O regime iraniano, decapitado mas não acabado, decretou 40 dias de luto pela morte do guia supremo Ali Khamenei, ocorrida no sábado e confirmada no domingo em Teerão. Enquanto decorrem manifestações de júbilo e de luto consoante a latitude, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que os dirigentes agora ao comando do Irão estão interessados em dialogar para parar a guerra, mas o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu anunciou que as operações militares do seu país vão intensificar-se nos próximos dias. Ao segundo dia de operações militares, as forças de Israel e dos EUA prosseguiram o ataque a vários alvos militares, como o quartel-general dos Guardas da Revolução, enquanto o Irão disparou drones e mísseis em quase todas as direções, incluindo uma base naval francesa nos Emirados. O ataque mais mortífero deu-se em Beit Shemesh, Israel, onde pelo menos nove pessoas morreram, apesar de terem procurado refúgio num abrigo. Pelo menos três militares dos EUA morreram e cinco outros ficaram feridos, em local não revelado.. Numa mensagem em vídeo, o primeiro-ministro israelita disse que as suas forças ainda não estavam a operar em “plena capacidade” na campanha contra o Irão, mas que tal vai mudar. “As nossas forças estão agora a atacar o coração de Teerão com grande intensidade, e isto só vai aumentar nos próximos dias”, afirmou Benjamin Netanyahu. Entre telefonemas a líderes árabes, Trump, que se desdobrou em entrevistas para vários meios, fez ao Daily Mail uma previsão de que a operação dure até um mês. “Pensámos que serão cerca de quatro semanas”, isto porque o Irão “é um país grande”.Apesar de as suas forças terem alvejado os Emirados, Kuwait, Qatar, Bahrein, Jordânia e Omã - o país mediador das conversações indiretas entre as delegações do Irão e dos EUA -, o presidente iraniano procurou arrastar os países muçulmanos para o conflito ao considerar a liquidação de Khamenei como uma “clara declaração de guerra aos muçulmanos, em especial aos xiitas de todo o mundo”. O xiismo é o ramo do islão dominante no Irão, mas minoritário face ao sunismo. “A América e Israel devem saber que esta ação lhes trará nada senão humilhação”, disse ainda Pezeshkian. O presidente, que desempenha o papel de um dos três membros do Conselho de Liderança temporário formado no domingo, afirmou que esse órgão iniciou o seu trabalho e continuará “de forma poderosa o caminho do imã e do querido líder”, à medida que as Forças Armadas iranianas “continuam a destruir as bases dos inimigos”. Nessa lógica, os meios de comunicação iranianos deram como certo que os Guardas da Revolução atingiram o porta-aviões USS Abraham Lincoln com quatro mísseis balísticos. Uma alegação desmentida pelos EUA. Em sentido oposto, os norte-americanos revelaram ter utilizado os bombardeiros furtivos B-2 na véspera para atacar as instalações de mísseis balísticos do Irão com bombas de 900 quilos. Os B-2, invisíveis nos radares do Irão, foram usados em junho para destruir as instalações nucleares. À época, Donald Trump disse que as três instalações, Fordow, Natanz e Isfahan, foram “total e completamente obliteradas”. Dias depois, fontes do Pentágono admitiram à CNN que os bombardeamentos não destruíram os componentes centrais do programa nuclear, embora este possa ter sido atrasado. Noutra frente das operações, o presidente norte-americano disse na sua rede social que as suas forças destruíram e afundaram nove navios da Marinha iraniana, “alguns deles relativamente grandes e importantes”. Afirmou ainda na Truth Social ter sido destruído “o seu quartel-general naval em grande parte”.Mas as declarações que poderão revestir-se de maior importância para o futuro do conflito foram emitidas por Trump à revista The Atlantic, quando disse que os novos líderes do Irão estão interessados em entabular uma comunicação direta com o presidente. “Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então vou conversar com eles. Deveriam tê-lo feito antes.” Recusou-se, no entanto, a dizer quando iria entrar em contacto com a nova liderança iraniana, nem com quem em específico. “Não posso dizer-lhe isso.”Ahmadinejad entre os mortosJá à Fox News, Trump disse que o bombardeamento às instalações em que Khamenei se encontrava matou “48 dirigentes”. Segundo a agência iraniana Tasnim, foram mortos sete homens de topo. Entre as identidades divulgadas estão Ali Shamkhani, conselheiro próximo do guia supremo, e secretário do Conselho de Defesa do Irão, um órgão criado depois da guerra de junho, o que incluía a supervisão das negociações entre EUA e Irão; Aziz Nasizardeh, ministro da Defesa desde a eleição de Pezeshkian; Abdoulrahim Mousavi, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; e Mohammad Makpour, comandante dos Guardas da Revolução. Para o lugar deste último terá sido nomeado o general Ahmad Vahidi, procurado pela Interpol pela sua participação na atentado a um centro comunitário judaico na Argentina, em 1994. Outro nome graúdo do regime morto nos bombardeamentos de sábado foi Mahmoud Ahmadinejad. Presidente entre 2005 e 2013, vivia no mesmo bairro no qual estavam situadas as instalações em que Khamenei se encontrava, Narmak.Outros mortos no bombardeamento de sábado são da família de Khamenei: uma filha, uma bisneta de 14 meses, um genro e uma nora. Um sobrinho de Khamenei não se mostrou de luto pelas perdas. Mahmoud Moradkhani, exilado em França, disse à AFP estar “feliz, como a maioria dos iranianos”, pela esperança de que a morte do ayatollah seja “um passo em frente” para o fim do regime.