Donald Trump e a Casa Branca, Javier Milei e a Casa Rosada. Os chefes de Estado paraguaio, Santiago Peña, salvadorenho, Nayib Bukele e chinês, Xi Jinping, bem como o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. A rede internacional de extrema direita, os BRICS, o Mercosul, a União Europeia e a Organização Mundial do Comércio. Todos estes líderes, grupos ou instituições já influíram ou, no mínimo, foram citados na pré-campanha eleitoral de 2026 no Brasil, as, por isso, mais internacionalizadas de sempre, de acordo com cientistas políticos ouvidos pelo DN e pela imprensa brasileira.Os EUA pela quantidade e pela relevância das citações lideram a lista: na quarta-feira, Washington retirou o visto da embaixadora brasileira, como retaliação à demora de Brasília na aceitação do diplomata indicado por Trump para embaixador. Tudo, dias depois de o governo de Lula da Silva, candidato à reeleição, negar vistos a dois funcionários da administração Trump que pretendiam “discutir integridade eleitoral”, isto é, lançar dúvidas sobre a segurança das urnas eletrónicas em que será realizada a votação. Dias antes, Flávio Bolsonaro, principal rival de Lula no sufrágio de 4 de outubro, havia dito que as urnas eram da Smartmatic, empresa venezuelana citada em documentos americanos sobre fraudes nas eleições da Venezuela. O Tribunal Superior Eleitoral desmentiu-o.Mas a influência dos EUA nas eleições brasileiras surge sobretudo no caso do “tarifaço” norte-americano (taxas acima da média mundial a produtos brasileiros), iniciado após pressão do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e agravado após visita de Flávio à Casa Branca. Lula chamou os filhos de Jair Bolsonaro de “entreguistas”. Entretanto, ao classificar as organizações criminosas brasileiras PCC e Comando Vermelho como terroristas, medida aplaudida pelo campo de Flávio e criticada pelo de Lula, Washington permite-se bloquear bens, cortar acesso ao sistema financeiro americano e punir cidadãos brasileiros. Em paralelo, Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, já disse que Bolsonaro é alvo de perseguição política e judicial no Brasil e que o país não é “amigo dos interesses dos EUA”, associando o Governo Lula a regimes como a China ou a Venezuela. Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado, lembra a propósito ao DN, citando entrevistas de Eduardo Bolsonaro, que um dos objetivos do bolsonarismo é, em caso de derrota, “fazer com que Trump não reconheça um eventual quarto governo de Lula, enfraquecendo-o ao ponto até de tentar um golpe”.Entretanto, o líder da Argentina, segundo maior país sul-americano, chamou Lula de “corrupto” e de “ladrão” nesta semana em entrevista. Javier Milei reforçou assim os ataques dirigidos ao homólogo brasileiro durante a convenção de oficialização da candidatura de Flávio, em São Paulo, quando o apelidou de “presidiário” e de líder de um executivo de “socialistas ladrões”.O Brasil rebaixou a relação diplomática com a Argentina, expediente usado em diferendos sérios entre países. Dias depois, Lula disse que vai reforçar as forças armadas porque “um belo dia o Paraguai decidiu invadir o Brasil”, referindo-se à chamada Guerra do Paraguai (1864-1870). Em resposta, o líder paraguaio Santiago Peña, de direita, convocou o embaixador brasileiro em Assunção e entregou nota de repúdio. Foi mais um sinal da aparente sintonia da direita e da extrema-direita que vai varrendo a América Latina - e não só. Outro sinal foi o vídeo gravado por Netanyahu, ainda na convenção do PL, partido de Flávio, a apoiar o candidato. “Em contrapartida, o governo brasileiro vem conseguindo dosar um pouco os impactos políticos ao buscar alternativas via Mercosul, via BRICS, via União Europeia e via Organização Mundial do Comércio, embora esta esteja paralisada”, lembra Roberto Georg Uebel, professor de Ciência Política da Escola Superior de Propaganda e Marketing, ao DN, sobre o uso - para os críticos, o abuso - do multilateralismo pelo governo Lula. No auge de uma crise que faz recordar os tempos da Guerra Fria, Pequim e Brasília divulgaram até uma conversa telefónica entre o presidente do Brasil e Xi Jinping após tensão com Washington.Para concluir, tanto Flávio como outro candidato presidencial de direita, Renan Santos, apoiantes das máximas “bandido bom é bandido morto” e “vamos matar quem roubar’, disputam o apoio de um expoente da extrema-direita regional, o salvadorenho Bukele, considerado implacável (mas também violador de direitos humanos) no combate ao crime.Para Eduardo Galvão, diretor da consultoria internacional Burson, “comércio, tecnologia, inteligência artificial, infraestrutura digital e sistemas de pagamento tornaram-se instrumentos de poder e estão a elevar a importância estratégica do Brasil”. “E, enquanto a eleição brasileira passou a ter maior relevância para o interesse das grandes potências, a fronteira entre política interna e externa está a ficar cada vez mais difusa porque decisões tomadas em Washington, Pequim ou Bruxelas repercutem rapidamente no Brasil”, continuou o académico, citado pelo jornal Gazeta do Povo. .Brasil de Lula enfrentou a semana diplomática mais tensa da história.Lula chama Flávio Bolsonaro de traidor da pátria a propósito de tarifas de Donald Trump