A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, foi ontem à Casa Branca procurar o apoio de Donald Trump. Mas por muito que a porta-voz do presidente dos EUA, Karoline Leavitt, diga que ela é uma “voz corajosa” do povo venezuelano e que Washington espera que “um dia” haja eleições, Trump está para já satisfeito com a líder interina do país, Delcy Rodríguez. Após um telefonema na quarta-feira, Trump disse que a antiga vice de Nicolás Maduro era “uma pessoa fantástica” e Leavitt explicou que está a cumprir “com todas as exigências e pedidos dos EUA e do presidente”. A reunião correu “muito bem”, limitou-se a dizer María Corina Machado à saída, depois de ter chegado em silêncio duas horas antes à Casa Branca, para um almoço à porta fechada com Trump. Cumprimentando os muitos venezuelanos que a esperavam no exterior do edifício, disse-lhes: “Saibam que contamos com o presidente Trump para a liberdade da Venezuela.”A líder da oposição seguiu depois para uma reunião com senadores no final da qual disse ter transmitido ao presidente americano a vontade do povo venezuelano de construir estruturas democráticas que garantam as liberdades dos cidadãos e permitam atender “ao colapso da saúde e da educação”. A opositora garantiu que Trump lhe expressou “o quanto se importa” com a situação na Venezuela e explicou ter entregue a sua medalha do Prémio Nobel da Paz a Trump. “Entreguei-lhe a medalha. E disse: ‘Há 200 anos, o general Lafayette entregou ao presidente uma medalha com a face de George Washington a Simón Bolívar, que ele sempre guardou com carinho. Exatamente 200 anos depois, o povo de Bolívar está a devolver a Washington uma medalha em reconhecimento”, afirmou, não sendo claro se Trump aceitou.A 10 de outubro Machado foi distinguida com o Nobel da Paz, um prémio que Trump nunca escondeu querer para si. A líder opositora ainda dedicou o galardão ao presidente dos EUA, mas não terá sido suficiente e mostrou-se disponível para lhe dar o prémio. O que fez ontem.María Corina Machado já sabia ao que ia na Casa Branca, depois de Trump deixar claro logo no dia em que os EUA depuseram Maduro que preferia colaborar com o resto do regime venezuelano do que com a oposição. O presidente disse então que a líder do partido Vente Venezuela (Vamos Venezuela) era uma “pessoa muito amável”, mas que “não conta com apoio, nem respeito dentro do seu país”. Um revés para a lusodescendente, que venceu as primárias de 2023, mas foi impedida de concorrer contra Maduro em 2024, optando por apoiar a candidatura do diplomata quase desconhecido Edmundo González (que muitos reconhecem como o verdadeiro vencedor, com base nas atas eleitorais recolhidas pelos opositores por todo o país).Com o almoço na Casa Branca, a líder da oposição esperava poder reconstruir as pontes com Trump - que numa entrevista à Reuters, na véspera, disse que ela era uma “mulher simpática”. A sua assessoria de imprensa tinha revelado antes que ia a Washington para transmitir ao presidente o “agradecimento” do povo venezuelano “pelo seu apoio inquebrável à democracia e à justiça”, assim como pedir-lhe que intercedesse a favor dos presos políticos. Na véspera de receber María Corina Machado, Trump falou ao telefone pela primeira vez com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez - que ontem à noite fez o discurso do Estado da Nação na Assembleia Nacional, pedindo “diplomacia” com os EUA e reformas no setor petrolífero para permitir mais investimento estrangeiro. “Tivemos uma excelente conversa e ela é uma pessoa fantástica”, disse Trump aos jornalistas na quarta-feira, na Sala Oval. “De facto, é alguém com quem temos trabalhado muito bem”, explicou. Na Truth Social, o presidente acrescentou que “estamos a fazer progressos enormes enquanto ajudamos a Venezuela a estabilizar e a recuperar”, alegando terem falado de muitos temas, incluindo petróleo, minerais, comércio e segurança nacional. “Esta parceria entre os EUA e a Venezuela será espetacular para todos. A Venezuela será em breve grande e próspera novamente, talvez mais do que nunca!”Delcy Rodríguez disse no X que teve “uma longa e cordial conversa telefónica” com Trump, “conduzida num contexto de respeito mútuo, na qual abordámos uma agenda de trabalho bilateral em benefício dos nossos povos, bem como questões pendentes entre os nossos governos”. Nem uma palavra pública sobre se houve referência no telefonema a Nicolás Maduro, que foi deposto na operação militar dos EUA a 3 de janeiro e está preso em Nova Iorque, para ser julgado por narcoterrorismo e narcotráfico. .EUA apreendem mais um petroleiro com alegadas ligações à Venezuela (com vídeo)