Francisco George. Obras no quarteirão inglês "não foram discutidas de forma transparente"

Descendente de uma família inglesa, o presidente da Cruz Vermelha vê com preocupação os planos para o chamado quarteirão inglês. E desafia Medina a parar o projeto e a promover uma discussão pública.

É descendente de uma família inglesa. Quando é que os George vêm para Lisboa?
Em meados do século XIX surge uma crise na construção naval em Inglaterra. Há um conjunto de especialistas em energia a vapor, os boilermakers - os caldeireiros - que ficam sem trabalho. O meu avô Charles - que era casado com Emma, a minha bisavó, e que já tinha três filhos - viu-se numa situação de desemprego e decidiu aceitar uma proposta do governo português, em regime de cooperação, para servir como mestre boilermaker no Arsenal da Marinha, que na altura estava no lado poente da Praça do Comércio, na rua que tem o nome do Arsenal.

Os seus avós já nascem em Lisboa?
Sim, os meus bisavós vêm com os três filhos. Os restantes dos 14 irmãos nasceram em Lisboa, o mais novo era o meu avô, Albert, que nasceu em 1870.

E a sua família instala-se onde?
Os meus bisavós viveram primeiro na Estrela. A comunidade inglesa vivia sobretudo na zona entre a Estrela, São Bento e Santos. Campo de Ourique ainda não era, verdadeiramente, um bairro. Surge com a pujança que tem hoje no século XX. Depois, com a inauguração do bairro, houve uma procura por Campo de Ourique, até porque o cemitério era rodeado de uma escola inglesa, com ensino também em português (que os meus avós frequentaram) e tinha, no que é agora a Rua da Estrela, um pequeno teatro com atividades culturais, encenações, onde foram projetados os primeiros filmes, e que tinha grande procura durante a II Guerra Mundial para saber as notícias da frente. Depois, havia o clube de ténis e, a seguir, a chamada Casa do Pastor, onde vivia a família do pastor anglicano, que assegurava os serviços religiosos à comunidade inglesa.

A sua família mantém sempre ligação a Campo de Ourique...
Sempre, todos nós. Eu sinto-me um lisboeta de Campo de Ourique, tenho um sentimento especial de ligação ao bairro, onde nasci e cresci. A minha mãe é de Campo de Ourique, o meu pai nasceu, viveu e morreu na Rua Coelho da Rocha. Para nós esta rua tem um simbolismo muito especial.

O conjunto de edifícios que referiu vai ser um condomínio...
Esse conjunto foi agora alienado e como especialmente interessado nos assuntos que dizem respeito ao Cemitério Inglês - onde repousa a minha família, bisavós, avós, pais, tios, irmãos, a minha mulher e filha - considero que devia ter sido ouvido nos projetos que dizem respeito àquela área, que considero intocável, no plano cultural e de preservação da história. E no plano do urbanismo: um projeto com aquela dimensão tinha necessariamente de ser colocado em discussão pública para os interessados se pronunciarem. Tudo indica que há uma precipitação na aprovação, de tal maneira preocupante que as obras já começaram e é preciso ter a certeza de que não há invasão do sossego de um espaço com sepulturas. Faz agora 300 anos que a primeira sepultura foi acolhida naquele espaço, é preciso respeitar esse lugar, é um local de culto para muitas famílias. Nomeadamente a minha, não encaro com facilidade grandes obras de construção de condomínios privados naquela área.

A proximidade dessa obra ao cemitério devia ter merecido outra cautela ao poder público?
Claro. Há aqui uma invasão, nomeadamente quanto ao ambiente e à qualidade paisagística, que me preocupa. É inaceitável como não houve uma discussão pública e não me parece que a transparência da aprovação tenha sido percebida em termos públicos.

O processo foi aprovado sem ir a reunião da câmara.
Isso é inadmissível...

Mas é legal.
Mesmo que seja num plano de legalidade, não é compreensível. As questões da legalidade não se podem sobrepor a outros valores, à dimensão cultural, ambiental, até no plano da ética e do respeito por valores históricos. Pessoalmente, não compreendo e não aceito que seja lesada a imagem envolvente do cemitério com obras que não foram discutidas de uma forma transparente. Por isso, desafio o presidente da Câmara de Lisboa a que mande parar e discutir o projeto, em nome da preservação do património histórico e cultural que interessa à cidade.

susete.francisco@dn.pt

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