"Se não podia ser astronauta pela NASA, tinha de criar a minha própria agência espacial"

Fez fortuna com a criação de videojogos e usou-a para ir ao espaço em 2008 e já este ano também para descer à fossa das Marianas. Agora presidente do Clube de Exploradores de Nova Iorque, Richard Garriott vem terça-feira a Lisboa falar do GLEX Summit, que se realiza em julho em Portugal.

É impossível começar esta conversa consigo sobre a experiência de ser explorador, incluindo astronauta, e não falar logo sobre o seu pai, astronauta da NASA. O sonho de ir ao espaço era algo que está ligado à experiência do seu pai, era um desejo que vem da infância?
Bom, penso que seja uma coisa natural o facto de as pessoas assumirem que o meu pai foi a minha maior inspiração como explorador. Curiosamente, penso que recebi essa inspiração de ambos os pais - o meu pai ser astronauta claramente fez com que me parecesse muito possível explorar sítios muito longínquos, incluindo o espaço, mas foi a minha mãe, como naturalista, que me levava constantemente para o campo para estudar a natureza de perto. Ela tinha aquele gosto pelo que se pode encontrar quando se explora zonas únicas, quer seja no quintal ou longe de casa. Em relação ao meu sonho específico de ir ao espaço, ele apareceu quando o médico da NASA - que era o nosso médico de família - me disse, quando eu tinha 13 anos, que eu não estava apto para ser astronauta da NASA porque precisava de óculos. Aí, quando me foi dito que não podia ir, foi quando decidi que tinha de ir e que se não podia ir pelas regras da NASA tinha de criar a minha própria agência espacial. Claro que com aquela idade - 13 anos - não podia fazer muito, mas anos mais tarde, quando comecei a desenvolver jogos para computador e a ganhar dinheiro, comecei a investir em empresas de exploração para conseguir ir cada vez mais longe e, por fim, tive sucesso na criação de empresas para levar civis ao espaço.

Ir ao espaço como um sonho de infância é uma coisa, mas ir verdadeiramente lá é completamente diferente. Ainda por cima numa iniciativa privada, da Space Adventures. Recorda-se da excitação e, provavelmente, do receio que teve naquele dia de 2008?
Bom, o que é interessante nas viagens em ambientes adversos é que são uma preparação para o espaço, como descer em submersíveis de profundidade até ambientes muito hostis nos torna muito conscientes dos perigos potenciais. No espaço, onde ainda só estiveram poucas centenas de pessoas, as estatísticas mostram-nos que morreram 20 pessoas, por isso estamos conscientes dos perigos. No entanto, a partir do momento em que decidimos ir, já treinámos em todos os equipamentos, compreendemos todas as falhas possíveis e os perigos associados a cada parte das operações. Nesse momento, penso que quando embarcamos no veículo ninguém se sente assustado. Quanto a esse ponto, já decidimos aceitar os perigos e estamos bem treinados, percebemos o que temos de fazer se acontecer algum problema potencial. Acho que sabermos o que temos de fazer afasta o medo, apesar de estarmos conscientes dos perigos iminentes.

"No espaço, onde ainda só estiveram poucas centenas de pessoas, as estatísticas mostram-nos que morreram 20 pessoas, por isso estamos conscientes dos perigos."

Depois da extrema excitação que representa ir ao espaço, é um pouco aborrecido ficar lá durante 12 dias, na estação internacional, ou está-se sempre em atividade?
Não. Eu estive sempre muito ocupado durante os 12 dias, quem me dera ter ficado mais tempo. O que é interessante é que mesmo os colegas de equipa com quem estive lá em cima, que já lá estavam há seis meses - eu vim-me embora com dois cosmonautas russos que estavam lá há seis meses -, quando lhes perguntei se estavam desejosos de voltar a casa, pois tinham estado num espaço muito pequeno durante esse tempo todo, todos responderam que adoravam estar lá em cima, que cada dia era uma alegria por estar no espaço, cada dia era único, cada dia era divertido, só flutuar no espaço já é divertido. Mas temos uma família na Terra - eu tenho mulher e filhos -, por isso sinto a obrigação de voltar para casa por esse aspeto da minha vida, mas as pessoas que são solteiras dizem que preferiam lá ficar.

