A narrativa sobre quem decidiu o quê no início do ataque israelo-norte-americano ao Irão voltou a ser escrita. Horas depois de o secretário de Estado Marco Rubio ter dito que o seu país foi praticamente forçado a acompanhar Israel, o presidente chamou a si a responsabilidade por ter dado a ordem. Ao receber o chanceler alemão na Casa Branca, Donald Trump aproveitou ainda para criticar os governos do Reino Unido e de Espanha, e comentar sobre quem preferia na linha de sucessão a Ali Khamenei. O quarto dia da operação militar ficou marcado, segundo Israel, pela destruição da sede secreta do programa nuclear iraniano, assim como pela movimentação de tropas israelitas para o sul do Líbano, enquanto outro dirigente de topo iraniano terá sido morto em Beirute. Questionado por um jornalista na Sala Oval, durante a conferência de imprensa conjunta com Friedrich Merz, sobre se Israel o forçou a lançar os ataques contra o Irão e se foi o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu quem envolveu os Estados Unidos, Trump respondeu: “Não, eu é que talvez tenha forçado a mão deles. Estávamos a negociar com estes loucos [os dirigentes iranianos], e a minha opinião era a de que eles iriam atacar primeiro.” Para completar: “Se nós não o fizéssemos, eles atacariam primeiro. Senti isso com grande convicção. Quanto muito, eu é que poderia ter forçado a posição de Israel. Mas Israel estava preparado, e nós estávamos preparados.”Além de revelar ter decidido agir não com base em informações, mas pela sua convicção, Trump contradisse o chefe da diplomacia. No final de uma reunião com os líderes do Congresso, na segunda-feira, Marco Rubio justificou a participação dos EUA de outra forma: “Sabíamos que iria haver uma ação israelita. Sabíamos que isso precipitaria um ataque contra as forças norte-americanas, e sabíamos que, se não agíssemos preventivamente contra eles [iranianos] antes que lançassem esses ataques, sofreríamos mais baixas.”No domingo, os congressistas foram informados pelos serviços militares não haver indicações de que o Irão planeava um ataque preventivo contra o seu país. Esta aparente incoerência discursiva junta-se aos objetivos traçados (num dia é a mudança de regime, no outro incapacitar o Irão de ter armas nucleares e mísseis balísticos), o tempo esperado para a operação (de até quatro semanas até ao “tempo que for necessário”) e até a natureza da operação, quando Trump admitiu a hipótese de enviar tropas para o terreno.. Noutra revelação junto de Merz, Trump disse que a melhor escolha para suceder a Ali Khamenei é “alguém de dentro” do regime, e que a sua administração andava a observar um grupo, mas que este pode estar morto. Considerou haver uma “terceira vaga” prestes a ascender, mas admitiu desconhecer as pessoas em questão. “Suponho que o pior cenário seria fazer isto, e depois alguém assumir o poder e ser tão mau quanto o anterior.”Mais uma vez desvalorizou a hipótese de o filho do xá encabeçar uma hipotética transição. “Parece ser uma pessoa simpática”, disse de Reza Pahlavi, mas confirmou notícias anteriores de que a administração americana não o considera seriamente, afirmando a sua preferência “por alguém que esteja lá e que seja atualmente popular”.Estas declarações, tendo em conta a oposição dividida e o regime aparentemente funcional, poderão deixar os iranianos opositores mais cautelosos. No sábado, Trump tinha apelado aos iranianos para “tomarem o governo”. O presidente dos Estados Unidos reservou ainda palavras críticas e ameaças a britânicos e aos “terríveis” espanhóis. Afirmou-se surpreendido pela falta de cooperação relacionada com o uso das bases aéreas. Ameaçou de seguida “cortar todo o comércio com Espanha”. O governo de Pedro Sánchez recordou que a política comercial com os EUA é acordada ao nível europeu. Sobre o Reino Unido, Trump disse estar “muito dececionado”, mas reconheceu que os tempos não são os de Churchill. Keir Starmer disse no Parlamento que “não se muda um regime político a partir do ar”..Drones Shahed: são lentos, são barulhentos, mas estão a causar muitos estragos no Golfo.Sede do programa nuclear destruídoIsrael disse ter completado 1600 missões aéreas no Irão, o que incluiu a “inutilização de cerca de 300 lançadores de mísseis”. O número de bombas lançadas já ultrapassou o da guerra dos 12 dias, em junho passado. Entre os alvos de terça-feira, consta a sede responsável pelo programa nuclear militar secreto, que terá sido destruída. “No interior desta sede, um grupo clandestino de cientistas nucleares especializados em Física explorava capacidades secretas com o objetivo de obter armas nucleares”, alegou um porta-voz do Exército israelita.Horas antes, também atingiu o local onde o Conselho de Peritos, o órgão clerical de eleição do novo guia supremo, estaria reunido, em Qom. Mais tarde, foi noticiado que os 88 clérigos estariam reunidos à distância, pelo que terão escapado. Quem não terá escapado foi Daoud Alizadeh, o comandante interino da Força Quds no Líbano. Segundo o Exército israelita, foi morto num ataque aéreo em Teerão.Em França, numa mensagem televisiva, o presidente Emmanuel Macron disse estar a construir uma coligação para garantir o tráfego marítimo através do estreito de Ormuz. Confirmou a notícia de que o porta-aviões Charles de Gaulle está a caminho do Mediterrâneo oriental para ajudar à passagem de navios de forma segura pelo canal do Suez e pelo Mar Vermelho. E explicou o posicionamento do seu país face ao conflito. "A França não pode aprovar as ações militares levadas a cabo pelos Estados Unidos e Israel porque estão fora do direito internacional", disse Macron, embora tenha responsabilizado a teocracia iraniana. "A história nunca chora pelos carrascos do seu próprio povo, e nenhum fará falta."Auxílio a ChipreA França vai enviar uma fragata “equipada com sistemas antimísseis e antidrones” para proteger Chipre, na sequência do ataque iraniano de drones. O Reino Unido - que mantém território soberano em duas bases da ilha - também vai enviar um navio de guerra. A Grécia já tinha enviado duas fragatas e aviões F-16.Zelensky faz propostaO presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em conversa com o presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeque Mohammed bin Zayed, propôs aos países aliados dos EUA na região trocarem os seus mísseis dos sistemas de defesa aérea Patriot por intercetores de drones ucranianos para se protegerem dos drones iranianos. Os mísseis PAC-3 para os Patriot são eficazes para derrubar mísseis balísticos russos, mas escasseiam na Ucrânia. Natanz fora de perigo A Agência Internacional de Energia Atómica confirmou danos nos edifícios do complexo nuclear subterrâneo de Natanz, no Irão, bombardeado no domingo, mas afastou “qualquer consequência radiológica”.Meloni e o ministro em férias O Movimento 5 Estrelas pediu a demissão do ministro da Defesa italiano Guido Crosetto porque este ficou preso no Dubai, onde se encontrava de férias, quando eclodiu a guerra. Segundo a imprensa, a PM Giorgia Meloni não escondeu a surpresa pelo sucedido. Crosetto, que regressou via Omã num avião militar, pediu desculpas públicas e disse ter pagado a despesa do seu bolso.