Zohran Mamdani jurou o cargo de presidente da câmara de Nova Iorque aos primeiros minutos do novo ano, numa cerimónia íntima numa antiga estação de metro sob o edifício neoclássico que desde então é o seu escritório. No dia seguinte, as notícias eram sobre os Alcorão sobre o quais colocou a mão durante o juramento (um era do avô, outro do escritor e colecionador Arturo Schomburg), os nove dólares em dinheiro que teve que pagar ao funcionário municipal para tornar tudo oficial e as botas de couro pretas de 630 dólares que a sua mulher usou. A artista Rama Duwaji pode não querer ser uma primeira-dama tradicional ou não querer ser apenas vista como a Sra. Mamdani. Mas será tão escrutinada como o marido, o primeiro mayor muçulmano de Nova Iorque e o primeiro descendente de asiáticos (os pais são indianos, ele nasceu no Uganda) que, além disso, se identifica como socialista. E, segundo os conservadores norte-americanos, a mulher de um socialista não pode usar umas botas de 630 dólares da marca Miista (sediada em Londres, com fábrica em Espanha e que trabalha com artesãos portugueses), já que isso contradiz as políticas do marido. Mesmo que as botas e a roupa tenham sido emprestadas pela marca, como confirmou a estilista Gabriella Karefa-Johnson. O casaco da cerimónia no metro era um Balenciaga, emprestado pela Albright Fashion Library (que disponibiliza roupas para sessões de fotos, filmes ou eventos especiais). Já o da cerimónia pública, ao meio-dia, frente ao edifício da Câmara, era da estilista libanesa de origem palestiniana Cynthia Merhej, da marca Renaissance. Já tinha usado um designer palestiniano na noite da vitória de Mamdani.“Adoro moda, adoro ser criativa, combinar peças e criar looks”, disse Duwaji na primeira entrevista que deu após a eleição do marido, à New York Magazine, revelando que vai querer ajudar a pôr o foco noutros artistas como ela. “No final do dia, não sou uma política. Estou aqui para ser um sistema de apoio para o Z [como trata o marido] e usar o papel da melhor maneira que puder enquanto artista”, referiu. “Acho que há diferentes maneiras de ser primeira-dama, especialmente em Nova Iorque”, acrescentou. Aos 28 anos, Duwaji é a mais nova de sempre nessa posição, sendo também a primeira representante da chamada geração Z e a primeira muçulmana.Mas afinal, quem é Rama Duwaji? Filha de pais sírios (ele um engenheiro informático, ela uma médica pediátrica), nasceu em Houston, no Texas. Mas cresceu em Nova Iorque e Nova Jérsia. A família mudou-se quando tinha 9 anos para o Dubai, onde começou a mostrar o seu interesse pela ilustração, sempre a fazer desenhos nos cadernos ou nos livros. Voltou aos EUA para estudar na Virginia Commonwealth University, depois de um primeiro semestre no campus do Qatar. Ainda estava na universidade quando, ao partilhar as suas ilustrações no Instagram, começou a receber pedidos e comissões. As suas obras, muitas sobre mulheres árabes, a ideia de irmandade ou direitos humanos, já foram publicadas pelo The New York Times ou a BBC. “Falar abertamente sobre a Palestina, a Síria, o Sudão - tudo isto é muito importante para mim”, disse na entrevista. “Estou sempre a manter-me atualizada sobre o que está a acontecer, não só aqui, mas noutros sítios também. Parece falso falar de outra coisa quando é só isso que está na minha mente, tudo o que quero passar para o papel”, explicou. Além de ilustrações, trabalha com animação e cerâmica. A covid-19 estragou-lhe os planos de uma residência artística em Paris, e depois de passar a pandemia com a família no Dubai, optou por voltar em março de 2021 a Nova Iorque, onde partilhava um apartamento com uma antiga colega da universidade.Nesse mesmo ano, numa plataforma de encontros, conheceu Mamdani, seis anos mais velho do que ela, que na altura já estava na Assembleia Estadual. O primeiro encontro foi num café iemenita em Williamsburg e um passeio no parque McCarren. Os dois casaram em fevereiro do ano passado numa cerimónia civil em Nova Iorque e depois, em abril, numa cerimónia tradicional muçulmana no Dubai. Já em plena campanha teve de lidar com insinuações de que tinham casado “em segredo” e críticas ao seu vestido curto e de alças. Uma amostra do escrutínio que a espera enquanto Sra. Mamdani, que se queixa de que o que agora se escreve sobre ela não é nada sobre a sua arte, mas sobre o marido. “Rama não é apenas a minha mulher, é uma artista incrível que merece ser conhecida nos seus próprios termos. Podem criticar as minhas posições, mas não a minha família”, escreveu Mamdani no X, diante das críticas. Na tomada de posse, também não esqueceu a mulher: “Agradeço à minha mulher Rama por ser a minha melhor amiga e por me mostrar sempre a beleza nas coisas do dia a dia.”