"Se olharmos para a História, o sul da China, em especial Cantão, sempre foi o lugar de nascimento de ideias inovadoras"

Nascido em Xangai, formado nos Estados Unidos e com carreira feita em Hong Kong , o reitor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, Joseph Lee, conversou com o DN durante uma visita a Portugal e considera que a China hoje está a fazer um grande esforço para voltar a estar na dianteira científica, como antes de a Revolução Industrial favorecer o Ocidente.

Quão desenvolvida está hoje a ciência na China? A China é uma grande potência económica, mas é também cada vez mais uma grande potência científica e tecnológica. Pode falar-me da tradição científica chinesa?
Na história da civilização chinesa, o país tem feito as suas contribuições no campo da ciência - a bússola, a pólvora, etc. Historicamente, a Revolução Industrial não começou na China, claro, e penso que nos últimos 100 ou 200 anos, em termos de contribuições para a ciência, o país não acompanhou o mundo ocidental. Penso que isto tem que ver com o desenvolvimento histórico da China. Se o país não estiver politicamente estável e mais aberto às questões científicas do Ocidente e à forma como este evoluiu cientificamente nos últimos dois séculos, é mais complicado.

Está a dizer que durante a última dinastia chinesa, a dinastia Qing, especialmente depois do séc. XIX, o Ocidente passou a estar à frente da China em termos científicos?
Sim, devido à Revolução Industrial. Se lermos o livro de Joseph Needham, professor em Cambridge, intitulado Science and Civilisation in China, ficamos com uma ideia das nossas antigas contribuições para a ciência. Durante a dinastia Qing, a China foi de início muito importante economicamente a nível global, mas depois a dinastia começou a fechar-se, ficou sem abertura e sem mudanças e no Ocidente começou a revolução industrial. Apareceu Newton e a astronomia, o método científico. A matemática e a física evoluíram. Portanto, nos últimos 200 anos podemos ver uma grande evolução ocidental. Depois, na China, a partir de 1911, já no período republicano, começaram a mandar estudantes para os Estados Unidos, para a Europa, sobretudo para o Reino Unido, para formação. E assim os primeiros cientistas chineses famosos do século XX foram formados na Europa e nos Estados Unidos.

Pensa que depois dos anos 1970, com a política de reformas económicas, a China se tornou novamente competitiva nesse campo?
Penso que não é fácil fazer ciência no meio de instabilidade política e económica. Diria que nos últimos 200 anos o mundo ocidental avançou muito na ciência e na tecnologia, acho que isso não é passível de debate.

Mas hoje em dia a China, que obteve estabilidade, consegue pôr o homem no espaço, é uma potência nuclear... Acha que a ciência no país está outra vez a avançar?
Sim, acho que na China a investigação, em certas áreas, se desenvolveu muito. Isso pode ver-se nas publicações. E é evidente nas infraestruturas: a barragem das Três Gargantas, por exemplo, ou a nossa rede de autoestradas. Avançámos muito na energia, nos transportes de alta velocidade. Penso que na China estamos a conseguir resolver muitos dos nossos problemas usando a ciência e a tecnologia. Contudo, acho que também reconhecemos que, como país, temos de fazer muito mais investigação básica e é por isso que o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência e Tecnologia fizeram um grande investimento na área da investigação fundamental nos últimos anos. Isso porque perceberam que se querem algum avanço significativo e liderar na ciência e na tecnologia - claro que podemos mandar um foguetão para a Lua, para Marte, nas missões espaciais - é preciso investir a sério na investigação fundamental. A China tem grandes expectativas para o futuro, não apenas como potência, mas também como um país muito forte em ciência e tecnologia. Penso que não será muito fácil e acho que isso ainda não foi completamente reconhecido, é preciso muito trabalho no sistema educativo, no intercâmbio internacional e um espírito de livre troca de ideias. Tudo isso é importante.

Acha que é essencial para a China desenvolver a ciência que haja essas ligações com outros países e também essa troca de ideias?
Acho que a ciência não conhece fronteiras. Penso que é essa a razão para os Estados Unidos serem tão fortes. Eu vivi 11 anos nos Estados Unidos, fiz lá formação e estive no MIT em Boston. A força dos Estados Unidos é o livre intercâmbio e os melhores cérebros do mundo vão para lá, pois a ciência não tem fronteiras e une as pessoas. É a melhor política para encorajar a investigação científica. Portanto, acho que a China está a investir muito dinheiro na investigação fundamental. Neste momento, na Área da Grande Baía - Cantão-Hong Kong-Macau, etc, ao todo são nove cidades e duas regiões administrativas especiais - estamos a fazer investigação fundamental com relevância para contribuir para a inovação, ou seja, é investigação básica, mas também com um propósito. Assim, há aqui um pouco de integração, pois a Área da Grande Baía é a 12.ª maior economia do mundo e está destinada a ser o Silicon Valley da Ásia.

Podemos dizer que a Área da Grande Baía é a zona onde há mais ciência e esta está mais desenvolvida na China?
Eu não diria isso. Penso que é onde a China gostaria de construir um centro de inovação tecnológica internacional. Em Pequim já têm um centro e em Xangai também, agora penso que querem avançar na Área da grande Baía.

Macau foi o primeiro ponto de contacto com os europeus, Hong Kong também uma ponte entre Ocidente e Oriente, se bem que criada de uma forma bastante mais dramática. Isso torna esta zona da China, a foz do rio das Pérolas, mais aberta à inovação?
Se olharmos para a História, o sul da China, especialmente Cantão, sempre foi o lugar de nascimento de ideias inovadoras e de pessoas brilhantes. Muitos da primeira geração de estudantes vêm do sul da China e têm aquele espírito de aventura de uma zona costeira com muitos portos como Hong Kong e Macau. Há sempre o espírito de livre-arbítrio, em parte por necessidade, penso eu, pronto para se aventurar no Novo Mundo. Existe um espírito de emigração.

