Apesar de sempre ter dito que iria enfrentar qualquer desafio à sua liderança, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, acabou por não resistir à pressão do próprio partido e anunciou esta segunda-feira (22 de junho) a demissão. A sua saída abre a porta à eventual “coroação” de Andy Burnham, conhecido como “rei do Norte”, que ainda antes de assumir oficialmente o cargo de deputado por Makerfield (foi eleito na quinta-feira, 18 de junho, e tomou posse esta segunda-feira, 22, à tarde) já tinha anunciado a sua intenção. Se não tiver rival (o ex-ministro Wes Streeting já lhe declarou apoio) pode entrar no n.º 10 de Downing Street a partir de 16 de julho. Passavam poucos minutos das 9h30 quando Starmer se dirigiu ao púlpito frente ao n.º 10 e começou o discurso, lembrando como há seis anos pegou no Partido Trabalhista que se achava estar “terminado” e lhe deu a volta. E como ganhou uma maioria esmagadora há dois anos, enumerando as várias conquistas - desde a economia que diz estar “mais forte” e “a crescer mais rápido” do que a de outros países aliados, passando pela redução das listas de espera no serviço nacional de saúde ou a queda dos números da imigração e a reputação internacional recuperada.“Mas sei que a questão que se coloca agora não é quem estava em melhor posição para mudar o Partido Trabalhista, para nos levar ao poder e para iniciar o trabalho vital de melhorar a vida de milhões de pessoas. Essas questões já foram respondidas”, disse o primeiro-ministro britânico. “A pergunta que o meu partido está a fazer agora é se sou a pessoa mais indicada para nos liderar nas próximas eleições gerais. Ouvi a resposta do meu grupo parlamentar a esta questão e aceito-a de bom grado”, afirmou, anunciando a demissão de líder do Partido Trabalhista. Starmer foi eleito primeiro-ministro há dois anos com a promessa de mudança mas, para muitos eleitores, essa mudança não se concretizou. Apesar da maioria que tinha no Parlamento, o trabalhista não conseguiu trabalhar com a bancada parlamentar, sendo obrigado a recuar em algumas políticas - há um ano, por exemplo, teve que diluir as propostas da reforma da segurança social para não perder a votação. Houve ainda a polémica com a nomeação como embaixador dos EUA de Peter Mandelson, amigo do falecido pedófilo Jeffrey Epstein. O desaire nas eleições locais de maio, com o crescimento do Reform UK, foi a gota de água, enquanto a vitória expressiva de Burnham precisamente sobre a extrema-direita acabou por ser o prego no caixão. No discurso, onde acabou por se emocionar quando falou na família, Starmer deixou o possível calendário para eleger um sucessor. A ideia é que os candidatos se apresentem a partir de 9 de julho e até ao Parlamento entrar de férias, no dia 16. O primeiro-ministro ganha assim tempo para poder assistir ainda à cimeira da NATO, na Turquia, nos dias 7 e 8, onde tem uma oportunidade de se defender das críticas do seu ex-ministro da Defesa, John Healey, que se demitiu acusando-o de não destinar dinheiro suficiente para defender o país (outros dos golpes contra Starmer). Para poderem entrar na corrida, os candidatos têm que ter o apoio de 20% da bancada parlamentar - ou seja, 80 deputados (além dos próprios). Caso só haja um candidato, então será automaticamente eleito líder do partido, tornando-se também primeiro-ministro. Uma vez que em causa está o “rei do Norte”, como o até agora autarca da região de Grande Manchester é conhecido, fala-se de uma “coroação”. O anúncio da candidatura foi feito numa mensagem no X, em que agradeceu o “enorme serviço” que Starmer prestou ao país. “A sua decisão marca o início de uma transição e é importante que este processo seja conduzido de forma ordenada e responsável. Apresento-me como parte deste processo”, escreveu, ainda antes de chegar de comboio a Londres para assumir o cargo de deputado. “O país espera estabilidade, seriedade e uma atenção contínua às questões que mais importam e é isso que vai ter.” O ex-ministro da Saúde Wes Streeting, que se demitiu há um mês questionando a liderança de Starmer e tinha anunciado a intenção de concorrer à sua sucessão, já revelou o seu apoio a Burnham. É menos um obstáculo para o “rei do Norte”, mas pode ainda haver surpresas, caso surja outro candidato que o desafie. Nesse caso, pode haver um novo primeiro-ministro só em setembro. A oposição já criticou isso. A líder dos conservadores, Kemi Badenoch, atacou a ideia de o país ficar sem governo até lá, dizendo que Starmer se prepara para uma “digressão de despedida” e Burnham quer “umas férias de verão”. Já Nigel Farage pediu eleições imediatas: “O Reform exige eleições e estamos prontos para implementar mudanças radicais”, escreveu no X. “Se o Labour pensa que pode colocar outro político profissional no n.º 10 de Downing Street, está muito enganado”, acrescentou, partilhando também uma mensagem do próprio Andy Burnham que, em outubro de 2022, após a queda da conservadora Liz Truss e a entrada em cena de Rishi Sunak, pediu eleições gerais imediatas. Burnham vs. Starmer.Mas o que é que Burnham tem que Starmer não tinha? O “rei do Norte”, de 56 anos, foi deputado entre 2001 e 2017, ocupando vários cargos nos governos de Tony Blair e Gordon Brown (incluindo número dois no Ministério das Finanças e ministro da Saúde). E concorreu duas vezes à liderança do Labour (em 2010 e 2015, tendo nesta última vez perdido para Jeremy Corbyn no voto dos militantes). Ainda esteve no governo-sombra do novo líder, mas saiu em 2017 para ser candidato a mayor da Grande Manchester. Foi na segunda maior cidade do Reino Unido que ganhou fama de ser um autarca que garante resultados concretos (por exemplo a nível dos transportes) e de ser humano em altura de crises (como nos atentados na Manchester Arena). O advogado Starmer, de 63 anos, era criticado por ser quase um robot com as suas emoções. A alcunha “rei do Norte”, uma referência à popular série A Guerra dos Tronos, surgiu já depois de ter feito frente ao governo de Boris Johnson, durante a pandemia da covid-19. Mas Manchester não é o Reino Unido e a incógnita é, se for eleito, se vai cumprir ou não o manifesto do partido - nomeadamente em matéria de questões fiscais. Burnham tem sido cuidadoso nas críticas que tem feito, mas tem dito que poderia alterar as prioridades. Outra questão é como será em matéria de política internacional, área onde Starmer se destacou - houve até quem dissesse que saiu-se melhor nesta área do que a nível interno. Vários líderes mundiais agradeceram esta segunda-feira (22 de junho) o trabalho que fez. .Reino Unido: seis primeiros-ministros desde o referendo do Brexit há dez anos. Sucessor de Starmer será o 7.º