Donald Trump ainda tem de convencer os seus compatriotas, a começar pelos seus apoiantes da fação MAGA, bem como os israelitas, de que o entendimento a assinar com o Irão é positivo, mas do Grupo dos 7 levou palavras de incentivo para levar na bagagem do Air Force 1. “Muito bom acordo”, saudou Emmanuel Macron, que preside este ano ao G7. Já o próprio presidente dos EUA considerou o acordo “um muro contra a arma nuclear”.“Saudamos o muito bom acordo alcançado entre os Estados Unidos e o Irão pelo presidente Trump. É um acordo que apoiamos, porque põe fim a uma situação de grande instabilidade, com impactos significativos nas nossas economias, como todos vocês podem ver dia após dia”, disse o chefe de Estado francês na conferência de imprensa de encerramento da cimeira que decorreu desde segunda-feira em Évian-les-Bains. Na declaração final sobre temas geopolíticos, os líderes do G7 elogiaram o progresso diplomático e o próprio líder dos EUA : “Saudamos o anúncio de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão, alcançado sob a firme liderança do presidente Trump, com o apoio dos países mediadores, que oferece uma oportunidade histórica para impedir que o Irão obtenha qualquer arma nuclear e para enfrentar as ameaças relacionadas com as suas atividades regionais e balísticas.”.Macron elogia “mudança de abordagem” do G7 sobre Kiev e aproximação dos EUA à Europa.Também em conferência de imprensa, Trump voltou a falar sobre o entendimento obtido com Teerão. Voltou a criticar o acordo nuclear internacional que comprometeu o Irão à comunidade internacional — “O acordo de Obama foi um dos mais parvos que alguma vez vi, era um caminho para a arma nuclear” — e repetiu distorções antigas de que o ex-presidente democrata tinha “oferecido 1,7 mil milhões em dinheiro vivo num Boeing 757”. Decorrente do acordo assinado em 2015, os EUA devolveram ao Irão o dinheiro de uma aquisição militar que não chegou a ser entregue devido à revolução de 1979. Parte desse valor foi entregue em numerário. “Ele tentou subornar para se safar, eu não fiz isso. Sabem o que os iranianos fizeram? Riram-se de Obama e disseram que ele é um estúpido filho da mãe”, prosseguiu. Já este entendimento “é um muro contra a arma nuclear”, alega.Uma versão do acordo foi revelada pelo site Al Arabiya e pela Bloomberg (ver abaixo). Ao final do dia funcionários dos EUA leram a jornalistas a sua versão do acordo, a qual acrescentava prever a diluição do urânio enriquecido no local, sob a supervisão da Agência Internacional para a Energia Atómica.Questionado sobre o ponto do financiamento de 300 mil milhões de dólares, cortou cerce: “Isso é falso.” Sobre os ativos iranianos congelados durante a guerra já mostrou outra abertura. “Não é nosso dinheiro, é deles, e nós congelámo-lo. Em determinado momento, acho que vamos ter de o devolver.” Admitiu ter pensado em apoderar-se dessa quantia, mas isso seria maus para o seu país: “Se não o devolvêssemos, ninguém mais voltaria a investir no dólar.” Trump admitiu que um dia de bombardeamentos custa “muito dinheiro”, entre 500 e 700 milhões de dólares e, pior, que as munições acabariam em breve. “Ficaríamos sem reservas em cerca de quatro semanas”, revelou. Também lançou a hipótese de o documento vir a ser assinado antes de sexta-feira, como estava previsto. A reunião entre as delegações chefiadas pelo vice-presidente dos EUA J.D. Vance e o presidente do Parlamento do Irão Bagher Ghalibaf, deverá manter-se em Bürgenstock, Suíça. Mas a assinatura poderá ser rubricada pelos presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian, sugeriu o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano.Trump afirmou ter dito ao primeiro-ministro israelita que Israel devia estar satisfeito com o acordo porque isso significa “que não vão ser bombardeados com armas nucleares”. Sobre Israel e o Líbano, o presidente dos EUA voltou a lançar críticas à forma como Benjamin Netanyahu ataca o Hezbollah: “Quando dois drones são lançados no deserto e caem sem causar dano, não é preciso destruir prédios em Beirute.” As críticas continuadas podem ser vistas como uma forma de exercer pressão sobre Israel, uma vez que o primeiro ponto do acordo incide também sobre o fim das hostilidades no Líbano. A esse propósito, o presidente libanês Joseph Aoun defendeu a continuação das negociações diretas do seu país com Israel. Já o chefe do Hezbollah Naim Qassem, enquanto se felicitou com o acordo, rejeitou os apelos para o desarmamento do partido-milícia e disse que se deve aproveitar para “expulsar Israel” do sul do país.Noutra passagem que deve ter deixado israelitas e países vizinhos em alerta, Trump defendeu que o Irão tem tanto direito a ter mísseis balísticos quanto a Arábia Saudita ou o Qatar. “Se outros países os têm, é um pouco injusto eles não terem alguns.” E tentou justificar: “Um míssil balístico não é a mesma coisa do que quando falamos de nuclear.”Críticas dos republicanosNos EUA, senadores republicanos, que já se mostravam céticos, foram críticos para com o memorando. “Esta é a pior asneira de política externa em décadas”, escreveu Bill Cassidy, do Louisiana. Já Ted Cruz, eleito pelo Texas, e considerado um falcão no que respeita ao Irão, disse: “Dar biliões de dólares a lunáticos teocráticos que