Reino Unido proíbe viagens de Portugal. Bloqueio inclui Açores e Madeira

O governo britânico decidiu proibir as viagens provenientes de Portugal, devido a uma nova variante do novo coronavírus detetada no Brasil. O transporte de bens essenciais entre os dois países continua a ser permitido, informou o ministro dos Transportes do Reino Unido.

Devido a uma nova variante do novo coronavírus detetada no Brasil, o Reino Unido proibiu as viagens provenientes de Portugal. A medida entra em vigor na sexta-feira e foi anunciada pelo ministro dos Transportes britânico, sendo que é permitido o transporte de mercadorias, desde que sejam bens essenciais.

O governo britânico esclareceu que, tal como acontece com Portugal continental, os corredores de viagem internacional do Reino Unido com os arquipélagos da Madeira e dos Açores vão fechar na sexta-feira e as ligações aéreas suspensas.

Até agora, os passageiros com origem na Madeira e Açores estavam isentos de cumprir a quarentena de 10 dias exigida à maioria dos viajantes que chegam do estrangeiro, mas a partir das 04:00 de sexta-feira deixam de estar na lista de destinos seguros.

"Os corredores de viagens com o Chile, Madeira e Açores serão encerrados. Qualquer pessoa que chegue desses países a partir das 04:00 de sexta-feira será legalmente obrigada a ficar em isolamento durante dez dias", adiantou o Ministério dos Transportes britânico num comunicado.

As interdições anunciadas pelo governo britânico abrangem ainda quem queira viajar para o Reino Unido a partir de cerca de uma dezena de países da América do Sul.

"Tomei a decisão urgente de proibir chegadas da Argentina, Brasil, Bolívia, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Panamá, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela a partir de amanhã, 15 de janeiro, às 04:00 após a evidência de uma nova variante no Brasil", anunciou Grant Shapps na rede social Twitter.

"As viagens de Portugal para o Reino Unido também serão suspensas devido às suas fortes ligações com o Brasil - agindo como mais uma forma de reduzir o risco de importação de infeções", acrescentou o ministro dos transportes. Anunciou, no entanto, uma exceção desta medida, mas só no caso de Portugal: É permitido o transporte de bens essenciais.

Informou também que "os cidadãos britânicos e irlandeses e nacionais de países terceiros com direito de residência" poderão entrar no país, mas têm de cumprir uma quarentena de 10 dias.

Fontes governamentais disseram ao The Guardian que os governos regionais autónomos apoiaram a decisão de Shapps, e que o País de Gales e a Escócia deverão anunciar medidas semelhantes em breve.

O primeiro-ministro britânico já tinha avisado que iriam ser tomadas medidas para impedir que a nova variante do vírus identificada no Brasil entrasse no Reino Unido.

Boris Johnson afirmou na quarta-feira estar preocupado com esta variante do SARS-CoV-2, originária do Brasil.

"Estamos preocupados com a nova variante brasileira. (...) Já temos medidas duras para proteger este país de novas infeções vindas do estrangeiro. Estamos a tomar medidas para fazê-lo em relação à variante brasileira", afirmou Johnson, durante uma audição realizada ontem com a Comissão de Ligação, composta pelos presidentes das diferentes comissões parlamentares.

O que se sabe sobre esta mutação encontrada no Brasil?

O chefe do Governo britânico disse que ainda existem "muitas dúvidas" sobre essa variante, incluindo se ela é resistente às vacinas, tal como não se sabe em relação à variante sul-africana.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o maior centro de investigação médica da América Latina, confirmou na terça-feira a identificação e circulação de uma nova estirpe do novo coronavírus originária do estado brasileiro do Amazonas.

Esta semana, o Ministério da Saúde do Brasil já tinha confirmado que o Japão identificou em quatro viajantes provenientes do Brasil a nova estirpe, que possui 12 mutações, incluindo a mesma encontrada em variantes já identificadas no Reino Unido e África do Sul, o que implica um maior potencial de transmissão do vírus.

Felipe Naveca, investigador da variante do vírus no Brasil, explica que a mutação do novo coronavírus originária da Amazónia brasileira pode ser tão contagiosa quanto as do Reino Unido ou da África do Sul.

Para este especialista do Instituto Leônidas e Maria Deane, que realiza pesquisas em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é provável que esta nova mutação, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) qualificou de "muito preocupante", já se tenha espalhado em outras regiões brasileiras.

