Rússia isolada pela guerra celebra o czar que abriu o país à Europa

Neste cenário de altas ​​​​​​​tensões entre Moscovo e a Europa, muitos russos interrogam-se se Putin tenciona "fechar a janela aberta" há três séculos por Pedro I.

A Rússia comemora esta quinta-feira os 350 anos do czar Pedro o Grande, que aproximou o império da Europa, numa altura em que Moscovo está em rota de colisão com o Ocidente devido à guerra na Ucrânia.

Para assinalar o aniversário do nascimento do czar e imperador, o Presidente russo, Vladimir Putin, deverá visitar uma exposição em Moscovo dedicada à vida de Pedro I, cognominado o Grande.

Putin "aprecia muito" o papel de Pedro o Grande na História da Rússia, segundo o porta-voz do Kremlin (Presidência), Dmitri Peskov, citado pela agência francesa AFP.

Nascido em Moscovo em 1672, Pedro I reinou primeiro como czar e depois como imperador desde 1682 até à sua morte em 1725, em São Petersburgo.

Após uma viagem à Europa que o tornou consciente do atraso da Rússia, Pedro I modernizou o império a um ritmo acelerado: reformou o exército, o Estado e a Igreja, criou uma marinha e iniciou uma verdadeira revolução cultural que é o legado da Rússia atual.

Construiu nas margens do Mar Báltico São Petersburgo, durante dois séculos a capital imperial, que viu como uma "janela aberta sobre a Europa".

A maior parte das celebrações de hoje terá lugar em São Petersburgo, que se chamou Leninegrado até ao colapso da União Soviética, em 1991, em homenagem a Lenine, líder da revolução de 1917 que derrubou o czar Nicolau II.

Com cinco milhões de habitantes, cerca de metade da população de Moscovo, São Petersburgo, a 640 quilómetros a noroeste da capital, é hoje a segunda cidade russa, sendo considerada a capital cultural do país.

A figura de Pedro I também permanece associada à de um conquistador e à de um monarca forte que não permitiu qualquer forma de desafio.

"Pedro I pode ser uma figura emblemática para os apoiantes de um liberalismo de estilo europeu, bem como para os partidários de um Estado forte", disse o historiador Daniil Kotsubinski à AFP.

Durante as comemorações de hoje, "o atual Governo irá enfatizar o seu lado forte do Estado", antecipou.

Putin já deu o tom numa declaração na quarta-feira, ao prestar homenagem a uma "figura militar excecional" e a um patriota, cujas "transformações em grande escala contribuíram para o reforço do prestígio internacional da Rússia e determinaram o seu desenvolvimento para os séculos seguintes".

O contexto atual não se presta a celebrar a orientação do imperador para a Europa, numa altura em que a Rússia parece isolada do Velho Continente e está sujeita a sanções ocidentais por ter invadido a Ucrânia em 24 de fevereiro, desencadeando uma guerra que dura desde então.

Neste cenário de altas tensões entre Moscovo e a Europa, muitos russos interrogam-se se Putin tenciona "fechar a janela aberta" há três séculos por Pedro I.

As redes sociais russas têm estado cheias de "memes" (imagens usadas para fins humorísticos) sobre este assunto nos últimos dias, ilustrando as questões de uma parte da população sobre o futuro das relações com o Ocidente.

"Pedro I abriu a janela sobre a Europa, Putin vai fechá-la", é uma das mensagens, segundo a AFP. Noutra, o imperador diz: "Fecha a janela sobre a Europa, a vista é terrível".

Neste clima, Peskov assegurou, na semana passada, que "ninguém tem qualquer intenção de fechar nada".

Para o historiador Boris Kipnis, "quaisquer que sejam as circunstâncias históricas", abandonar o eixo traçado por Pedro I pode "arruinar o país e o povo".

Para Kipnis, não há dúvida: "A Rússia é um país europeu".

Apesar das atuais tensões entre Moscovo e os países europeus, Svetlana Stepanova, uma mulher de 47 anos de São Petersburgo que disse pretender assistir às festividades de hoje, vê Putin como um herdeiro do imperador.

"Pedro I fez da Rússia uma grande potência, Putin também quer ver uma grande Rússia. É isso que é importante", disse Stepanova.

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