Sei que o seu pai estava à sua espera em Baikonur, famosa base russa no Cazaquistão. Como é que foi o momento em que o abraçou depois de ter sido um astronauta, tal como ele décadas antes?
Bom, para descrever esse momento é preciso conhecer um pouco a personalidade do meu pai. Eu descreveria o meu pai como uma pessoa muito arisca, não é uma pessoa muito emocional, tem dificuldade em comunicar as suas emoções. Todos nós, os filhos, tínhamos uma ligação emocional muito mais forte com a nossa mãe do que com o nosso pai. No entanto, para mim, ter a hipótese de viajar no espaço como ele tinha feito foi uma oportunidade maravilhosa para nós, enquanto adultos, termos a oportunidade de estabelecer uma ligação, trabalharmos juntos e relacionarmo-nos num aspeto da vida espantosamente invulgar que ele já tinha vivido, obviamente. Isso aproximou-nos muito enquanto pai e filho, mesmo em adultos. Portanto, foi uma verdadeira alegria não só planear a minha missão com ele - ele estava comigo quando eu embarquei no foguetão -, como ele dirigiu a minha equipa de controlo da missão enquanto eu estive no espaço e também estava lá quando eu aterrei de volta. Acho que tivemos uma profunda oportunidade emocional, não só de estarmos juntos, como também de nos olharmos nos olhos sabendo que partilhávamos agora aquela experiência tão invulgar, que tão poucas pessoas tinham tido.

Qual é a sua opinião pessoal, não só sobre o papel das empresas privadas na conquista do espaço, mas também sobre a cooperação internacional - americanos e russos hoje e, provavelmente um dia, americanos, russos e chineses. É entusiasta desta cooperação entre privados e governos e da cooperação internacional?
Sim, acho que a cooperação, e a cooperação internacional, mesmo que não seja essencial, é profundamente importante. Na verdade, penso que os resultados científicos do espaço, dos quais eu sou um fã e trabalho arduamente para trazer de volta a informação científica sobre o espaço, não são o mais importante nesse aspeto. O valor das parcerias internacionais no espaço provou ser mais importante politicamente do que cientificamente. É em relação a isso que frequentemente discordamos. O facto de termos astronautas e cosmonautas no espaço depende de comunicações amigáveis; o facto de todos aqueles cientistas que estão a trabalhar na Terra para apoiar as atividades no espaço o fazerem de forma totalmente apolítica. Eles dizem e agem assim: "Os nossos governos podem ter questões entre si, mas nós estamos aqui para fazer avançar a humanidade e o conhecimento que temos sobre o nosso universo." Penso que tem havido uma parceria espacial histórica e espantosamente bem-sucedida nas nossas atividades no espaço e que isso significa um avanço essencial, e gostaria de ver a nossa exploração espacial a continuar a expandir o círculo de parceiros de forma a incluir pessoas e governos da Terra com os quais temos tido divergências.

Considera que a sua experiência na fossa das Marianas este ano é o oposto da sua experiência no espaço, ou têm semelhanças?
Na verdade, é bastante mais semelhante do que se possa pensar. Quando estamos num veículo espacial, este protege-nos mantendo a pressão atmosférica lá dentro. No caso de um submarino, este mantém a imensa pressão lá fora, protegendo-nos com o seu casco, que tem muito mais espessura do que a de um veículo espacial. Mas lá dentro o equipamento é muito semelhante - é necessário vermo-nos livres do dióxido de carbono que expiramos; temos de gerir o oxigénio, a pressão atmosférica, assim como os outros sistemas de apoio à vida, a água, as instalações sanitárias. Tudo funciona à base de baterias em ambos os casos; a única comunicação com o resto da civilização é através de ondas de rádio e a nossa vista para fora é através de vigias, e tudo o que é preciso fazer no exterior é geralmente feito com um braço robótico. Portanto, as experiências estão muito relacionadas. No espaço, a maior dificuldade é o processo de lançamento - é a parte perigosa, difícil e cara. No caso do submersível, é a descida propriamente dita, devido ao aumento de pressão - também a parte mais crítica, especializada e cara. Penso que as duas experiências, no seu todo, estão muito relacionadas.

