Todos os sábados Duarte Vicente acorda feliz, porque vai para o PIC - Projeto Investir na Capacidade. É uma “escola” diferente da que frequenta à semana, uma outra turma. Mas é neste espaço que este aluno do 1º ciclo de Vila Nova de Gaia sente que estimula a criatividade e desenvolve o conhecimento. “É como se o nosso cérebro florescesse”, diz. É também onde se sente mais integrado. Os colegas compreendem-no bem. “Nós só estamos juntos uma vez por semana, mas a nossa comunicação é tão boa que parece que somos amigos de longa data”.Foi por as aprendizagens formais de ensino não corresponderem às expectativas e necessidades destas crianças, muitas vezes diagnosticadas como hiperativas e desinteressadas, consideradas até incómodas, que a Câmara de Gaia decidiu lançar o PIC. Afinal, 3 a 5% das crianças têm capacidades excepcionais e muitas passam despercebidas na escola por falta de identificação, lembra Ana Santos, coordenadora do projeto.Por esta nova “escola”, cujo lançamento piloto ocorreu já no ano letivo de 2011/12, já passaram perto de 400 alunos. Todos do primeiro ciclo e com idades compreendidas entre os 8 e os 14 anos. Segundo Ana Santos, são crianças com níveis superiores no domínio da inteligência e capacidade intelectual (inteligência geral, talento verbal e pensamento linear e talento científico-matemático e pensamento não-linear); da criatividade (capacidades superiores em criatividade acentuada ou talento artístico); no domínio sócio-afetivo (capacidade e talento psicossocial nas relações humanas, convivência e liderança); e no domínio das altas capacidades físicas (talento psicomotor).São também crianças que têm “momentos de desmotivação, isolamento e, muitas vezes, apresentam uma baixa-estima” devido às suas capacidades excecionais, aponta a coordenadora. Em determinados contextos, especialmente escolares, enfrentam “problemas de insucesso e inadaptação social”. Este ano letivo, o PIC está a apoiar 28 sobredotados.As crianças são referenciadas pelos professores dos 3.º e 4.º anos de escolaridade, através do preenchimento de uma ficha (Adaptação de Ficha de Triagem de Guenther, 2011), constituída por 25 itens, explica Ana Santos. Os docentes avaliam capacidades superiores, como talento verbal, científico-matemático ou psico-motor. Os alunos que cumprem os requisitos, em um ou em vários domínios, são convidados a realizarem uma avaliação psicológica, com base nas Matrizes Progressivas Coloridas de Raven. Concluído este processo, podem integrar o projeto, de forma voluntária.No PIC, as crianças sobredotadas recebem estímulos suplementares, baseados em estratégias para o desenvolvimento das suas capacidades e talentos. Como explica Ana Santos, “não existe conteúdo programático, plano curricular formal ou avaliação”. Os alunos executam atividades de diversas áreas disciplinares, como a filosofia, as expressões artística, musical e corporal, e as ciências experimentais. É-lhes também proporcionado contacto com a academia, com agentes culturais da comunidade e momentos de reflexão crítica. “Os professores/facilitadores realizam atividades com vista ao conhecimento de si, dos outros e do mundo”, sublinha.A responsável lembra que “as famílias são pilares fundamentais no acompanhamento destas crianças e na sua integração social” e, por isso, neste ano letivo, irão ser desenvolvidas ações com os pais (Conversas (com) para pais), com o objetivo da partilha, do apoio e da utilização de estratégias para os desafios que enfrentam. Alexandra Alves, mãe do Duarte, está verdadeiramente satisfeita com os resultados do PIC. Como frisa, os professores “fazem-nos ultrapassar barreiras que até então os limitavam e exaltam neles o que de melhor são capazes de fazer e mostrar”. E não é só. Há empatia e amizade entre estes alunos. “Aqui todos se compreendem, a ‘diferença’ é o fator de atração para fomentar a socialização”, revela.O PIC é um projeto da autarquia de Gaia, que garante todas as necessidades técnicas, pedagógicas e logísticas. Conta com o apoio científico da Associação Portuguesa das Crianças Sobredotadas e da Escola Superior de Educação Paula Frassinetti.