O cenário após um ataque russo em Kharkiv, a 23 de maio.
O cenário após um ataque russo em Kharkiv, a 23 de maio.SERGEY BOBOK / AFP)

Stephen Bronner. “As negociações vão ter que ser impostas de fora, na Ucrânia e em Gaza”

O professor de Ciência Política da Universidade de Rutgers e codiretor do Conselho Internacional de Diplomacia e Diálogo esteve em Lisboa para os Mafra Dialogues.
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Ao DN falou de como a guerra na Ucrânia está a ser vista nos EUA, das comparações com o conflito entre Israel e o Hamas, e dos cenários das presidenciais de novembro nos EUA.

A guerra na Ucrânia ainda é uma prioridade para os EUA face à guerra em Gaza, e tendo em conta que a China, não a Rússia, é considerada a maior ameaça para a política externa norte-americana?
Quando a guerra começou, havia um apoio enorme e um entusiasmo pelos ucranianos. As pessoas estavam emocionadas com a sua resiliência e capacidade de resistência ao invasor. Agora... a verdade é que os EUA, e usando o Vietname como um exemplo, não são muito bons no que diz respeito a um apoio alargado. Especialmente para qualquer aventura militar e quando começam a perder. E claramente a situação já não é o que era. No início, parecia que seria uma questão de meses até a Ucrânia dar a volta. Foi ingénuo e excessivamente otimista. E agora, claro, há problemas imensos.

Acha que a postura do presidente Joe Biden tem sido a melhor?
Acho que a política do presidente Biden tem sido muito boa. Ele garantiu um apoio alargado, um apoio que é necessário para revitalizar a NATO e para os EUA tentarem restringir e enviar uma mensagem para uma antiga superpotência que está a tentar reclamar o império que perdeu. E claro, isto solidifica os laços norte-americanos com a Europa e com alguns pequenos países da região na fronteira com a Ucrânia. Há um medo enorme, que vem de 1938, em relação à forma como os Aliados ocidentais apaziguaram Hitler... Acho que essa é uma falsa analogia. O apaziguamento é um problema quando parece que o outro lado está a ganhar e a ganhar rapidamente. E não é esse o caso aqui. Acho que talvez seja possível que o presidente Putin, se for bem-sucedido na Ucrânia, possa atacar a Moldávia e outros pequenos países frágeis, mas seria necessário gastar muitos recursos e meios humanos para pensar num ataque sério à Europa. Essa é a minha opinião.

Mas considera que a ajuda dos EUA tem sido suficiente?
É algo estranho, porque apesar de Biden ter dado muita ajuda militar à Ucrânia, a ajuda é temperada, tanto na questão do que é dado - por exemplo, os EUA não deram F16 - como no facto de a ajuda estar a chegar de forma regrada. Não é como se todos os “brinquedos” militares estão a ser enviados em cinco minutos, prontos para ser usados. E claro, o presidente deixou claro que não haverá militares norte-americanos no terreno. O último ponto que gostaria de tocar é uma das críticas que faço. Acho que é importante colocar condições à ajuda que é enviada para a Ucrânia. Como foi feito em relação a Israel, quando se disse que se não der determinados passos em direção à paz, o apoio militar dos EUA pode ser diminuído. 

Mas não acha que é uma situação totalmente diferente? A Ucrânia foi invadida, está a defender-se, a tentar recuperar o território, enquanto Israel é quem está a atacar Gaza para tentar desmantelar o Hamas, após o ataque terrorista do 7 de Outubro, matando nesse processo inúmeros civis...
É um ponto importante. Como eu vejo, a questão não é simplesmente o Governo. É sempre um erro, da mesma forma com Israel e o Hamas, identificar os interesses da liderança com os interesses dos cidadãos. Na Ucrânia, o país está a ser completamente obliterado. É uma desgraça em termos de Direitos Humanos, tal como Gaza, onde milhões estão internamente deslocados, a infraestrutura está obliterada... Da mesma forma, o presidente Zelensky identificou os seus interesses com a vitória, pura e simples. Não acho que isso seja do interesse dos cidadãos. É outra semelhança com a situação no Médio Oriente, a obstinação de ambos os lados, de ambos os líderes. O presidente Zelensky disse que não irá negociar até todas as tropas russas terem saído do solo ucraniano. O presidente Putin disse que não vai negociar até as suas conquistas terem sido reconhecidas. O que isso basicamente significa é que não há negociações a não ser que as exigências de cada lado sejam cumpridas primeiro. 

E é impossível conciliar ambas...
Certo. Se as exigências de cada lado são cumpridas primeiro, então não há razão para negociar. Por isso acho que as negociações vão ter de ser impostas a partir de fora, na Ucrânia e em Gaza. Independentemente das diferenças.

O último pacote de ajuda à Ucrânia demorou mais de um ano a ser aprovado e só agora está a chegar à frente. E o que vemos é a Rússia a avançar, com os ucranianos a ter dificuldades para se defenderem. Ao atrasar essa ajuda, será que os EUA não tornaram mais difícil chegar a uma posição de negociar?
Na minha opinião, e esta é uma posição que também sempre tomei em relação aos palestinianos, a questão é: será que querem minimizar as perdas ou continuar a apostar que, apesar de estarem a perder, no final vão ganhar? Será que isso faz sentido? Eu iria mais para a primeira hipótese do que para a segunda, embora seja menos dramático e menos heroico. Mas o que levantou foi uma preocupação crucial. O problema não foi com esse pacote de ajuda. O problema não foi o presidente Biden ou os democratas. O problema foram os republicanos. E também, tenho de dizer, a extrema-esquerda do Partido Democrata. De certa forma, os extremos unem-se. Para os republicanos, o isolacionismo é um tema que remonta ao presidente Wilson e à Liga das Nações, nos Anos 1920. A ideia da América Primeiro, que o ex-presidente Trump usa, era o slogan do movimento quase fascista dos Anos 1930. O movimento da América Primeiro queria que a América ficasse de fora do conflito entre fascistas e antifascistas e, nesse processo, tender a favor dos fascistas. Hoje, para os republicanos, a situação é semelhante. O partido quer que os EUA fiquem de fora da batalha, de forma a ajudar a Rússia. Se recuarmos uns anos e pensarmos nas ligações que existiam entre Putin e Trump, é claro que a posição que foi apresentada foi basicamente ordenada pelo ex-presidente, que tem muito controlo do partido nesta altura.

E no caso dos democratas?
Com os democratas da extrema-esquerda é um pouco diferente. Na minha opinião, eles têm uma certa visão de um anti-imperialismo romântico. E isso envolve uma desconfiança dos EUA em questões de política externa. Alguns têm uma certa tendência de olhar para Putin com um olho na antiga União Soviética, de uma forma romântica. É completamente irrealista. Além disso, alguém me disse isto e há uma certa verdade: a esquerda americana que tem problemas em entender algo em que os EUA não são os vilões. Isso é uma posição que remonta, na realidade, à Guerra Fria e às lutas contra a Guerra no Vietname, pelas quais tive grande simpatia. A falta de confiança que é dada à NATO por esta setor da cidadania é real e tem raízes sérias no anti-imperialismo. E existe a crença básica, entre muitos, de que a NATO provocou a guerra. Por outras palavras, ao instigar, ao cortejar de forma tão forte a Ucrânia, eles atiçaram o urso. Não acho que isto faça sentido, mas muitas pessoas acreditam. Logo, há uma certa convergência entre dois grupos que, de outra forma, não têm nada a ver um com o outro. Mas isso torna-se num bloqueio e não tenho dúvida que isto será um tema nas próximas eleições. 

Se os democratas recuperarem o controlo do Congresso, mesmo que Biden ganhe, esse grupo à esquerda poderá colocar barreiras a mais apoio à Ucrânia?
É possível, mas é um grupo muito pequeno e muito menos poderoso do que os extremistas do Partido Republicano. Há quem diga que se Trump ganhar, haverá uma continuação da política atual. Porque será do interesse nacional não apoiar a Rússia, alinhar-se com a China, continuar a dar armas à Ucrânia. Não acho que seja verdade. Assumir que Trump vai atuar com este tipo de realpolitik  rigorosa é um erro. E a sua visão de interesse nacional é sempre identificada com o seu próprio interesse. E, se isto é verdade, então vamos ver uma quebra brusca do apoio.

É isso que acha que vai acontecer se Trump ganhar?
Acho que será um desastre. A minha posição sobre muitas coisas na política é: “Se alguém te diz algo, acredita. Não o descartes.” Trump ameaçou cortar entre um terço e metade de todos os funcionários federais. Também prometeu uma purga nos Serviços de Informação e no FBI, colocando as suas pessoas nos cargos, e assim enfraquecendo a separação dos poderes e reforçando o seu próprio poder. Acho que a vitória de Trump também iria capacitar os racistas, a extrema-direita, os supremacistas, os nacionalistas cristãos... Vão sentir-se encorajados. Questões como o aborto e outros assuntos que estão ligados aos direitos e liberdades civis, vão ser empurrados da mesa. 

Acha que poderá ser ainda pior do que os primeiros quatro anos?
O abismo não tem fim, digamos assim. E em matéria de política externa, Rússia à parte, haverá também claramente um recuar de fundos em todo o lado. A crença básica dos seus apoiantes é: “Por que é que temos que enviar este dinheiro todo para o estrangeiro, quando temos tantos problemas em casa?” Claro que os EUA não estão a chegar ao pé do presidente Zelensky e a dar-lhe 60 mil milhões... O material é fabricado nos EUA. 

Grande parte do dinheiro fica na indústria de armas nos EUA, logo está basicamente a ajudar a economia norte-americana...
A maioria das pessoas não sabe disso. E depois há o racismo crescente, que está a tornar-se corrosivo. As coisas que são permitidas na esfera pública... E podia ser legitimo falar assim, agir assim, nos estados mais reacionários. Mas que isto esteja a acontecer a nível federal... é muito embaraçoso. 

Mas para muitos, Biden não é uma boa alternativa...
Eu não percebo que se fale da questão da idade. A diferença de idades entre eles não é assim tão grande. Trump não é propriamente um jovem. E, talvez por ser mais velho, acho que devemos julgar o homem pelo que ele fez politicamente. Biden já apresentou mais projetos de lei para lidar com temas do interesse dos cidadãos americanos do que qualquer presidente desde Franklin Roosevelt ou Lyndon Johnson. Tem sido uma megamudança. Os empréstimos dos alunos que foram perdoados, a infraestrutura que foi construída, os EUA reafirmaram-se nas questões internacionais, já não somos motivo de chacota... Quando Trump estava no poder, os EUA eram uma piada constante. Acho que Biden tentou restabelecer a dignidade da Casa Branca. E é um tipo bom. Isto é de grande importância.

susana.f.salvador@dn.pt 

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