"Periodistas portugueses!, Periodistas portugueses”, gritou às tropas franquistas que tinham tomado dias antes Badajoz o jornalista Mário Pires, segundo o relato do próprio na edição de 19 de agosto de 1936, que a equipa do arquivo do DN me fez chegar às mãos. Temiam ser alvejados, confundidos com milicianos fiéis ao governo republicano. Pires, que fazia dupla com o fotógrafo Ferreira da Cunha, foi um dos enviados à guerra que se iniciou faz agora 90 anos. Escrevera já sobre um massacre: “acabámos de entrar em Badajoz. A cidade está cheia de cadáveres”. Mais adiante relata a conversa com o tenente-coronel Juan Yagüe: “ouvimos dizer que de noite após a ocupação da cidade haviam sido executados dois mil indivíduos. É verdade? Não. É exagero”.Yagüe, futuro general e ministro da Força Aérea, ficaria conhecido com o ‘carniceiro de Badajoz’. As estimativas do número de mortos variam entre 2000 e 4000, incluindo os executados na praça de touros. Pires noutro artigo conta como um prisioneiro foi ilibado no último momento de ser um rojo: “Nunca vi, nem espero ver, expressão como a desse homem, no momento de sair da praça de touros. Nunca vi olhos mais brilhantes, mais expressivos, mais doidos”.Há tempos, David Uclés, autor de A Península das Casas Vazias, falava-me dos jornalistas portugueses que testemunharam o massacre: “foi a primeira grande atrocidade. Entraram em Badajoz e mataram todos os que puderam. E às tropas mouras disseram: ‘Matem, ajudem-nos a tomar a cidade, e a recompensa serão mulheres, quantas quiserem, e ouro e todas as jóias.’ Uma coisa terrível. E conhecemos o que aconteceu em Badajoz graças aos jornalistas portugueses.”Uclés, cujo romance é o mais recente best-seller sobre um conflito que foi prenúncio a Segunda Guerra Mundial, conhecia de nome Mário Neves, do Diário de Lisboa, cujo livro-testemunho, publicado em 1985, foi traduzido como La matanza de Badajoz. O Pires do DN foi o outro Mário a lá estar.Pires e Neves são alguns dos repórteres destacados por José Rodrigues dos Santos em Crónicas de Guerra, um livro que o jornalista da RTP publicou há duas décadas. Foram dezenas os portugueses que relataram os acontecimentos entre 1936 e 1939, em regra no lado franquista (e sujeitos à censura), não só pela proximidade ideológica do Estado Novo, como porque a zona fronteiriça ficou sob controlo dos nacionalistas. Os mais famosos jornalistas da Guerra Civil, nomes como Ernest Hemingway, Martha Gellhorn, George Orwell ou o fotógrafo Robert Capa, estavam no outro lado da barricada. Física e ideologicamente. Norberto Lopes, do Diário de Lisboa, foi o primeiro jornalista português a avançar para Espanha, conta Rodrigues dos Santos, mas o DN reagiu e investiu forte na cobertura do conflito. Até teve um enviado, Mário Lyster, que chegou a Sevilha no avião Águia Branca, ao serviço do jornal. Afirma o historiador espanhol Alberto Peña Rodríguez que o DN foi o jornal português que mais repórteres envolveu. O autor de Salazar, a Imprensa e a Guerra Civil de Espanha, contabiliza 13, incluindo dois fotógrafos (Marques da Costa era o outro) em três anos.Armando Boaventura na Galiza, Lyster e José Augusto na Andaluzia, Pires na Extremadura, Armando de Aguiar e Aprígio Mafra a acompanhar o avanço para Madrid. Depois, entrando também na Galiza para acompanhar a ofensiva em direção às Astúrias, foi a vez de Oldemiro César, repórter multifacetado que tinha em 1925 coberto a Volta a Portugal a Cavalo, organizada pelo DN, e estado, em 1924, na Guerra do Rif, que opusera os espanhóis às tribos berbéres, daí resultando Terras de mistério: Marrocos. Aida Lima, a neta mais velha de César, mostra-me o livro com as reportagens da Guerra do Rif. E um outro, resultado da experiência na Guerra Civil de Espanha. Publicado em 1937, tem como título A guerra, aquele monstro... Dois meses nas Astúrias entre soldados galegos. Tem passagens como esta: “vi-o morrer, furado pelas balas de seis espingardas, face voltada para o muro branco do cemitério, às 6 horas desta manhã fresca e cinzenta, sob uma chuvinha pertinaz e irritante que se prolongou por todo o resto deste triste e para mim inolvidável dia.” . Na sua casa em Massamá, Aida Lima tem um móvel onde expõe recordações do avô que nunca chegou a conhecer, pois o jornalista morreu em 1953. “Mas a minha avó e o meu pai falavam muito dele. Cresci a ouvir histórias e sempre cheia de admiração. Era preciso coragem para ir para uma guerra. Estive agora a reler o livro”, conta a socióloga. Recorda que o avô era um reputado camilianista, daí um busto de Camilo Castelo Branco no móvel onde está um busto em bronze do próprio César: “Ele publicou vários livros sobre a obra de Camilo e foi um dos promotores da estátua que há em Lisboa”.Conheci Aida Lima e a prima, Irene Lima, violoncelista, quando em 2025 no Jóquei Club de Lisboa estiveram presentes numa homenagem ao caldense José Tanganho, vencedor da Volta a Portugal a Cavalo. Para o evento, organizado pela Gazeta das Caldas, trouxeram um diário que o avô escreveu durante os 23 dias da reportagem, em que passaram por 70 cidades e vilas. Que se saiba, César não fez um caderno do mesmo género para os tempos passados em Espanha com as tropas de Franco. Francisco Franco chegou a ser entrevistado para o DN ainda em 1936, por Boaventura. Na sua investigação sobre a cobertura jornalística portuguesa, Peña Rodríguez diz que tal envolveu a ajuda de António Ferro, que a convite de Salazar chefiava desde 1933 o Secretariado de Propaganda Nacional. Ferro tinha sido repórter internacional do DN, entrevistando Mussolini e Hitler.“Madrid será conquistada por nós e conquistá-la-emos inteiramente sem necessidade de a destruir” foi o título da entrevista ao generalíssimo. A capital espanhola, porém, embora bombardeada, só capitulou a 28 de março de 1939. O golpista Franco demorou a “ir beber chá à Gran Via”, mas, vencedor, governou Espanha até morrer em finais de 1975. .'Nuestros hermanos'? Quando Franco quis invadir Portugal e Hitler travou o plano