Santiago Gerchunoff “A direita tem hoje o que a esquerda tinha no século XIX, um diagnóstico e um projeto de futuro”
Em Espanha, país de abrigo deste argentino desde os seus 20 anos, e já lá vão quase 30, o mais recente livro publicado é, como o próprio diz, uma espécie de antilivro de autoajuda sobre a educação das crianças (En la era de los niños cosa: ensayos contra la crianza como emprendimiento). Em Portugal, foi agora editado Um Pormenor Sinistro no Uso da Palavra Fascismo, a obra anterior deste filósofo e professor de Teoria Política na Universidade Carlos III, em Madrid. Um opúsculo tão breve quanto elucidativo sobre o que esconde o uso e abuso da palavra “fascismo” por parte da esquerda.
O subtítulo do livro é “Para que não serve a história”. Distingue três visões da história, e todas se dão a equívocos. Quais são?
Há, na verdade, uma confusão fundamental que o livro denuncia, que é o uso profético da história. Uma ideia profundamente enraizada na própria história da ideia de história, porque se trata realmente da ideia da história como mestra da vida, magistra vitae, uma ideia presente nos romanos, que já recomendavam que os governantes estudassem história para saber o que fazer no presente e em relação ao futuro. O conhecimento histórico é extremamente importante e tem um valor intrínseco, que é a compreensão do passado que nos alarga os horizontes e nos permite compreender melhor o presente. O problema é que a história é muitas vezes utilizada como uma projeção para o futuro: o uso daquilo a que chamo história profética, que é a ideia mais mecanicista de que existe uma espécie de continuum na forma da história que nos permite saber, se conhecermos bem os acontecimentos passados, o que acontecerá no futuro. Sobre as várias noções, estudo três categorias de conhecimento histórico que são muito importantes, que aparecem sobretudo na modernidade. São a ideia de história como um processo, ou seja, quando queremos compreender um acontecimento não há outra forma de o compreender senão através de uma ligação causal com um acontecimento anterior e com um posterior, de modo a que cada acontecimento faça parte de um processo; a ideia de história como obra, como produto da criação humana - essa ideia pomposa que os governantes usam e quando a dizem devemos ser cautelosos. Devemos ter cuidado quando um governante diz “Estamos a fazer história”, porque, geralmente, os materiais com que a história é feita são corpos humanos, sangue, vísceras. É disso que é feita a história. Ainda assim, a ideia de obra é importante porque implica a possibilidade de correção. Se pensarmos na história como obra humana, acreditamos que pode ser corrigida, e isso é muito importante no uso da palavra fascismo. E, por fim, a ideia de significado, de que a história tem uma direção, de que se algo aconteceu no passado, foi por uma razão; tem um significado que será revelado no futuro. Estes três conceitos, processo, trabalho e significado, são fundamentais para o pensamento histórico sério. O problema surge quando se faz um uso profético. De facto, embora fundamentais para a compreensão do passado, são terrivelmente prejudiciais para prever o futuro e, quando confundidos com...
Uma ciência natural.
De facto, creio que a confusão e a tendência para fazer uso profético da história estão relacionadas com uma tentação em todas as ciências humanas e sociais: a de obter poder retórico identificando-se, creio que fraudulentamente, com as ciências naturais. As ciências naturais conquistaram o seu poder — quero dizer, aos olhos do mundo — porque são preditivas, isto é, podem prever os fenómenos. Elas próprias, quando se levam a sério, sabem que isso também é relativo, mas, por exemplo, graças à astronomia e à física, pode prever-se um eclipse. O problema que denuncio no livro é acreditar que um historiador que sabe muito sobre a República de Weimar e a ascensão do nazismo é como um astrónomo que faz cálculos observando os movimentos fixos e cíclicos necessários dos planetas e consegue prever um eclipse.
Denuncia o uso indevido e o abuso da palavra “fascismo” e cita como exemplo o famoso poema erradamente atribuído a Brecht, porque, acima de tudo, é um insulto às vítimas do Holocausto e porque quem o usa fá-lo por egoísmo. Pode explicar?
Estamos a falar de um pormenor, de uma nuance sinistra no uso da palavra fascismo, e estou a tentar apelar à emoção... Não quero corrigir ninguém e dizer que este uso está errado, aquele está correto. Esta discussão, que é muito importante e atual, sobre se a direita atual é ou não fascista, digo no início do livro que não sou historiador, não o posso determinar e não tenho qualquer interesse nisso. Interessa-me mais, do ponto de vista filosófico, perguntar porque é que a palavra “fascismo” é tão importante, porque é que desperta tanta emoção em nós. E aí encontro uma narrativa histórica em que acredito explicar o porquê, e quando investigo e desvelo essa narrativa, encontro algo muito sinistro, muito sombrio, algo inconsciente, mas no qual todos participamos. É uma ideia que ignora as verdadeiras vítimas do fascismo histórico porque pressupõe — é este o raciocínio subjacente — que já conhecemos, precisamente, a história profética; já sabemos como o fascismo ascendeu; vimos pequenos sinais que elas não perceberam, mas já os conhecemos e, por isso, é nosso dever apontá-los para que não se repita. Agimos como profetas lendo o mapa da história, mas este é o aspecto sinistro. Estamos a ignorar as vítimas porque pressupomos que poderiam ter impedido o fascismo, que a responsabilidade não recai sobre os criminosos, os nazis, mas sobre as próprias vítimas. Uma coisa que se insinua frequentemente no panorama cultural do Holocausto e do século XX, e creio que todos nós, em certa medida, nos envolvemos nisso, é a dificuldade em compreender como é que estas pessoas foram para as câmaras de gás como cordeiros para o abate. Quer dizer, não se podiam ter recusado, então porque não se rebelaram? É algo que não nos permitimos dizer em voz alta, mas questionamo-nos porque é que o nível de horror do que os perpetradores fizeram é tão imenso que é difícil de compreender. Portanto, há sempre uma espécie de suspeita, e penso que isso se reflete muito no uso da palavra fascismo. Nesse sentido, o poema falsamente atribuído a Brecht parece-me uma clara personificação desse raciocínio sinistro e inconsciente.
Porquê?
Porque o poema descreve uma espécie de indiferença que gera claramente em nós antipatia. No início, vieram atrás dos judeus, mas como eu não era um, não me importei. Assim, naquele momento, não gostamos da pessoa que recita o poema, mas no final, passamos a gostar dela ou a perdoá-la porque confessa algo muito relevante no último verso: que também é uma vítima. Ela diz: “Agora vêm atrás de mim, já não posso fazer nada”, e é isso que nos comove. Mas há algo de muito complexo e intrincado nisto: uma vítima, alguém que foi, nesse sentido, legitimado, e isso comove-nos porque foi morta, mas no início do processo, não gostávamos dela. Mas não só, o poema quer convencer-nos — e isto tem a ver com o egoísmo — de que a razão fundamental para fazer algo não é porque é errado ser indiferente à injustiça, mas porque, no final, a merda também o vai atingir. Por outras palavras, o poema apresenta um argumento muito egoísta e individualista. Também acontece que o poema não é, como há muito acreditávamos, de Bertolt Brecht, um paradigma da resistência antinazi, mas antes de Martin Niemöller, que não era uma pessoa má; era um pastor protestante, mas, basicamente, um nazi arrependido. Na verdade, não foi exterminado, mas sim preso e depois libertado. Portanto, o que o poema narra é verdade; no fim, vieram buscá-lo. Mas, como a autoria foi confundida com a de Brecht, o efeito distorcido na nossa memória coletiva é enorme, porque acreditamos que as próprias vítimas estão a reconhecer que poderiam ter feito alguma coisa. E um último ponto sobre isto é que a ideia de culpa coletiva, a ideia de que todos eram responsáveis, como diz a filósofa judaico-alemã Hannah Arendt, foi promovida principalmente na Alemanha do pós-guerra pelos próprios nazis. Os próprios nazis insistiam em afirmar que a culpa recaía sobre todo o povo alemão, mas a realidade, como diz Arendt, é que a culpa nunca é coletiva. Uns colaboraram, outros não, e para aqueles que não colaboraram, sentir-se culpado é terrível; é a própria essência da confusão moral. Mas o que faço ao analisar o poema vai um passo mais além, em termos de sinistro, do que aquilo que os nazis fizeram ao expandir a ideia de culpa coletiva. Porque não se trata de uma culpa coletiva atribuída ao indiferente povo alemão; o que o poema faz é estender ainda mais a culpa às próprias vítimas. Ou seja, a culpa não recai tanto sobre os executores, os nazis que eram os culpados, mas sobre todo o povo alemão, ou mesmo sobre as próprias vítimas, que poderiam ter impedido o que não impediram. E nós, ao utilizarmos a palavra fascismo, acreditamos estar a corrigir o mal feito a estas vítimas; temos, portanto, uma relação sinistra com a memória das vítimas.
Qual a finalidade desta sua reflexão? É para quem chama de fascista a Trump ou ao partido alemão AfD desça do pedestal da superioridade moral? Que mude de discurso e de propostas?
Como já referi, não tenho intenções prescritivas quanto ao uso das palavras, nem uma agenda política. Agora, também estou a escrever um livro, participo em debates públicos, por isso é óbvio que tenho uma intenção. Não sei o que fazer em relação a Trump e à extrema-direita. O que penso é que esta estagnação, a esquerda presa nesta espécie de denúncia defensiva do quão maus os outros são, e usando constantemente a memória do século XX para este fim, penso que é um sintoma de uma grande paralisia e impotência política na esquerda. Sim, claro, o livro tem uma intenção, que é a de nos libertarmos dessa hipnose com o passado e, sobretudo, de uma postura defensiva e partidária. Acho que estamos a cometer um grande erro em que estamos atolados, porque sou de esquerda, falo para os meus. E o erro é procurar a nossa tradição no século XX e provavelmente não no século XIX. No século XIX, a esquerda, ou o próprio marxismo, mas também aquilo que o marxismo desprezava como socialismo utópico, todos os movimentos que emergiram do socialismo no século XX, tinha um diagnóstico muito importante do presente em que viviam: a disrupção tecnológica que estava a acontecer na época, que estava a produzir grandes desigualdades. Mas queriam ter um diagnóstico para poderem usá-lo a seu favor na construção do seu projeto futuro. E tiveram também a coragem de utilizar aquela que era supostamente a fonte do mal — isto é, os avanços tecnológicos da época que beneficiavam a exploração capitalista — precisamente para construir um futuro melhor. Em contraste, a esquerda do século XX, que é a que reivindica esta memória antifascista, não tem um projeto propriamente dito. Está em posição defensiva; houve duas guerras mundiais e, na verdade, a sua posição não se baseia na ideologia, mas sim numa postura partidária e belicosa. Ela enfrentou um inimigo e, algo que raramente é mencionado, venceu. Mas venceu em aliança com o liberalismo capitalista; uma grande coligação, os Aliados. Foi uma grande coligação que derrotou o fascismo, mas não o derrotou através de um projeto socialista ou emancipador. Foram os Aliados — os Estados Unidos, a União Soviética, a França, e assim por diante. Não teve nada a ver com a ideologia de esquerda de cada um; derrotaram-no, e derrotaram-no de uma forma bastante brutal e sangrenta, o que é outro aspecto que não é discutido. Por outras palavras, o fim de todo este processo é nada mais nada menos do que Hiroxima e Nagasáqui. Ou seja, o fim deste processo que tanto admiramos de antifascismo e resistência, é a barbárie mais absoluta que a humanidade já alcançou, talvez até mais do que a própria barbárie fascista. Então, qual é a minha proposta? Não se refugiar, nem se inspirar, na postura belicosa, partidária, defensiva e conservadora que a esquerda adotou no século XX, mas sim recordar o impulso de perspetivar um futuro, de diagnosticar a disrupção tecnológica que estamos a viver atualmente, porque é isso mesmo que a direita está a fazer agora. Por isso é que se deve perguntar por que razão está a ter sucesso. Talvez não seja por causa do fascismo e tudo mais, mas porque a direita hoje, por mais que não gostemos, com a sua terrível crueldade, tem algo de muito semelhante ao que a esquerda tinha no século XIX: tem um diagnóstico da atual disrupção tecnológica — digital, inteligência artificial e por aí fora — e projeta um futuro, uma forma de mudar o mundo com base nessa disrupção. Que este projeto de futuro seja horrível, distópico, que não gostemos dele, é óbvio, mas não devemos confrontá-lo com uma atitude puramente defensiva. Devemos concentrar-nos em projetar um outro futuro. É nisso em que acredito.
Essa atitude defensiva não é também um insulto para os eleitores de direita?
Além disso, claro. É outro ponto que o livro aborda, que é a moralização de todas as discussões políticas. Por outras palavras, se a outra pessoa for fascista, uma pessoa má, e tudo o que eu fizer for defender-me dela, então nunca a convencerei a aderir ao que estou a propor. Isto porque não estou a propor nada; estou apenas a propor defender-me dela. É uma situação muito inflexível e paralisante, e acho que transmite muita impotência, que é o que as pessoas de esquerda sentem hoje em dia. Focar-se em apontar quem é fascista, quem é mau e por aí fora, é como alguém que está num pântano e, em vez de tentar sair, quer ficar lá. É essa a minha intenção com o livro: sair deste pântano.
Um Pormenor Sinistro no Uso da Palavra Fascismo
Santiago Gerchunoff
Zigurate
84 páginas
