O presidente dos EUA, Donald Trump, não se limitou a ameaçar o regime iraniano ou a declarar o seu apoio aos manifestantes, optando esta terça-feira (13 de janeiro) por incentivar os “patriotas iranianos” a “continuarem a protestar” e a “assumirem o controlo das instituições”. Numa mensagem nas redes sociais, anunciou ter cancelado “todas as reuniões com os oficiais iranianos” até acabar “o assassinato sem sentido de manifestantes”, numa altura em que - segundo o próprio regime iraniano - já há mais de dois mil mortos. “A ajuda está a caminho”, concluiu em maiúsculas, sem dar mais pormenores ou explicações. .A mensagem do presidente, que mais tarde disse aos jornalistas que iam ter que “descobrir” o que ele queria dizer com “a ajuda está a caminho”, surge no mesmo dia em que Trump tinha prevista uma reunião ao final do dia com a equipa de Segurança Nacional para avaliar a situação. Se essa “ajuda” for um novo ataque militar, o analista da Sky News, Michael Clarke, diz que os potenciais alvos são as instalações nucleares (mas isso não teria impacto na repressão), as bases dos Guardas da Revolução (que por serem no centro das cidades podem resultar em mortes civis) ou as instalações petrolíferas (que teriam um grande impacto a nível económico). Os protestos começaram a 28 de dezembro, precisamente por causa do descontentamento com a situação económica, mas rapidamente ganharam força e foram subindo de tom os apelos à mudança do regime. A República Islâmica respondeu cortando a Internet no dia 8 de janeiro, para dificultar as comunicações dentro do país e o contacto com o estrangeiro, aumentando a repressão contra os manifestantes. No início do mês, no rescaldo da operação militar que levou à queda do líder venezuelano Nicolás Maduro, Trump tinha avisado que os EUA estavam preparados para ir em socorro dos manifestantes iranianos, se o regime usasse a violência contra eles como era habitual fazer. O presidente avisou que os EUA estavam “prontos para a ação”.Esta terça-feira (13 de janeiro), Trump ainda não tinha cumprido o ultimato, numa altura em que um oficial iraniano, sob anonimato, admitiu à Reuters a existência de dois mil mortos - número que inclui membros das forças de segurança e manifestantes. Mais tarde, a televisão estatal iraniana admitia o mesmo número de “mártires”. Questionado pelos jornalistas sobre se sabia quantos mortos havia no Irão, o presidente norte-americano disse que ninguém lhe conseguia dizer o número, mas que “um já é muito”.O responsável do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, Ali Larijani, respondeu entretanto à mensagem do presidente dos EUA, que incluía um pedido para os iranianos “guardarem os nomes dos assassinos e dos abusadores”. Larijani enumerou no X aqueles que disse serem “os principais assassinos do povo do Irão: 1-Trump; 2- [Benjamin] Netanyahu”, referindo-se ao primeiro-ministro israelita. .Ainda antes da mensagem de Trump, já a Rússia condenava a “ingerência externa subversiva”, considerando “categoricamente inaceitáveis” as ameaças dos EUA de novos ataques contra o Irão (após os de junho, contra o programa nuclear). E avisava para as “consequências desastrosas de tais ações para o Médio Oriente e a segurança global”.Apesar das ameaças e de nunca ter excluído novas ações militares, Trump parecia na segunda-feira (12 de janeiro) estar inclinado para procurar uma solução diplomática, com indicações de que o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Seyed Abbas Araghchi, estaria em contacto com o enviado-especial para o Médio Oriente, Steve Witkoff. Quem também já se terá encontrado com Witkoff foi Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão, segundo a Axios.Pahlavi vive no exílio nos EUA e tem incentivado os protestos, procurando desempenhar um papel numa possível transição após o fim da revolução islâmica que em 1979 levou à queda do seu pai. “Eles sabem que estão em declínio. O golpe decisivo pode ser o ponto de viragem e o KO para este regime”, disse Pahlavi, de 65 anos, numa entrevista à Fox News, na segunda-feira à noite. “Temos agora esta oportunidade de ouro. O regime está à beira do colapso. Vamos empurrá-lo para o precipício e acabar de vez com eles”, referiu. Talvez Trump tenha deixado cair a diplomacia depois de ver a entrevista. “Acredito que o presidente Trump sabe exatamente o que está a enfrentar e não está a acreditar nas tentativas desesperadas do regime de prometer negociações”, acrescentou, lembrando que “sempre que estão com as costas encostadas à parede, recorrem a essa desculpa, e já ninguém se deixa enganar.”Na segunda-feira à noite, o presidente tinha-se limitado a ameaçar com tarifas de 25% aos países que continuem a fazer trocas comerciais com o Irão - ameaçando reacender a guerra comercial com a China (o principal parceiro comercial de Teerão), numa medida que afeta também Índia, Iraque, Turquia ou Emirados Árabes Unidos. .Irão e EUA na encruzilhada entre a ameaça da guerra e a via do diálogo .Resposta europeiaDo lado da União Europeia, a aposta era em novas sanções contra o regime, assim como a possibilidade de designar a Guarda Revolucionária como organização terrorista. Já o é nos EUA, Austrália ou Canadá, além de em vários países europeus, mas tem faltado acordo a nível dos 27. Entretanto, alguns governos europeus, entre os quais o português, chamaram os embaixadores iranianos para condenar a violência contra os manifestantes..Governo chamou embaixador do Irão em Lisboa.“A coragem do povo iraniano é comovente. A resposta brutal das forças de segurança é inaceitável e expõe um regime que teme o seu próprio povo”, disse a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas. “A UE já impôs sanções abrangentes ao Irão. Estamos agora a discutir a possibilidade de impor sanções adicionais”, acrescentou, após uma reunião com o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius. A ideia é ter as sanções preparadas quando os chefes da diplomacia dos 27 de reunirem em Bruxelas, a 29 de janeiro.O chanceler alemão, Friedrich Merz, foi mais incisivo. “Presumo que estejamos a testemunhar os últimos dias e semanas deste regime”, disse quando foi questionado sobre a legitimidade da liderança iraniana, durante a sua visita à Índia. “Quando um regime só consegue manter o poder através da violência, então está efetivamente no fim. A população está agora a levantar-se contra esse regime”, acrescentou.