"Regresso das Festas de Lisboa é pontapé para golo na crise das coletividades"

Depois de dois anos sem Festas de Lisboa, a EGEAC está a apostar num regresso em 2022. Uma notícia que pode representar a sobrevivência de muitas das cerca de 300 coletividades da capital, apesar de muitos dos problemas destas associações serem anteriores à pandemia.

Ana Meireles
A marcha do Alto do Pina é a campeã em título, tendo vencido as marchas por quatro vezes nos últimos dez anos.© Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

A EGEAC, empresa municipal responsável pela animação cultural de Lisboa, avançou ao DN que está "a contar realizar Marchas e Festas de Lisboa em 2022", adiantando que "não há qualquer informação adicional neste momento". Uma novidade que deixou "arrepiado" Pedro Franco, presidente da Associação das Coletividades do Concelho de Lisboa (ACCL), pois este regresso representa "uma lufada de ar fresco" para as coletividades de Lisboa, muitas delas a passarem por grandes dificuldades por causa da pandemia e não só. "O regresso das Festas de Lisboa são um pontapé para golo na crise das coletividades", afirma ao DN Pedro Franco. "Isto significa muito. Isto vai dar-lhes um ânimo. Com as marchas e as festas da cidade, Lisboa mexe".

A chegada da pandemia e o cancelamento das Festas de Lisboa e das marchas nos últimos dois anos levou a que muitas coletividades da capital fechassem. Não existem ainda dados oficiais sobre quantas encerraram as suas portas definitivamente, mas Pedro Franco admite que existem "coletividades em risco de fechar". Outras, têm vindo gradualmente a retomar as suas atividades. "As que abriram têm-se governado com alguns apoios que têm chegado através das juntas de freguesia ou de alguns subsídios da câmara. Algumas têm bares, têm-se desenrascado um pouco assim", conta o dirigente associativo. "Não têm existido grandes atividades, que estão a começar mais ou menos agora, mas infelizmente parece que vai voltar a haver mais restrições. Aquelas coletividades que têm atividades, que têm o judo, que têm as danças, enfim, uma série de atividades, estão a reabrir e estão a tentar reorganizar aquilo que não tiveram com a pandemia. E têm de se organizar assim", acrescenta.

O cancelamento das Festas de Lisboa nos últimos dois anos representou também um grande golpe nas coletividades que participam nas marchas, pois não tiveram direito aos 30 mil euros de subsídio que cada uma recebe anualmente da Câmara de Lisboa. Mesmo assim, a situação só não foi pior devido ao bom relacionamento entre a Associação das Coletividades do Concelho de Lisboa e a autarquia, nomeadamente com a então vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto. "Fui eu que fiz a proposta à senhora vereadora, porque eles já tinham feito despesa já que as marchas começam a trabalhar de um ano para o outro. Propus darem entre 7500 e 10 mil euros a cada marcha. Ela aceitou e deu 7500 euros a cada marcha", recorda Pedro Franco. "Em 2021, deram 15 mil euros a cada marcha. E espero que para o ano, em 2022, espero que entreguem outra vez os 30 mil euros. Isso ainda não foi discutido".

E será que as coletividades estão preparadas para o regresso das marchas no próximo ano? "Estão sim. Se tudo correr bem até vêm com mais força. É que dois anos sem marchas é muito para esta gente, é como o pão para a boca. Esta gente é tão bairrista que vão dar a camisola, o corpo, as pernas, os braços, tudo. Eles já davam, mas agora vão dar mais", garante o presidente da ACCL, que por inerência é também presidente do júri das marchas de Lisboa.

Executivo de Moedas disposto a ajudar

O concelho de Lisboa tem atualmente cerca de 300 coletividades e os problemas que as assolam já vêm de antes da pandemia. "Posso dizer-lhe que, entre o ano de 2000 e 2015, fecharam mais de cem, e não tem nada a ver com a pandemia. Houve várias questões ao longo desses anos, como o aumento das rendas em 2012, que foi uma grande machadada nas coletividades, o aumento do IMI, de todos os impostos que houve, sem que o Estado compensasse com subsídios", reclama Pedro Franco. "No Orçamento Geral do Estado existe uma percentagem para o movimento associativo, para as associações, IPSS, etc, só que às vezes esse dinheiro é desviado para outras situações, não digo que sejam mais ou menos importantes, e não chega a estas associações. É muito importante que esteja no Orçamento do Estado - e a confederação nacional fez uma proposta agora para o Orçamento, que não estava a ser contemplada e ainda estamos a falar de uns milhares de euros - uma ajuda para este movimento associativo, que tem uma grande importância e que representa cerca de 700 milhões para o PIB do país".

No que diz respeito à Câmara de Lisboa, cujo executivo mudou nas últimas autárquicas, Pedro Franco já se reuniu com o novo vereador da Cultura, Diogo Moura, e veio de lá esperançoso. "Querem fazer tudo o que nós temos programado, querem ajudar-nos naquilo que quisermos. Digo-lhe com toda a franqueza, gostei. Estava com algum receio que viessem com ideias e empregaram uma expressão que gostei de ouvir e que foi "em equipa que ganha não se mexe". E, de facto, isso está a acontecer nalguns lugares, tanto nas juntas de freguesia, como na câmara. Pessoas válidas que apresentaram trabalho e que os senhores vereadores e o senhor presidente não estão a mexer. Claro que há lugares que mexem, mas as coisas estão a correr muito bem".

ana.meireles@dn.pt