A mutação surgiu na Amazónia, onde o número de internamentos por conta do vírus explodiu nas últimas semanas, principalmente em Manaus, capital do estado brasileiro do Amazonas.

É muito possível que a mutação brasileira seja tão contagiosa quanto as registadas no Reino Unido e na África do Sul

"Comparamos as amostras e vimos que as que foram coletadas na Amazónia eram ancestrais daquelas que foram vistas no Japão, mas estas haviam sofrido muitas mais mutações. Estamos em processo de conclusão do sequenciamento para confirmar que essas mutações detetadas no Japão estavam realmente presentes antes na Amazónia, mas é muito provável", disse o investigador, citado pela agência France-Presse.

"Estamos a investigar se essa variante é predominante no estado do Amazonas. A análise das amostras de novembro mostra que estaria presente em 50% dos casos da covid-19 neste estado. Quando terminarmos o sequenciamento em dezembro, essa proporção deve aumentar", acrescentou.

Felipe Naveca lembrou que não é certo ainda, mas é muito possível, que a mutação brasileira seja tão contagiosa quanto as registadas no Reino Unido e na África do Sul porque "observamos muitas mutações na proteína Spike [usada pelo SARS-CoV-2 para penetrar nas células], que já foi associada a esse maior potencial de transmissão do vírus".

O investigador frisou que o recrudescimento da situação em Manaus, onde o número de casos e mortes voltou a subir nas últimas semanas de forma alarmante, não se deve apenas à nova variante.

"Temos visto um aumento acentuado de casos por causa das festas de Fim de Ano e estamos em uma época em que outros vírus transmissores de doenças respiratórias estão circulando muito a cada ano", pontuou o especialista.

O investigador ponderou que ainda são há resposta sobre impacto das vacinas nesta variante do novo cornavírus.

"Essa é a pergunta que todos estão se perguntando agora. Recentemente participei de uma reunião da OMS e esse foi um dos tópicos. Até agora não há nada o que mostra que esta variante pode prevenir uma resposta imune após a vacinação ", concluiu.

41% dos casos atuais em Manaus são causados pela nova estirpe

O Daily Telegraph noticiou esta quinta-feira que a estirpe da covid-19 brasileira pode infetar pessoas que recuperaram do vírus, depois de cientistas terem descoberto que a nova estirpe brasileira sofreu mutações que a tornam mais infecciosa e tem alterações que a ajudam a escapar às defesas do sistema imunológico.

Um estudo publicado no ano passado sugeriu que 76% das pessoas em Manaus contraíram o coronavírus em outubro, o que deveria ter produzido imunidade de grupo, mas a cidade registou um aumento inesperado de novos casos no mês passado e agora declarou estado de emergência, com hospitais a atingir 100% da capacidade.

O Telegraph cita um novo estudo internacional que inclui cientistas do Imperial College e da Universidade de Edimburgo, que descobriu que 41% dos casos atuais em Manaus são causados pela nova estirpe.

A identificação de uma nova variante mais infecciosa no sul de Inglaterra levou o Governo britânico a impor restrições mais duras antes do Natal e dezenas de países a suspenderem voos a partir do Reino Unido ou a exigir testes antes do embarque.

A 24 de dezembro foi a vez de o Reino Unido proibir voos diretos com a África do Sul e a entrada de passageiros que tenham estado no país africano nos 10 dias anteriores devido ao risco apresentado por uma nova estirpe do SARS-CoV-2 identificada pelos cientistas sul-africanos, também considerada altamente infecciosa.

Na semana passada, estas restrições foram alargadas a vários países africanos, como Angola e Moçambique, por terem ligações com a África do Sul.

De referir que o comité de emergência da Organização Mundial da Saúde (OMS) reúne-se esta quinta-feira, duas semanas antes do previsto, para debater as variantes do novo coronavírus, que, de acordo com as autoridades de saúde, são mais contagiosas e têm preocupado os responsáveis de vários países.

Trata-se de "um debate urgente", refere a OMS. A reunião aborda não só as "variantes recentes" do vírus responsável pela covid-19, mas irá discutir a possível utilização dos "certificados de vacinação e de testes para viagens internacionais", conforme explica a agência da saúde.

Com Lusa e AFP

Atualizado às 19:22

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