Donald Trump terá sido convencido por vários líderes do Médio Oriente para não intervir no Irão. Na quarta-feira à noite, disse ter sido informado “por fontes muito importantes” que “os massacres chegaram ao fim”. Num tom diferente daquele em que, horas antes, garantiu na sua rede social que “ajuda” estaria a caminho do Irão, sem especificar qual, o presidente dos Estados Unidos deixou uma frase indicativa de que a ameaça de intervir militarmente não vai concretizar-se, pelo menos no atual cenário: “Vamos observar e ver qual será o próximo passo.” Horas depois, como que a comprovar o baixar das tensões, voltaram pessoal e aeronaves que tinham sido retirados na véspera pelos EUA da base militar de Al Udeid, no Qatar. Abbas Araghchi, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano que na semana passada ouviu os líderes do Líbano a exigir o fim da interferência do seu país na política interna libanesa, conseguiu reunir apoios externos para convencer Trump e, em paralelo, vender a ideia de que os protestos não são sobre a situação económica, mas uma manobra de Israel e dos EUA. Já na quinta-feira, a porta-voz da Casa Branca relevou que as “800 execuções previstas para quarta-feira [no Irão] foram suspensas”, mas Karoline Leavitt voltou a dizer que “todas as opções estão em aberto” e que, “se a matança continuar, haverá graves consequências”. .EUA retiram pessoal e material de base aérea no Qatar após Irão prometer retaliar a um ataque.Arábia Saudita, Qatar, Omã, Egito, Turquia e Israel. De todos os países, a mesma mensagem para os EUA: um ataque norte-americano em solo iraniano poderia trazer consequências negativas, quer na possibilidade de o conflito se alastrar, quer nas consequências económicas globais. “Bombardear o Irão vai contra a lógica e os interesses dos Estados do Golfo Árabe [Pérsico]”, comentou ao The New York Times Bader al-Saif, professor assistente de História na Universidade do Kuwait. “Neutralizar o regime atual, seja através de uma mudança de regime ou de uma reconfiguração interna da liderança, pode potencialmente traduzir-se numa hegemonia sem precedentes de Israel, o que não beneficiaria os Estados do Golfo”, sustentou. Ao que o Wall Street Journal noticiou, os motivos aduzidos pelos diplomatas árabes foram outros: receiam que ataques contra o Irão perturbem o tráfego petrolífero no estreito de Ormuz, que separa o Irão dos seus vizinhos árabes e pelo qual passa cerca de um quinto do petróleo. Na sequência da guerra de Israel ao Hamas, os houthis, apoiados por Teerão, atacaram vários petroleiros no Mar Vermelho, e o Irão apresou mais do que um navio que transportava crude. Num cenário de conflito aberto, os analistas dizem que o tráfego marítimo ficaria afetado e que o preço do petróleo poderia até duplicar. Segundo ainda o jornal, as autoridades sauditas asseguraram a Teerão que não se envolveriam num possível conflito nem permitiriam que os Estados Unidos utilizassem o seu espaço aéreo para ataques. À AFP, um alto responsável saudita confirmou as notícias da démarche diplomática para alertar Trump sobre as “graves repercussões na região”. Os três países do Golfo “empreenderam esforços diplomáticos intensos de última hora para convencer o presidente Trump a dar ao Irão uma oportunidade de mostrar as suas boas intenções”, afirmou a fonte. Não foram os únicos a tentar demover o homem que diz que a única coisa que o pode deter é a sua “moralidade”. O The New York Times dá conta de que o Egito também o fez, tal como Israel. Segundo o jornal, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu falou na quarta-feira à noite com Trump, e durante a conversa telefónica o chefe de governo israelita pediu para que o ataque fosse adiado.A Turquia anunciou aos quatro ventos a sua iniciativa diplomática. Em conferência de imprensa, o chefe da diplomacia turca Hakan Fidan disse ter falado nos dois dias anteriores quer com o seu homólogo iraniano, Araghchi, quer com responsáveis americanos, para servir de ponte nas negociações com Washington. À Turquia também não interessa que a situação num país com o qual partilha mais de 500 quilómetros de fronteira degenere no caos. Ancara tem presente o que se passou noutro país vizinho, a Síria, e o influxo de milhões de refugiados. Além disso, também faz parte dos seus objetivos que a minoria curda iraniana e em especial o Partido da Vida Livre do Curdistão (PJAK), afiliado ao PKK, não aproveitem o momento para ganhar influência ou poder autonómico. Sete movimentos curdos iranianos, considerados ilegais, publicaram no dia 6 um texto de “apoio total aos protestos populares”, enquanto elementos armados das suas milícias confrontaram as forças do regime em cidades do Curdistão iraniano, região fronteiriça ao Iraque e à Turquia. Há ainda a questão económica: Trump ameaçou impor taxas aduaneiras de 25% aos países com relações comerciais com o Irão. Apesar de as relações entre Ancara e Teerão terem degradado nos últimos anos devido ao apoio do Irão ao regime entretanto deposto do sírio Bashar al-Assad, os dois países mantêm relações comerciais importantes. Por tudo isto, Fidan apelou para uma “nova cooperação” entre o Irão e a Turquia e que os Estados Unidos e o Irão “resolvam esta questão entre si”.Teerão vitimiza-se e procura apoiosO chefe da diplomacia iraniana tem estado numa roda-viva a reunir apoios enquanto reitera a narrativa de que as manifestações são instiladas pelo estrangeiro. Abbas Araghchi informou ter enviado uma carta ao secretário-geral da ONU António Guterres a dar conta dessa questão. Ao telefone com o príncipe saudita Faisal bin Farhan Al Saud, seu homólogo, disse que o seu país vai “defender-se contra toda a ameaça estrangeira” e sublinhou a importância de haver uma “condenação internacional contra a ingerência externa nos assuntos internos dos países da região”. Depois, recebeu do chinês Wang Yi a declaração de apoio de que Pequim “opõe-se ao uso ou à ameaça do uso da força nas relações internacionais, opõe-se a que os países imponham a sua vontade a outros países”. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês disse ainda que o seu país está disponível para “ter um papel construtivo” na resolução da crise.