Sobe para 91 número de mortos em protesto em Myanmar

Dia o mais sangrento desde o golpe militar de 1 de fevereiro. Junta militar dá conta de 164 mortos. ONU chocada denuncia morte de quatro crianças.

As forças de segurança birmanesas mataram este sábado, pelo menos, 91 pessoas na repressão de protestos contra a junta militar, de acordo com o órgão de comunicação social local Myanmar Now.

Segundo a agência EFE, que cita esta fonte, este aumento de mortes tornou este sábado no dia o mais sangrento desde o golpe militar de 1 de fevereiro.

As mortes ocorreram durante manifestações realizadas em cerca de 40 cidades em regiões e estados como Rangum, Mandalay, Sagaing, Bago, Magwe, Tanintharyi e Kachin, enquanto o número total de mortos já ultrapassou 400 nos últimos dois meses.

O balanço da junta militar dá conta, por sua vez, de 164 mortos.

Em 1 de fevereiro, os generais birmaneses tomaram o poder alegando fraude eleitoral nas legislativas do passado mês de novembro e contestando a vitória da líder da Liga Nacional para a Democracia (LND), Aung San Suu Kyi.

Desde o golpe de Estado militar repetem-se nas ruas birmanesas as manifestações de protesto, ações que têm sido marcadas pela violência policial e do exército.

"Chegou novamente o momento de combater a opressão militar", declarou um dos líderes dos protestos, Ei Thinzar Maung, na rede social Facebook. "Em 27 de março, juntemo-nos para a revolução do povo, indo para as ruas", reforçou o representante.

Na repressão policial e militar em Myanmar cerca de três mil pessoas já foram detidas desde o início de fevereiro, de acordo com organizações locais.

A convocação para sábado de novos protestos pró-democracia surge como um claro desafio ao poder militar, que comemora nesse mesmo dia o tradicional "Dia das Forças Armadas".

Este dia é celebrado tradicionalmente como uma demonstração de força por parte dos militares, culminando com uma grande parada em Naypyidaw, a capital administrativa do país.

O dia comemora a data de 27 de março de 1945, quando o general Aung San - que seria mais tarde considerado como o líder da luta pela independência do país (de que foi chefe de governo) e o fundador da Birmânia moderna - liderou uma insurreição contra as forças de ocupação japonesas.

O general Aung San é o pai da chefe do Governo civil birmanês deposta e atualmente detida, Aung San Suu Kyi.

Na véspera desta efeméride, a sede do partido LND, em Rangum (capital económica), foi alvo de um ataque com um cocktail 'molotov', que provocou pequenos danos.

Desde o golpe de Estado militar, muitos deputados do LND vivem na clandestinidade e formaram um parlamento "sombra", o Comité Representativo Pyidaungse Hluttaw (CRPH).

Também este sábado, e como tem ocorrido em dias anteriores, protestos ou outro tipo de iniciativas de contestação e de homenagem às vítimas da repressão ocorreram em várias cidades birmanesas como Myeik (sul), Mandalay (centro), Monywa (centro) e Hpakant (norte).

Em Myeik, as forças de segurança dispararam fogo real contra os manifestantes, segundo imagens de vídeo a que a agência France-Presse (AFP) teve acesso e que confirmou a respetiva autenticidade.

ONU "chocada" com mortes incluindo quatro crianças

A ONU disse estar "chocada" com as dezenas de mortes, incluindo crianças, na repressão aos manifestantes pró-democracia em Myanmar. "Ainda não fomos capazes de confirmar esta informação de maneira independente, mas recebemos vários relatórios credíveis de muitas partes do país - pelo menos 40 locais diferentes - que relatam que unidades policiais e militares responderam a manifestações pacíficas com força letal", disse à AFP um porta-voz da Alta Comissariada das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, Ravina Shamdasani.

Segundo a Alta Comissária, "até agora, há quatro relatos de crianças que foram mortas, incluindo pelo menos um bebé".

Antes, numa declaração no seu Twitter, a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, referiu estar "chocada" com a violência e com as "prisões em massa". "Recebemos relatos de dezenas de mortes, incluindo crianças, centenas de feridos em 40 localidades e prisões em massa. Essa violência agrava a ilegitimidade do golpe e a culpabilidade de seus líderes", refere.

Já a embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) na Birmânia condenou a junta militar governante por "matar civis desarmados". "As Forças Armadas estão a matar civis desarmados, incluindo crianças, pessoas que juraram proteger com razão", disse a embaixada dos Estados Unidos num comunicado publicado na sua página no Facebook, citado pela agência France-Presse (AFP).

Capitão da equipa de futebol dos Sub-21 entre as vítimas

Chit Bo Bo Nyein, capitão de uma equipa sub-21 de Myanmar é uma das vítimas mortais. O jogador de 21 anos, também capitão do Hanthawaddy United FC estava ajudar no serviço da casa de chá da família, na localidade de Insein, en Rangún, quando foi atingido por um tiro num braço. Ainda foi levado por civis para o hospital, mas acabou por morrer.

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