Nos últimos 25 anos, cada vez que a oposição venezuelana ganhava força nas ruas, fosse para protestar contra os cortes de energia, o custo de vida ou contra a fraude eleitoral, a pergunta era sempre a mesma: de que lado vão ficar os militares? Os opositores apelavam a que se juntassem a eles, mas a cada novo protesto, mesmo os que contaram com milhões de pessoas, a resposta era sempre a mesma: do lado do regime. Uma lealdade que não é puramente patriótica, envolvendo também interesses económicos, devido aos muitos negócios em que estão envolvidos. Os olhos voltam a estar nos militares depois da queda de Nicolás Maduro, desde logo porque a Força Armada Nacional Bolivariana foi ineficaz para travar a operação dos EUA. De nada valeram os “milhares de mísseis” que Maduro dizia ter a defender o país. Ainda se está por saber se houve “traição” de algum dos membros. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, podia ter ficado numa má posição por causa disso, mas o general de quatro estrelas, no cargo há mais de 11 anos, é um dos rostos da cúpula do regime que Donald Trump manteve no poder. E é o único capaz de manter algum controlo sobre a Força Armada Nacional Bolivariana, que tem 123 mil soldados no ativo (sem contar com os 4,5 milhões das milícianos).O ex-presidente Hugo Chávez pode ter batizado as forças de “bolivarianas”, mas foi Maduro que trabalhou para “incrustar os valores do chavismo dentro do universo político e militar”, lembrava o El País há um mês, num artigo sobre a longevidade do regime. “Uma tarefa silenciosa, mas decisiva”, acrescentava o jornal espanhol, explicando que os cursos do Estado-maior incluem aulas sobre “o pensamento político” de Chávez. O foco pode ser revolucionário, mas a lealdade também é “comprada” com incentivos económicos, com inúmeros aumentos para fazer face à perda de poder de compra. Na cúpula militar, uma investigação de 2020 da organização não-governamental norte-americana Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção, revelou como dezenas de generais estavam ligados a empresas privadas em áreas como construção, petróleo ou alimentos, que estavam a receber contratos governamentais. Isto sem esquecer os negócios ilegais de narcotráfico ou extorsão - Padrino López está indiciado nos EUA, tal como Maduro. A queda do líder venezuelano pode causar divisões dentro do regime e pôr em causa todas estas empresas. Por enquanto, os militares estão nas ruas a garantir a segurança - junto com os chamados “coletivos”, grupos paramilitares afeitos ao regime. Esta terça-feira (6 de janeiro), ao princípio da manhã, foram ouvidos vários tiros perto do Palácio de Miraflores, em Caracas. O governo alegou que os tiros foram disparados contra drones, que estariam a sobrevoar o edifício. A situação na capital venezuelana parece calma, com a televisão local a passar imagens de manifestações de apoio ao regime, mas existe incerteza sobre a situação. .María Corina Machado luta para não se tornar numa vítima colateral da queda de Maduro