A política de "Um país, dois sistemas", aplicada a Hong Kong desde 1997 e a Macau desde 1999, também ajuda a essa vontade de emigração, de contacto com o mundo exterior?
Penso que ao nível mais elevado do país levam muito a sério essa política de "Um país, dois sistemas".

Mesmo apesar dos acontecimentos recentes em Hong Kong - protestos - continua a ser válida?
Sim. Continuamos com uma grande percentagem de estudantes internacionais nas nossas universidades da região. Em Macau iremos lá chegar, pois o ensino superior é uma realidade recente no território - tem dez anos -, ao contrário de Hong Kong onde já existe há 50 anos.

A sua universidade é capaz de atrair estudantes de outros sítios?
Sim, atraímos estudantes de Hong Kong e de toda a China. Nós pertencemos a uma fundação sem fins lucrativos e atraímos estudantes muito bons. Nós temos uma universidade internacional sob a Constituição portuguesa e temos o ensino em inglês.

Ainda há uma atmosfera portuguesa em Macau?
Eu tenho amigos portugueses. De certo modo sim, em termos de língua, uma vez que as línguas oficiais são o chinês e o português e não o inglês. Eu, nas minhas reuniões uso o inglês, mas em termos de governo e de documentos oficiais ainda se usa o português, por exemplo nas leis, e os advogados que conheço em Macau são portugueses.

Na sua universidade há professores portugueses e estudantes portugueses?
Há alguns portugueses no pessoal, mas não muitos.

Esta sua visita a Portugal é para estabelecer contacto com universidades portuguesas?
Sim. É a primeira vez que venho a Portugal visitar universidades. Já cá estive uma vez, há muitos anos, para fazer um workshop, mas é a primeira vez que venho visitar universidades. Na minha profissão tenho muitos colegas em Portugal. Desta vez estive em Espanha, em Granada, a presidir a uma conferência mundial da Associação Internacional de Engenharia e Pesquisa Hidroambiental, de que sou o primeiro presidente chinês. Tive de vir porque já não tínhamos um congresso há mais de dois anos devido à covid-19. Estive lá uma semana e aproveitei a oportunidade para visitar Portugal. Estive em Évora, Lisboa - estive no Instituto Superior Técnico -, Coimbra e Porto. É uma oportunidade para aprender e haver uma abertura. O ministro chinês da Ciência e Tecnologia esteve no ano passado em Macau e foi muito explícito a manifestar o desejo e o pedido para que Macau promovesse muito mais o intercâmbio da investigação científica e tecnológica com Portugal. Isso nunca aconteceu, mas eu sinto que posso contribuir, pois tenho amigos em Lisboa, Évora, Coimbra. Portugal mudou bastante nos últimos dez anos no campo da ciência e da tecnologia.

Portugal foi importante para a ciência na China no séc. XVI? Quando os navegadores portugueses lá chegaram houve alguma coisa nova que a China tenha aprendido com o Ocidente?
Sim, os mapas, por exemplo. É preciso não esquecer Matteo Ricci.

Ricci, jesuíta italiano, elaborou o primeiro dicionário de chinês-português. Foi impactante o primeiro contacto com a cultura ocidental?
Sim, sim. Há 500 anos.

Existe memória disso na China?
Sim, penso que sim. É mencionado nos livros que li. Desde a covid que não se pode ir a Hong Kong, que é onde fiz boa parte da minha carreira, e eu tenho passeado muito por Macau, que é como uma cidade-museu. Está muito preservada porque nunca teve nada destruído por uma guerra.

Está mais preservada do que Hong Kong?
Sim. Porque nunca passou pela guerra. Todos os edifícios portugueses se mantêm.

Sente-se que se está um bocadinho na Europa?
Sim, sim. Por exemplo, em Macau metade das escolas secundárias são católicas. Portanto, há uma grande tradição. Antes de vir fiz uma palestra numa escola onde conheci o superior dos jesuítas em Macau. Por isso, acho que a política de "Um país, dois sistemas" é mesmo levada a sério pela China. Em termos de ciência e tecnologia a época de Matteo Ricci trouxe-nos os mapas.

A China descobriu de repente que havia muito mais mundo?
Sim, sim. E também a matemática e a astronomia. Mas, claro que nos séculos XVIII, XIX, XX a ciência e a tecnologia se desenvolveram extraordinariamente no Ocidente.

Mas a China está agora finalmente a recuperar do atraso?
Está a recuperar do atraso, sim, mas penso que está também a reconhecer que precisamos de investigação fundamental e que isso não pode ser apressado.

Por vezes é preciso esperar para alcançar resultados...
Sim, e também é necessária mais colaboração internacional, embora agora, com a situação geopolítica que estamos a viver, seja mais difícil. Na minha opinião Hong Kong e Macau sempre foram uma ponte entre o Ocidente e o Oriente. Historicamente, penso que, em geral, Macau tem uma muito melhor compreensão do que é a China e da política chinesa do que Hong Kong.

E isso ajuda-o no seu trabalho como reitor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau?
Sim. Existe uma ligação e nós podemos trabalhar melhor, na medida em que há mais possibilidade de intercâmbio.

Acredita que a evolução da ciência depende da colaboração entre nações?
Claro. Em Macau a política da nossa universidade é muito clara na aposta da internacionalização, da diversidade e da colaboração entre os países. Desta viagem levo muitas ideias para impulsionar isso.

leonidio.ferreira@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG