Recurso dos EUA sobre Assange minado por testemunha e pela CIA

Norte-americanos prometem não sujeitar fundador do Wikileaks a medidas especiais na prisão, mas planos para matá-lo e admissão de testemunha que fabricou acusações pode ser fatal.

Um tribunal de Londres ouve hoje, pelo segundo e último dia, os argumentos do recurso dos Estados Unidos sobre a recusa da extradição de Julian Assange para aquele país, decidido em janeiro. A juíza fora sensível ao risco de suicídio do fundador do Wikileaks, que arrisca uma pena de prisão de 175 anos caso seja julgado nos EUA.

Desde janeiro, no entanto, surgiram novidades que poderão influenciar a análise do tribunal. A maior delas, há um mês, está relacionada com a investigação da Yahoo News: a agência de espionagem CIA e a administração Trump discutiram planos para assassinar ou sequestrar Julian Assange em 2017, quando este estava sob asilo na embaixada do Equador na capital inglesa. Segundo as 30 fontes ouvidas, depois de o secretário de Estado Mike Pompeo ter designado o Wikileaks de "serviço de informações não estatal hostil" a CIA passou a tratar como inimiga a organização que tem como objeto revelar documentos confidenciais.

Por outro lado, a acusação dos Estados Unidos está construída em parte com base numa testemunha sem credibilidade, tendo o mesmo admitido que mentiu. Sigurdur Thordarson, conhecido como Siggi, o hacker, foi preso na Islândia no início do mês, suspeito de crimes de fraude e abuso sexual de menores e descrito por psicólogos em tribunal como um sociopata.

Ao jornal islandês Stundin, Thordarson admitiu ter fabricado declarações para implicar Assange. "De facto, voluntariou-se numa base limitada para angariar dinheiro para o Wikileaks em 2010, mas foi descoberto que tinha aproveitado essa oportunidade para desviar mais de 50 mil dólares da organização", conta o periódico, quando Julian Assange estava de visita à Islândia.

Perante estes dados, a defesa irá alegar que existe uma motivação política por detrás do pedido de extradição. "Argumentar-se-á que se a CIA estivesse disposta a assassiná-lo - esse é um dos braços do governo dos EUA - então realmente, não se pode confiar no outro braço do governo dos EUA, o Departamento de Justiça, para agir com justiça e julgá-lo de acordo com as normas dos direitos humanos e o que consideraríamos ser um julgamento justo", disse o advogado Nick Vamos à Voice of America.

Assange, de 50 anos, está preso desde 2019, "por perigo de fuga", depois de as autoridades equatorianas terem retirado o asilo diplomático. Os EUA acusam o australiano de divulgar mais de 700 mil documentos classificados sobre atividades militares e diplomáticas, em especial relacionadas com o Iraque e o Afeganistão. O tribunal londrino aceitou o recurso dos EUA porque o psiquiatra Michael Kopelman, que testemunhara a favor de Assange, admitiu ter ocultado o facto de este ter sido pai, por duas vezes, enquanto esteve asilado.

O advogado representante dos EUA garantiu que Assange não seria sujeito a medidas especiais, que iria receber cuidados clínicos e psicológicos e que poderia cumprir pena na Austrália. A secretária-geral da Amnistia Internacional mostra-se cética quanto às promessas norte-americanas e lamenta que "ninguém responsável por alegados crimes de guerra dos EUA cometidos no decurso das guerras do Afeganistão e do Iraque foi responsabilizado, e muito menos incriminado, e no entanto um editor que expôs tais crimes enfrenta potencialmente uma vida inteira na prisão", disse Agnès Callamard.

cesar.avo@dn.pt

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