Se tudo correr pelo melhor e o caso denunciado pelo líder do Jamaat-e-Islami de que 13 secções de voto foram vandalizadas na sua circunscrição não passar de um incidente isolado — isto para lá de variados casos de tentativa de compra de voto —, os 127 milhões de eleitores registados no Bangladesh vão aprovar ou rejeitar emendas e reformas constitucionais e eleger 299 dos 300 deputados de forma direta (a morte de um candidato adiou o escrutínio no seu círculo) e 50 deputadas de forma proporcional. Quem obtiver uma maioria parlamentar irá formar um executivo, encerrando o capítulo do governo de transição encabeçado desde agosto de 2024 pelo Prémio Nobel Muhammad Yunus. Apesar de se apresentarem candidatos de mais de 50 partidos, além de independentes, as alianças que se construíram tiveram o condão de transformar a eleição numa escolha entre dois blocos. O ciclo político iniciado com a revolta da juventude do Bangladesh ao regime opressivo de Sheikh Hasina, e que terminou com a fuga desta para a Índia e a sua condenação à morte, está prestes a terminar. Quase todos os principais partidos fizeram campanha pelo “sim” no referendo. Este prevê um limite de dez anos para o cargo de primeiro-ministro, mais poderes para o presidente, a criação de uma câmara alta de 100 lugares, uma quota de 100 assentos parlamentares para as mulheres, uma verdadeira independência do poder judicial, entre outras reformas com o objetivo de responder às exigências dos manifestantes e prevenir o autoritarismo encarnado pela primeira-ministra deposta. .Bangladesh dividido entre a celebração e a frustração um ano após a sua revolução.Mas o processo não agradou a todos. Por exemplo, G.M. Quader, líder do Partido Jatiya, tradicional aliado de Hasina, considera o referendo inconstitucional e antidemocrático. Outras críticas centram-se na formulação do dito, uma vez que está dividido em quatro questões, mas os eleitores só podem decidir o destino do documento em bloco. Se a maioria votar a favor, como indicam as sondagens, será formado um conselho para a reforma constitucional, tendo um prazo de 180 dias úteis para o fazer a partir da primeira sessão. Com a Liga Awami (o partido de Hasina) proibido de concorrer e o movimento estudantil a sentir dificuldades em transformar a revolta e as reivindicações numa plataforma política — apesar da criação do Partido Nacional dos Cidadãos (NCP) —, em especial após o assassínio do porta-voz Osman Hadi, em dezembro, os principais beneficiários no novo cenário político são o Partido Nacionalista do Bangladesh (BNP) e o Jamaat-e-Islami. O primeiro, liderado por Tarique Rahman, regressado do exílio, tem alternado no poder com a Liga Awami. Durante os períodos em que Hasina esteve no poder, as lideranças do BNP foram acusadas de corrupção. Também com o governo de transição, há relatos de que redes de extorsão e de corrupção ligadas à Liga Awami foram substituídas por outras em conexão ao BNP. No entanto, segundo Khandakar Tahmid Rejwan, professor da Universidade Independente do Bangladesh, ouvido pela Al Jazeera, com a chegada de Rahman, o partido tem um novo élan, e as queixas de extorsão “diminuíram de forma significativa”. O partido tem um acordo com outros sete nalguns círculos uninominais, mas concorre com candidato próprio em quase todos. O outro bloco, a Aliança de 11 Partidos, é liderado pelo Jamaat mas é mais generoso na distribuição de lugares: o NCP pode eleger 30 deputados e outro partido islamista 23. Durante décadas o Jamaat pagou (até com a vida) por ter defendido a manutenção do Bangladesh no Paquistão. Mas a sua mensagem tolerante e moderada, o facto de não estarem manchados pela corrupção — a principal preocupação dos bangladeshianos — por nunca terem exercido poder, e a abertura aos estudantes são pontos em seu favor, mas muitas mulheres temem a mensagem de conservadorismo islâmico. A maior e mais recente sondagem, da IILD, conclui que há 75 assentos dos 300 assentos em empate técnico e que os restantes estão praticamente divididos entre os dois blocos.Rahman versus Rahman.Tarique RahmanLíder do BNPFilho do presidente Ziaur Rahman (assassinado enquanto exercia o cargo, em 1981) e da ex-primeira-ministra Khaleda Zia (presa por corrupção entre 2017 e 2024). Aos 60 anos, regressou de um exílio em Londres de 16 anos — motivado pelos casos judiciais de que era alvo — para liderar o Partido Nacionalista, considerado de centro-direita.. Shafiqur RahmanLíder do Jamaat-e-IslamiNascido em 1958, formou-se em Medicina. Dirige um hospital universitário. Líder de facto do partido islamista desde 2011, tem vindo a amaciar o discurso fundamentalista ao longo dos tempos. A aliança com o partido criado pelos estudantes (NCP) abriu outras perspetivas a este movimento.