Rússia ameaça entrar mais na Ucrânia para travar as armas de maior alcance ocidentais

EUA e Reino Unido já prometeram enviar a Kiev sistemas de lançamento de mísseis de longo alcance, com Moscovo a alegar que isso obrigará a afastar mais os "nazis" das suas fronteiras. Zelensky alerta para questão dos cereais.

A Rússia disse esta segunda-feira que as promessas dos EUA e do Reino Unido de enviarem armas de longo alcance para a Ucrânia vão obrigar Moscovo a empurrar as tropas de Kiev mais para longe da sua fronteira, na prática ameaçando entrar mais em território ucraniano. "Quanto maior for o alcance das armas que serão entregues, mais teremos que afastar os nazis daquela linha que ameaça os falantes de russo e a Federação Russa", disse o chefe da diplomacia, Serguei Lavrov. Moscovo alega que a invasão da Ucrânia, que apelida de "operação militar especial", tem como objetivo livrar este país dos "nazis".

Na semana passada, os EUA anunciaram que iriam enviar para a Ucrânia o seu sistema de lançamento múltiplo de rockets, conhecido como HIMARS. Este terá capacidade para atingir alvos a 80 quilómetros de distância, bastante superior à atual capacidade ucraniana. Já ontem, o Reino Unido anunciou que iria também enviar sistemas de mísseis de longo alcance (os M270) para a Ucrânia, capazes de alcançar a mesma distância. Isto apesar de, no domingo, o presidente russo, Vladimir Putin, ter ameaçado atacar locais que até agora as forças de Moscovo não atacaram, caso os norte-americanos enviassem o sistema HIMARS.

"À medida que as táticas da Rússia mudam, o nosso apoio à Ucrânia também deve mudar", disse ontem o ministro da Defesa britânico, Ben Wallace, indicando que os M270 "vão permitir que os nossos amigos ucranianos se protejam melhor contra o uso brutal de artilharia de longo alcance, que as forças de Putin têm usado indiscriminadamente para arrasar cidades". As forças ucranianas receberão treino adequado no Reino Unido para utilizar este sistema, acrescentou o ministro, sem indicar datas.

O envio destas armas de longo alcance surge em resposta aos pedidos das autoridades ucranianas, que têm apelado aos aliados ocidentais que enviem armas modernas. No terreno, a situação continua mais complicada a Leste. O presidente Volodymyr Zelensky disse ontem que as suas forças continuam a "manter a posição" em Severodonetsk, apesar dos repetidos ataques das tropas de Moscovo, que são "mais numerosos e mais poderosos". O presidente ucraniano apelidou de "difícil" a situação na frente oriental, considerando que tanto Severodonetsk como Lysychansk "são hoje cidades mortas". Zelensky esteve neste última cidade no domingo.

Numa conferência de imprensa em Kiev, o presidente chamou também a atenção para o bloqueio às exportações dos cereais ucranianos. "Agora, temos cerca de 20 a 25 milhões de toneladas bloqueadas. No outono, podem ser 70 a 75 milhões", disse Zelensky. Antes da guerra, a Ucrânia era o quarto maior exportador de cereais do mundo e o impacto da guerra poderá levar a uma situação de fome mundial.

Putin rejeitou na semana passada a ideia de que é Moscovo que está a bloquear as exportações de cereais ucranianos, apesar de Kiev o acusar de manter um bloqueio ao porto de Odessa. Os media turcos indicavam ontem que Ancara e Moscovo teriam chegado a um acordo que permitiria a passagem dos navios comerciais deste porto - escoltados por navios turcos, após uma desminagem feita também pela Turquia. Mas os ucranianos não confiam. "Putin diz que não vai usar as rotas comerciais para atacar Odessa. Este é o mesmo Putin que disse ao chanceler alemão Scholz e ao presidente francês Macron que não ia atacar a Ucrânia - dias antes de lançar uma invasão de larga escala no nosso país. Não podemos confiar em Putin, as suas palavras são vazias", escreveu o chefe da diplomacia ucraniana, Dmytro Kuleba, no Twitter.

susana.f.salvador@dn.pt

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