Como num espaço de morte se vai passar a celebrar a vida

O antigo matadouro municipal de Torres Vedras abre as portas no domingo como Centro de Artes e Criatividade, um espaço que quer ser mais do que um museu do Carnaval, "a expressão cultural mais importante para a cidade".

Há uma poética na criação deste equipamento", comenta Rui Brás, diretor executivo do Centro de Artes e Criatividade (CAC) de Torres Vedras, enquanto percorre o espaço, ainda nos últimos preparativos para a inauguração deste domingo. O antigo matadouro municipal, que remonta ao final do século XIX, renasce como local em que se celebra a vida. "De um espaço de sacrifício animal, um sítio onde havia abate, sangue, violência, passamos para um espaço que é uma expressão cultural do Carnaval e queremos fazer esse contraponto poético entre a morte e a vida", assinala o antropólogo, empolgado por ver finalmente aproximar-se o dia da abertura de um projeto que deu os primeiros passos há já 15 anos. "Foi um tempo que permitiu a maturação do próprio projeto", que tem na sua génese o Carnaval, mas que pretende ser espaço de incentivo à criação artística e o ponto de partida para a regeneração da zona onde está implantado.

A área onde antigamente se pesavam os animais é agora o local onde se inicia a visita ao renovado edifício de quatro mil metros quadrados, um projeto de arquitetura de José Simões Neves que custou 3,1 milhões de euros, mais um para instalação. Logo à esquerda, onde antes se abatiam animais, vão estar as exposições temporárias do CAC. A primeira, pensada por Nelson Dona, diretor do Amadora BD, chama-se "Carnaval Desenhado" e vai mostrar o trabalho de seis artistas ligados ao cartoon.

Mal se sobe ao primeiro andar do edifício, um acrescento saído do projeto de reabilitação, deparamo-nos com um mural da autoria de Nicolau que pretende demonstrar "o universalismo da expressão do Carnaval". "Neste núcleo vamos abordar 33 carnavais do mundo, a maioria património da humanidade, e mostrar que o Carnaval de Torres Vedras não está sozinho", resume Rui Brás. Nos monitores é possível obter mais informação sobre esses carnavais, mas aquilo que mais salta à vista é o trabalho minucioso das sete esculturas de papel que Miguel Dias elaborou para a exposição.

Dos detalhes minúsculos destes trabalhos a atenção vira-se para uma das imagens de marca do Carnaval de Torres Vedras, com 20 cabeçudos tradicionais a forrar o teto da sala. "Aqui temos um conjunto de obras em que fazemos uma inversão, uma coisa muito característica do Carnaval: o corso passa do chão para o ar. É um mundo ao contrário, como o Carnaval é o mundo ao contrário", explica o diretor do CAC.

Esta é a zona dedicada ao Carnaval da cidade, cuja origem remonta ao século XVI mas que, enquanto evento organizado, celebra o centenário no próximo ano. "Há quem diga que é em 2023. Isto tem a ver com as fontes históricas, mas em 1972 comemoraram-se os 50 anos", constata Rui Brás. "Há quem diga que eles se enganaram na comemoração dos 50 anos. Não há como resolver isto", comenta. Neste espaço da sala há documentos, imagens, testemunhos que lembram os momentos e as figuras mais marcantes na história deste Carnaval, que nos anos 1980 ganhou a vertente de espetáculo de massas, capaz de juntar 500 mil pessoas nas ruas em quatro dias.

Tal como os cabeçudos, as matrafonas não poderiam faltar à festa, neste caso, à exposição. E aqui qualquer um pode vestir-se como uma, sem de facto o fazer. Basta colocar-se em frente a um ecrã gigante e a imagem surge, como que refletida num espalho. Depois, pode enviá-la para o email pessoal. Logo ao lado, estão os trajes que identificam as associações que fazem o Carnaval de Torres. É o adeus a Torres Vedras para depois dar um saltinho ao norte da Península Ibérica e visitar figuras que identificam as comunidades, como os Caretos de Podence ou os Cardadores de Vale de Ílhavo.

Visita à reserva

Porque muito mais há sobre aquele que se diz ser o Carnaval mais português de Portugal, a zona de reserva pode ser visitada desde que na companhia de um técnico do CAC. Estão lá por exemplo, uma peça que fez parte do monumento ao Carnaval edificado este ano, em que não houve festa na rua por causa da pandemia - uma máscara com máscara -, moldes em gesso da primeira fase da construção dos carros alegóricos ou alguns cabeçudos históricos, que resistiram dos anos 1950 até hoje. "Mais antigos não temos, estes materiais são extremamente perecíveis e alguns tiveram mesmo de ser restaurados", conta o diretor do espaço, onde também se quer mostrar a evolução das técnicas que fizeram a festa ao longo do tempo. "O Carnaval nos seus primórdios tinha um conjunto de pessoas que trabalhavam, artisticamente, materiais como a madeira, o gesso, ou o papel. Objetos de uma grande plasticidade mas limitados do ponto de vista do pormenor. Houve uma evolução muito grande para a fibra de vidro e mais recentemente para a impressão e modelagem tridimensional por computador", diz Rui Brás.

Enquanto "expressão cultural mais importante" para Torres Vedras, o Carnaval "tem uma relação umbilical com a génese" do Centro de Artes e Criatividade da cidade, aberto à população a partir de dia 27. O bilhete para as duas exposições custa cinco euros. Além da componente museológica, o novo espaço quer incentivar todo o tipo de produção artística, com zonas para a realização de oficinas, conferências, serviço educativo e até formação. Situado a norte do rio Sizandro, o edifício é ainda o pilar da estratégia de regeneração urbana da autarquia para aquela zona, mais empobrecida. À sua volta, vão surgir nos próximos tempos um projeto social dedicado à doença mental, um edifício para alojamento de residências artísticas, as sedes de três associações ligadas ao Carnaval e um projeto de valências sociais para o centro social e paroquial.

sofia.fonseca@vdigital.pt

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