Shogo Akagawa: "Japão tem de defender com firmeza a paz, a democracia e o Estado de Direito"
Como descreve o momento atual das relações entre o Japão e a China?
Temos de manter o diálogo com a China, porque é um dos nossos vizinhos mais importantes. Temos laços históricos, económicos e políticos muito fortes, e não os devemos cortar, seja qual for o sistema chinês. Mas temos também de preparar a nossa dissuasão. A China é um rival sistémico do Japão, tal como é da Europa. E não podemos depender apenas dos EUA. Continuo a acreditar que os EUA nos apoiam, mas temos de assumir as nossas responsabilidades. Por isso, considero acertada a decisão do governo japonês de aumentar o orçamento militar para a dissuasão.
A primeira-ministra Sanae Takaichi foi eleita com uma votação muito expressiva. Isso significa que os japoneses apoiam o fim de alguns tabus do pós-guerra, como o Artigo 9.º que impunha um investimento militar reduzido?
Não creio que os japoneses apoiem o reforço da dissuasão por causa de Takaichi. É o resultado de um mundo em mudança. Eu não sou um grande apoiante de Takaichi, embora esteja convencido de que precisamos de dissuasão. Temos a responsabilidade histórica de preservar os nossos valores fundamentais: o pluralismo, a democracia e o Estado de direito. Há quase um século, cometemos um enorme erro. Destruímos, ou tentámos destruir, juntamente com os nossos aliados de então, a ordem internacional. Colonizámos a Península Coreana, atacámos Pearl Harbor, invadimos a China. Todos os nossos vizinhos sofreram com o imperialismo japonês. Não podemos repetir esse erro. Há mais de 80 anos que a sociedade japonesa assenta na democracia, no pluralismo e no Estado de direito. Para preservar esses valores, precisamos de dissuasão.
Então porque não apoia Takaichi?
Por duas razões. Primeiro, o seu governo tem uma visão conservadora ultrapassada. Segundo, segue uma política orçamental dispendiosa, o que, do meu ponto de vista, é uma irresponsabilidade para com a próxima geração.
Os EUA são o grande parceiro do Japão desde 1945. A aliança continua sólida, ou com Donald Trump começam a surgir fissuras?
Quero acreditar que a aliança continua sólida. Mas todas as democracias do Indo-Pacífico têm de estar atentas ao que se passa na Europa. As relações transatlânticas refletem as relações transpacíficas. Trump vai proteger a Europa ou não? E se não proteger, o que acontece na Ásia?
Temos de ter um plano B e pensar nele. Continuo a acreditar que os EUA estão do nosso lado e que continuam a ser uma democracia. Teremos de ver os resultados das eleições intercalares e das próximas presidenciais. Mas temos de nos preparar. Para o Japão, o plano B significa mais cooperação com a Austrália e a Coreia do Sul, e também com os países da NATO, incluindo o Canadá e a Europa, e Portugal enquanto Estado-membro da União Europeia.
Voltando à China: o governo japonês manifestou vontade de apoiar Taiwan em caso de invasão chinesa. Esse apoio assenta nas relações históricas ou nos valores democráticos partilhados?
Há dois pontos. Primeiro, a primeira-ministra Takaichi não estava preparada e não foi muito profissional ao abordar um tema tão importante no parlamento. Se queria fazê-lo, devia ter feito um discurso próprio, bem preparado. Não o fez, e por isso considero que errou. Mas quanto ao fundo, temos de facto uma relação forte com Taiwan, não só pelo contexto histórico, mas porque Taiwan partilha os nossos valores fundamentais: democracia liberal, Estado de Direito e pluralismo. Se algo acontecer em Taiwan, o Japão será afetado e terá de decidir se deve envolver-se, e de que forma. No mínimo, temos de nos preparar. Devemos acolher refugiados taiwaneses, porque tenho a certeza de que, numa escalada, muitos fugirão para o Japão. É uma questão de humanidade.
E a sociedade japonesa está preparada para esse cenário?
Tenho dúvidas. A situação política é difícil, com um governo Takaichi muito "falcão" de um lado e o Partido Comunista Chinês do outro. Os países europeus da NATO, sobretudo no flanco leste, estão hoje muito preparados, enquanto sociedades, para a ameaça russa. No Japão, se perguntar a qualquer pessoa se está preparada para uma escalada em Taiwan, ninguém está. Conseguem imaginar que aconteça, mas não estão preparados. Não há qualquer debate sobre reintroduzir o serviço militar obrigatório, nem sobre enviar tropas. Não há uma discussão séria. Por isso, acho que a sociedade japonesa não está preparada.
O pacifismo da Constituição, imposto pelos EUA mas também marcado pelas bombas atómicas e o legado da guerra, continua profundamente enraizado na sociedade japonesa?
Diria que sim, e não o devemos mudar. Aprendemos com o imperialismo e com a invasão de outros países. Nós próprios sofremos com a nossa história. O meu avô foi preso pelo regime japonês durante a Segunda Guerra Mundial, porque se opunha à guerra. E os meus antecessores, os jornalistas de então, fizeram parte dessa máquina. Não podemos repetir esse erro. O Japão tem de defender com firmeza a paz, a democracia e o Estado de Direito.