Com tantas experiências, como é a sua relação com outros membros do Clube dos Exploradores de Nova Iorque, ao qual preside? Há muitos outros membros que possam partilhar consigo este tipo de experiências radicais?
Claro que sim. Na verdade, uma das coisas fantásticas de se ser membro do Clube de Exploradores é que por muito interessantes que as nossas viagens, as nossas próprias expedições, tenham sido, ao encontrarmo-nos com outros membros do Clube e ouvirmos as suas histórias, o nosso espírito abre-se realmente para a diversidade incrível de explorações que estão disponíveis. Por exemplo, quando me sento no Clube de Exploradores e ouço outras pessoas a contarem como ultrapassaram as dificuldades que tiveram para poder viver e trabalhar no interior da cratera de um vulcão em atividade, e vemos os vídeos que trouxeram, eu acho aquilo espantoso, tanto de uma perspetiva científica como da perspetiva técnica de como aquilo foi feito, para além da aventura que representa terem-no realmente feito. Outro exemplo: alguns membros estiveram envolvidos na investigação do comércio de marfim e de outros artefactos ilegais. Eles fazem coisas como ir para África e outras regiões e atuarem muitas vezes como se fossem espiões, com equipamentos de gravação de comunicações no próprio corpo, ou infiltrando-se nas rotas de comércio ilegal de marfim e outros artefactos para ajudarem a rastrear e localizar este comércio ilegal e a melhorar as condições de proteção da vida selvagem nessas regiões. Ao ouvirmos aquelas histórias sentimo-nos muito humildes, mesmo tendo feito algumas expedições verdadeiramente espantosas. Quando nos sentamos no Clube de Exploradores, percebemos que há muitas mais histórias espantosas que outras pessoas também têm para contar.

Quando está a falar com as pessoas, especialmente com jovens, como vai fazer em julho na Cimeira GLEX (Global Explorers Summit), que vai decorrer em Lisboa e nos Açores, o que é que quer partilhar - a aventura, o conhecimento científico que adquire com essas experiências ou o sentimento de que nada é impossível quando queremos mesmo fazer alguma coisa? Qual é a sua mensagem para essas pessoas, concretamente para os jovens?
Bom, acho que o cerne é mesmo a aventura e a maravilha de explorar o mundo, de explorar a realidade em que nos encontramos. Uma das coisas que penso que todos os exploradores partilham é não só o desejo de ir a novos lugares e trazer nova informação acerca desses sítios, mas também partilhar com as pessoas e inspirá-las não só a fazer as suas próprias viagens ao desconhecido, como também os resultados desse espanto e maravilhamento e o valor que representa trazê-los de volta ao mundo em que vivemos agora. Muita gente pode perguntar porque é que é importante explorar os polos, porque é que é importante explorar o espaço. Normalmente acrescentam que foi muito difícil e é perigoso e caro ir ao espaço, tal como é muito difícil e perigoso chegar às partes mais remotas do Ártico ou da Antártida ou às profundezas do oceano. Assim, porque é que o dinheiro é importante para partir para essas aventuras? A resposta é que o conhecimento, a tecnologia, a informação e, frequentemente, os recursos que se trazem dessas expedições são de enorme valor para a humanidade aqui e agora. Apesar de eu ser um grande crente em que a humanidade tem de se tornar uma espécie multiplanetária para sobreviver a um futuro impacto de um asteroide ou, um dia, ao fim do nosso Sol, isso não justifica por que é que temos de explorar o espaço agora. A razão pela qual temos de o fazer agora mesmo é porque já estamos a consumir os recursos da Terra a uma velocidade substancialmente mais rápida do que a capacidade natural do planeta para os substituir. Portanto, só compreendendo o que temos na Terra, a forma como esses recursos interagem, e que recursos podem existir fora da Terra, é que podemos planear como manter toda a gente viva e saudável.

