Zelensky denuncia "genocídio" em Bucha e diz que fica mais difícil negociar

Presidente visitou a cidade nos arredores de Kiev, que esteve até há dias nas mãos dos russos, para ouvir as atrocidades que ali terão sido cometidas. Procuradora diz que situação será pior em Borodyanka. Biden voltou a acusar Putin de ser "criminoso de guerra".

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, visitou Bucha, nos arredores de Kiev, denunciando um "genocídio" e admitindo que, com as provas das atrocidades cometidas pelas forças russas nesta cidade, será mais difícil negociar com Moscovo. "É muito difícil falar quando vemos o que eles fizeram aqui", disse Zelensky. "Quanto mais a Federação Russa arrastar o processo negocial, pior é para eles, para esta situação e para esta guerra", acrescentou, envergando equipamento de proteção e rodeado de seguranças. Estava previsto que as negociações retomassem esta segunda-feira, via videoconferência, não tendo sido dadas informações sobre se decorreram ou não.

Segundo a procuradora-geral ucraniana, Iryna Venediktova, pelo menos 410 corpos de civis foram recuperados das zonas em redor da capital que recentemente voltaram a ficar sob controlo ucraniano. E a comoção internacional que causaram as imagens de corpos nas ruas de Bucha, alguns com as mãos atadas atrás das costas, poderá repetir-se nos próximos dias. Segundo Venediktova, a situação será ainda pior em Borodyanka, a 23 quilómetros, e as atrocidades vão ofuscar as cometidas em Bucha. "Em termos de baixas humanas, a situação pior é em Borodyanka. Há muito para processar", disse, citada pelos media ucranianos, sem revelar mais pormenores.

A Rússia continua a alegar que não foi responsável pelas mortes em Bucha, usando como argumento o facto de terem passado três dias desde a retirada das forças russas da cidade e a divulgação das imagens dos corpos, que pareciam recentes. O Kremlin fala em "fakes", produzidas por "radicais ucranianos", e pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas para discutir o tema. "Rejeitamos categoricamente as acusações", disse o porta-voz Dmitry Peskov.

Segundo Moscovo, os responsáveis pelas mortes foram os militares ucranianos que entraram após a saída dos russos, com o canal Russia Today a citar um vídeo publicado um membro do Batalhão Azov onde um soldado questionava se era válido disparar contra quem não usasse braçadeiras azuis, que identificam os militares ucranianos, com a resposta a ser afirmativa. Na cidade, os civis teriam sido instruídos pelos russos a usar braçadeiras brancas, para se identificarem como não-combatentes, estando estas presentes em alguns dos cadáveres nas ruas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que Bruxelas está preparada para enviar equipas de investigação para documentar os crimes de guerra na Ucrânia, em coordenação com as autoridades locais e com o apoio da Europol e Eurojust. Os EUA também apoiam o envio de uma equipa de procuradores internacionais para ajudar a recolher e analisar as provas das atrocidades que têm sido cometidas.

A União Europeia está ainda a estudar novas rondas de sanções contra a Rússia, mas o embargo ao gás e petróleo russo continua a ser difícil. Países como a Alemanha e a França anunciaram entretanto a expulsão de dezenas de diplomatas russos (40 no caso de Berlim, 35 no de Paris). No caso da Alemanha, a embaixada russa disse que este gesto irá "reduzir o espaço para manter o diálogo" entre os dois países. A Lituânia foi mais longe e expulsou o próprio embaixador, chamando também o representante lituano que estava em Moscovo.

Criminoso de guerra

O presidente norte-americano, Joe Biden, reiterou a acusação de que o homólogo russo, Vladimir Putin, é um "criminoso de guerra". Lembrando que foi criticado quando usou essa expressão pela primeira vez, Biden insistiu. "A verdade é que, vocês viram o que aconteceu em Bucha. Este tipo é brutal e o que está a acontecer em Bucha é chocante e toda a gente o viu", disse aos jornalistas. O presidente dos EUA não hesitou em apelidar os eventos de "crimes de guerra" e defendeu que deve haver um "julgamento por crimes de guerra".

Os EUA anunciaram entretanto que vão pedir a suspensão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. "As imagens vindas de Bucha e a devastação por toda a Ucrânia exigem que passemos das palavras à ação", escreveu no Twitter a embaixadora dos EUA na ONU, Linda Thomas-Greenfield. A chefe da diplomacia britânica, Liz Truss, defendeu o mesmo, indicou na mesma rede social que "dadas as fortes provas de crimes de guerra, incluindo relatos de valas comuns e carnificina hedionda em Bucha, a Rússia não pode continuar a ser membro" e deve ser suspensa. Truss reuniu com o homólogo ucraniano, Dmytro Kuleba, em Varsóvia. Este avisou que a situação em Bucha é apenas "a ponta do icebergue", exigindo sanções sérias do G7 e da União Europeia contra Moscovo.

Ataque em larga escala?

Segundo o Pentágono, dois terços das forças russas que tinham sido destacadas para a região de Kiev já saíram, a maioria voltaram para a Bielorrússia, havendo planos para serem enviadas para outros lados. "Começamos a vê-las a consolidar posições na Bielorrússia. O que continuamos a acreditar é que vão ser reequipadas, reabastecidas, talvez até reforçadas com mais homens, e depois ser reenviadas para a Ucrânia para continuar os combates noutro local", indicou um responsável sob anonimato à AFP.

De acordo com o governador de Lugansk, no leste do país, a Rússia está a preparar um ataque de larga escala nesta região. "Vemos que equipamento está a chegar de diferentes direções, estão a trazer tropas, estão a trazer combustível", disse Sergiy Gaiday, num vídeo no Telegram. "Acreditamos que estão a preparar um grande avanço em larga escala", acrescentou, apelando aos habitantes locais para deixarem a região assim que possível. "Não esperem que as vossas casas sejam bombardeadas", referiu.

O controlo total das regiões separatistas de Lugansk e Donetsk, cuja independência Putin reconheceu dias antes da invasão, poderia ser uma forma de mostrar resultados concretos. Os analistas lembram que o presidente russo é obcecado por datas simbólicas e vem aí o 9 de maio, aniversário da capitulação da Alemanha nazi em 1945, quando quererá apresentar um balanço positivo da "operação militar especial" na Ucrânia.

susana.f.salvador@dn.pt

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