O ataque dos EUA à Venezuela, que levou à captura e julgamento do presidente Nicolás Maduro, ameaça tornar-se um dos temas de campanha no Brasil nas eleições marcadas para outubro. Os candidatos de oposição aproveitaram o episódio para colar a deteriorada imagem do líder venezuelano ao candidato à reeleição Lula da Silva que, momentos antes, se sentira na obrigação de condenar a ação do governo de Donald Trump.“Estes atos ultrapassam uma linha inaceitável e representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, disse o presidente do Brasil. “Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes noutros países e regiões”, prosseguiu Lula para quem esta ação “ecoa os piores momentos da interferência na política da América Latina e das Caraíbas e ameaça a preservação da região como zona de paz”.“A comunidade internacional, por meio da ONU”, rematou o chefe de Estado brasileiro, “tem de responder de forma vigorosa a esse episódio, o Brasil condena estas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”.O ataque surge, paradoxalmente, num dos piores momentos da relação entre Lula, historicamente aliado do regime de Hugo Chávez, e Maduro. Após o descumprimento por Caracas de procedimentos para assegurar a lisura das eleições de 2024, o presidente brasileiro não reconheceu a eleição do homólogo, o que levou a um troca azeda de palavras entre ambos. “Fiquei assustado com Maduro dizer que se ele não ganhar a Venezuela entra num banho de sangue, ele tem é de ganhar um banho de votos, não sangue”, disse Lula. “Quem se assustou que tome um chá de camomila”, reagiu Maduro.Em paralelo, a relação do chefe de Estado brasileiro com Trump está - ou estava - nas nuvens. “Senti uma química com ele, é muito boa pessoa e estou ansioso para negociar com ele e trabalhar no combate ao narcotráfico”, disse o presidente norte-americano sobre Lula.Por isso, a oposição brasileira apressou-se a recordar o alinhamento de Lula ao regime venezuelano. E o primeiro a reagir foi Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo que se diz candidato à reeleição a esse cargo e não ao Planalto, mesmo estando de férias. “A Venezuela agora está vencendo a esquerda, que, no final do ano, o Brasil também vença”, afirmou o governador, em referência à eleição presidencial brasileira, num vídeo publicado nas redes sociais. “O Brasil nunca cumpriu esse papel [o de líder da região], então nós podemos criticar os meios que foram usados agora, a legitimidade ou não, mas o facto é que algo precisava ser feito e foi feito”, disse ainda o governador paulista, desta vez ao jornal O Estado de S. Paulo. Gleisi Hoffmann, ministra de Lula e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, contra-atacou, lembrando o apoio de Tarcísio ao “tarifaço”, o aumento por Washington das tarifas a produtos brasileiros por influência do deputado Eduardo Bolsonaro. “Tarcísio Freitas, que vestiu boné do Trump para comemorar o tarifaço que ele impôs ao Brasil, apoiou a traição de Eduardo Bolsonaro à pátria, defendeu a amnistia aos golpistas condenados, agora tem o desplante de responsabilizar Lula pela invasão dos EUA à Venezuela. É muito cinismo para um bolsonarista só”, escreveu.Flávio Bolsonaro, que ao contrário de Tarcísio, é pré-candidato declarado, disse que Maduro vai “delatar” Lula no julgamento em Nova Iorque. “Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo [organização de partidos de esquerda latino-americanos]: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas”.Ronaldo Caiado e Romeu Zema, ambos pré-candidatos de direita, e Ratinho Junior, dado como presidenciável, também se manifestaram. “Que este 3 de janeiro entre para a história como o dia da libertação do povo venezuelano, oprimido há mais de 20 anos pela narcoditadura chavista. Que a democracia, a liberdade e a prosperidade se instalem no país”, apontou Caiado. Para Zema, o regime de Caracas “mostrou os efeitos trágicos de regimes autoritários”. “O povo venezuelano estava a ser oprimido há décadas por tiranos antidemocráticos“, disse Ratinho.Lula, entretanto, embora saiba que a Venezuela e Maduro constituem um ponto de vulnerabilidade eleitoral, razão pela qual fez uma reunião de emergência com os ministros das Relações Exteriores e da Comunicação logo após o ataque para avaliar como conter danos, acredita que tanto Trump como Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, vão ter de recorrer ao Brasil como agente de estabilização do regime de Caracas. E que a visita do presidente brasileiro à Casa Branca, conforme convite de Trump em ligação telefónica em dezembro, servirá para limar arestas entre as partes. .A maior remodelação do mundo? Lula trocará 22 ministros até abril