Qual foi a importância da sua experiência profissional - produção de videojogos - para este gosto pela exploração? Também há analogias entre as duas atividades?
Sem dúvida. O que aprendi ao ser um empreendedor - não obrigatoriamente de videojogos -, um criador, um homem de negócios, foi muito, mas especificamente em relação à exploração foi a ideia de que as coisas são difíceis de fazer, a concorrência é difícil, atingir um objetivo ao mais alto nível é difícil. Todas as coisas que não foram feitas não o foram porque são difíceis. Aceitar desafios difíceis exige uma mentalidade específica - começa pelo financiamento de uma enorme quantidade de pesquisa para se compreender qual é o problema; depois, uma organização e um planeamento meticulosos, para nos certificarmos de que temos as melhores hipóteses de concretizar o objetivo, e ainda um sentido de tenacidade que nos diga que mesmo que as coisas se tornem difíceis, mesmo que falhemos ou mesmo que caiamos daquela montanha, nos conseguimos levantar e imaginar uma maneira de alcançar o objetivo, então vamos tentar uma e outra vez, se necessário. Essas capacidades são muito importantes, mas são as mesmas capacidades necessárias para se começar e construir um negócio ou videojogo. É exatamente a mesma coisa, é como o início da indústria dos voos espaciais comerciais. Antes de nós, um grupo de exploradores, nos juntarmos para fazermos empresas de exploração espacial, não havia nenhuma indústria espacial comercial. Antes do ano 2000, todos os astronautas que iam ao espaço eram funcionários públicos que voavam em veículo financiado pelo Estado. A partir do ano 2000, houve sete de nós, entre 2000 e 2020, que voaram de forma privada, mas ainda num veículo do Estado que conseguimos alugar ao governo russo. A partir de agora, o próximo voo, e a maioria dos voos daqui em diante, não será com astronautas e cosmonautas do serviço público, será com astronautas e cosmonautas privados. Este é um passo verdadeiramente importante para podermos dizer que democratizámos realmente o acesso ao espaço. Acredito que tem sido o trabalho do Clube de Exploradores que conseguiu esta mudança. Agora, quer seja por trabalho empresarial, para descobertas científicas, ou alguém que vai simplesmente porque quer ir, essas coisas são agora possíveis devido aos alicerces que nós construímos como membros do Clube.

"O brilhantismo dos portugueses de há 500 anos foi a compreensão dos recursos limitados do seu ambiente local e da quantidade de recursos que de certeza existiriam para lá das fronteiras do desconhecido."

Eu estou a falar consigo por Zoom a partir de Portugal e durante os séculos XV e XVI Lisboa foi a rampa de lançamento das aventuras marítimas dos portugueses. Como explorador do século XXI, qual é para si o significado das Descobertas de há 500 anos?
O brilhantismo dos portugueses de há 500 anos foi a compreensão dos recursos limitados do seu ambiente local e da quantidade de recursos que de certeza existiriam para lá das fronteiras do desconhecido, daquilo que era conhecido pelo viajante comum dos navios mercantis normais. A visão para abraçar uma expedição incrivelmente cara, incrivelmente arriscada, com poucas garantias de qualquer retorno, avançar com uma expedição apesar desses três valores - custo, risco e retorno não garantido - exige fé na importância daquilo que virá no regresso. E isso foi provado uma e outra vez, muitas vezes, não só por um, mas por numerosos exploradores portugueses que avançaram para o verdadeiro desconhecido - tal como nós podemos pensar no espaço hoje como o desconhecido -, pois os oceanos do mundo eram o desconhecido do tempo deles. Eles foram os exploradores Apolo do seu tempo.

leonidio.ferreira@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG