Protesto em Jerusalem, na segunda-feira, contra o primeiro-ministro israelita.
Protesto em Jerusalem, na segunda-feira, contra o primeiro-ministro israelita.EPA/ABIR SULTAN

Ruturas no gabinete de guerra com críticas a Netanyahu e apelo a eleições

Ministro que perdeu um filho e um sobrinho em combate considera “irrealista” a vitória completa sobre o Hamas e defende que só com acordo e cessar-fogo se podem libertar os reféns.
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Um membro do gabinete de guerra de Benjamin Netanyahu disse ontem que a derrota completa do Hamas é “irrealista” e que só um cessar-fogo pode garantir a libertação dos reféns que ainda estão na Faixa de Gaza. Gadi Eisenkot, um antigo chefe do Estado-Maior israelita que já perdeu o filho e um sobrinho em combate, alegou ainda que a atual liderança do país não está a dizer a verdade sobre o conflito e defendeu eleições no espaço de meses para restaurar a confiança pública no governo.

Eisenkot, que faz parte da aliança opositora Unidade Nacional liderada por Benny Gantz, foi convidado para o gabinete de guerra após o ataque do Hamas de 7 de outubro. Este gabinete, cujo objetivo era demonstrar união, é composto por Netanyahu, o seu ministro da Defesa, Yoav Gallant, e o até então líder da oposição Gantz (outro ex-chefe do Estado-Maior). Eisenkot, ministro sem pasta, assim como Ron Dermer, titular dos Assuntos Estratégicos, são observadores.

Numa entrevista com a televisão Channel 12, divulgada na quinta-feira à noite e citada no The Times of Israel, Eisenkot defendeu que “quem fala em derrota absoluta não está a dizer a verdade”, lembrando que três meses depois do início da guerra os objetivos ainda não foram cumpridos. Netanyahu tem dito que os objetivos da guerra em Gaza são “esmagar” o Hamas, libertar os reféns e garantir que a Faixa de Gaza não volta a ser uma ameaça à segurança de Israel. 

Em relação aos mais de 120 reféns, Eisenkot diz que estão espalhados de tal forma pelo enclave palestiniano que as hipóteses de resgate são extremamente reduzidas - desde o início da incursão, a 27 de outubro, só uma refém, Ori Megidish, foi resgatada pelos militares. “É preciso dizer-se , corajosamente, que não é possível o regresso dos reféns, vivos, no curto prazo, sem um acordo”, criticando quem “tenta vender fantasias ao público”. 

O membro do gabinete de guerra, cujo filho reservista de 25 anos morreu em Gaza em dezembro na véspera do seu sobrinho de 19 anos morrer também em combate, disse ainda que qualquer acordo irá implicar uma pausa prolongada nos combates, três ou quatro vezes mais longa do que a de final de novembro. Mas insiste que o regresso dos reféns deve ser a prioridade. “Para mim não há dilema. Para mim, a missão de salvar os civis vem antes de matar o inimigo. O inimigo pode ser morto depois.”

Questionado diretamente sobre se a atual liderança está a dizer a verdade ao público, Eisenkot respondeu que não. “Já estou naquela etapa e numa idade [tem 63 anos] em que não confio neste ou naquele líder de olhos fechados e julgo um homem pelas suas decisões e a forma como lidera o seu país”, disse, explicando que não confia pessoalmente em Netanyahu na gestão da guerra, mas nas decisões tomadas em conjunto pelo gabinete no qual é observador.

“É necessário, no prazo de meses, chamar os eleitores israelitas às urnas e realizar eleições de forma a renovar a confiança porque, neste momento, não há confiança”, explicou Eisenkot. A entrevista foi transmitida já depois de Netanyahu ter rejeitado a ideia de realizar eleições durante a guerra, que já admitiu poder prolongar-se para 2025. Contudo, aumenta a pressão para que haja essas eleições. 

O antigo primeiro-ministro israelita, o trabalhista Ehud Barak, defendeu uma ida às urnas antecipada - “antes que seja tarde demais” - num artigo de opinião no Haaretz. Por seu lado, o Jerusalem Post escreveu que o governo de emergência está “próximo do colapso”, sendo a questão não se haverá eleições em 2024, mas quando em 2024. “Os norte-americanos perceberam que Netanyahu está incapacitado por causa da situação política em que está”, disse um membro da oposição a este jornal. 

O primeiro-ministro, que nunca foi um defensor da solução de dois Estados, disse na quinta-feira que informou os EUA que é contra a criação de um Estado palestiniano, qualquer que seja o cenário do pós-guerra. “Em qualquer futuro acordo, Israel precisa de controlar a segurança de todo o território a oeste do rio Jordão”, afirmou numa conferência de imprensa. Isso entra em choque com o que defende Washington, tendo ainda ontem o presidente Joe Biden (que falou ao telefone com Netanyahu) dito acreditar que a solução de dois Estados ainda é possível.

“Não gosto de falar de mim na terceira pessoa. Mas os que falam no dia depois de Netanyahu estão a falar da criação de um Estado palestiniano liderado pela Autoridade Palestiniana”, acrescentou o primeiro-ministro, ligando o seu futuro político à ideia de prevenir a criação desse mesmo Estado.

Borrell acusa Israel de financiar Hamas

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, defendeu ontem que “o Hamas foi financiado pelo governo de Israel numa tentativa de fragilizar a Autoridade Palestiniana liderada pela Fatah”. A acusação de Borrell foi feita num discurso na Universidade de Valladolid, sem elaborar. O Hamas controla a Faixa de Gaza desde 2007, após uma curta guerra civil com forças leais à Fatah, de Mahmud Abbas, que controla a Cisjordânia ocupada. A acusação de que Israel terá ajudado o Hamas permitindo, por exemplo, que o Qatar financiasse Gaza, não é nova, sendo repetida por opositores do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que rejeita essas alegações. O alto-representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança disse ainda que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, travou “pessoalmente” qualquer plano para resolver o conflito.  

susana.f.salvador@dn.pt

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