O ministro dos Negócios estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi.
O ministro dos Negócios estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi.EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

Teerão classifica 600 mortos como "terroristas" enquanto UE condena repressão

Governo iraniano admite mais de três mil vítimas mortais, mas atribui violência a agentes externos. Parlamento Europeu homenageia manifestantes e comunicações permanecem sob forte restrição.
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O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, através do ministro Abbas Araqchi, apresentou esta sexta-feira (23) um balanço oficial da vaga de protestos que assola o país, alegando que entre os 3117 mortos confirmados pelas autoridades, pelo menos 600 foram identificados como "terroristas".

Teerão sustenta que estas vítimas pertenciam a grupos armados e "sabotadores" apoiados por potências estrangeiras, incluindo Israel e os Estados Unidos, numa tentativa de deslegitimar as manifestações que começaram em dezembro (em protesto contra a elevada inflação e as más condições de vida) e evoluíram para uma contestação política sem precedentes.

A narrativa oficial do regime é, no entanto, refutada por organizações de direitos humanos e pela comunidade internacional. A organização Iran Human Rights e a Amnistia Internacional indicam que o número real de mortos poderá ser muito superior, ultrapassando os cinco mil, e denunciam o uso de munição real contra civis desarmados.

Em resposta, a União Europeia endureceu o seu discurso. Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, liderou um momento de homenagem às vítimas durante a primeira sessão plenária de 2026, afirmando que "o povo do Irão não precisa de silêncio" e que a coragem dos manifestantes merece o reconhecimento global.

Também a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, classificou a resposta de Teerão como "desproporcional" e "brutal", estando já a ser preparadas novas sanções coordenadas com o Reino Unido.

Isolamento intermitente

No que toca às comunicações, o país vive uma situação de isolamento digital intermitente. Após o apagão quase total da internet iniciado a 8 de janeiro, as autoridades começaram esta sexta-feira a restabelecer o serviço de forma parcial e altamente filtrada. Organizações de monitorização como a NetBlocks confirmam que, embora o tráfego esteja a ser retomado nalgumas regiões, o acesso a redes sociais e plataformas de mensagens continua bloqueado, e a velocidade da ligação é deliberadamente limitada (o chamado throttling) para impedir a partilha de vídeos dos protestos e a organização de novos ajuntamentos.

A Guarda Revolucionária iraniana avisou que a decisão final sobre o restabelecimento total da conectividade será tomada apenas quando a "segurança plena" for garantida, o que poderá demorar mais duas semanas.

Enquanto o governo tenta projetar uma imagem de controlo total, a pressão diplomática intensifica-se, com a ONU a solicitar uma investigação independente sobre os "massacres" relatados durante o período de maior censura informativa, que pode ter sido usado para esconder a magnitude da violência estatal.

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