querem matar-nos não é uma boa ideia.” Cruz disse ainda que Trump está a ser mal aconselhado. Já o líder da maioria republicana no Senado manteve um tom mais moderado, ao acreditar que entre o memorando e o acordo final muito irá mudar. Ainda assim, John Thune disse haver "um monte de coisas" sobre as quais os senadores irão questionar a presidência.O memorando de entendimento (segundo a Al Arabiya e a Bloomberg)1. A República Islâmica do Irão e os Estados Unidos, juntamente com os seus aliados no conflito em curso, declaram, no momento da assinatura deste memorando de entendimento, o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, e comprometem-se a não levar a cabo qualquer ação hostil entre si, abstendo-se da ameaça ou do uso da força. O acordo final confirmará as disposições deste artigo e dos restantes artigos.2. A República Islâmica do Irão e os Estados Unidos comprometem-se a respeitar mutuamente a soberania e a integridade territorial de cada um, e a abster-se de interferir nos assuntos internos do outro.3. A República Islâmica do Irão e os Estados Unidos comprometem-se a negociar e a alcançar um acordo final num prazo máximo de 60 dias, prorrogável por mútuo consentimento.4. Imediatamente após a assinatura deste memorando de entendimento, os Estados Unidos levantarão o bloqueio naval e impedirão qualquer interferência ou obstáculo contra a República Islâmica do Irão, restaurando o tráfego num prazo máximo de 30 dias para a sua plena capacidade; o tráfego de navios será proporcional ao volume de tráfego anterior à guerra por parte da República Islâmica do Irão. Os Estados Unidos comprometem-se igualmente a retirar as suas forças das áreas circundantes no prazo de 30 dias após o acordo final.5. Com a assinatura deste memorando de entendimento, a República Islâmica do Irão tomará imediatamente medidas para garantir que a circulação de navios mercantes do Golfo Pérsico para o Mar de Omã e vice-versa seja retomada, no prazo de 30 dias, ao volume anterior à guerra, tendo em conta a necessidade de remoção de obstáculos técnicos e a neutralização de minas por parte do Irão.6. Os Estados Unidos comprometem-se, juntamente com os seus parceiros regionais, a criar um plano abrangente acordado por ambas as partes para a reabilitação e o desenvolvimento económico da República Islâmica do Irão, garantindo um financiamento de pelo menos 300 mil milhões de dólares. O mecanismo de aplicação deste plano, enquanto parte do acordo final, será formulado no prazo de 60 dias.7. Os Estados Unidos comprometem-se a pôr fim, segundo um calendário a acertar como parte do acordo final, a todos os tipos de sanções atualmente aplicadas à República Islâmica do Irão, incluindo as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e do conselho de governadores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), bem como todas as sanções unilaterais norte-americanas, tanto primárias como secundárias.8. A República Islâmica do Irão reitera que jamais produzirá armas nucleares. A República Islâmica do Irão e os Estados Unidos acordaram que o destino do material enriquecido e o destino de todas as demais questões nucleares mutuamente acordadas, incluindo as necessidades nucleares do Irão, serão adequadamente tratados num acordo final; o acordo final confirmará as disposições deste artigo.9. A República Islâmica do Irão e os Estados Unidos acordam que, enquanto se aguarda um acordo final, manterão o statu quo: o Irão manterá o statu quo no seu programa nuclear, e os Estados Unidos não imporão novas sanções ao Irão nem reforçarão as suas forças na região.10. Os Estados Unidos comprometem-se a que, imediatamente após a assinatura deste memorando de entendimento e até à data do levantamento das sanções, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emita isenções para a exportação de petróleo bruto iraniano, produtos petroquímicos e seus derivados, e todos os serviços conexos, incluindo serviços bancários, seguros, transportes e similares.11. Os Estados Unidos comprometem-se a que, tendo em conta os progressos nas negociações conducentes a um acordo final, os fundos e ativos congelados ou bloqueados da República Islâmica do Irão sejam libertados e disponibilizados na sua totalidade. Estes fundos, quer sejam detidos na conta principal, quer sejam transferidos, serão utilizados para qualquer pagamento ao beneficiário final determinado pelo Banco Central da República Islâmica do Irão e estarão plenamente disponíveis para utilização. Os Estados Unidos comprometem-se a emitir todas as autorizações e licenças necessárias neste âmbito.12. A República Islâmica do Irão e os Estados Unidos acordam que será estabelecido um mecanismo de implementação para supervisionar a execução bem-sucedida e o cumprimento futuro do acordo final.13. Na sequência da assinatura deste memorando de entendimento, e após receção de garantias relativas ao início da aplicação dos artigos 4, 5, 10 e 11 do presente memorando de entendimento, bem como da aplicação continuada dessas medidas, a República Islâmica do Irão e os Estados Unidos iniciarão negociações para um acordo final exclusivamente no que diz respeito aos restantes artigos.14. O acordo final será aprovado mediante uma resolução vinculativa do Conselho de Segurança da ONU.