acho que ele [Moedas] reagiu favoravelmente, mas depois também vimos que algumas das suas propostas vão em sentido contrário. Portanto, vamos ver", diz Francisco Ferreira.

ana.meireles@dn.pt

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