Raffaella Petrini com o Papa Francisco.
Raffaella Petrini com o Papa Francisco.Vatican Media

Raffaella Petrini. A mulher que sucede a um cardeal

Por ela, Francisco alterou a lei fundamental do Vaticano. Por ela, enfrentou os conservadores. Fê-lo de uma cama do hospital. O Papa não arriscou morrer antes de elevar esta mulher ao Governatorato
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"A freira.” É assim que a conhecem para lá dos Muros Leoninos, sem necessidade de especificar de quem estão a falar, relata uma rendida imprensa italiana. Que lhe traça o retrato: “Figura esbelta, sorriso atravessado por um fio de ironia, extremamente discreta e extremamente eficiente” (La Repubblica, 26.02).

Raffaella Petrini, de 56 anos, é, a partir de 1 de março, a primeira mulher presidente da Pontifícia Comissão para o Estado da Cidade do Vaticano, bem como presidente do Governatorato, órgãos legislativo e executivo que lidam com o funcionamento do menor estado do mundo, em tamanho e população, mas um microestado com enorme influência global.

A freira sucede a vestes cardinalícias: Francisco fez dela a segunda mulher a ter ascendente hierárquico sobre um cardeal (depois de Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica), quebrando uma tradição secular.

Por ela, de uma cama da Policlínica Gemelli, de onde também assinou e finalizou a nomeação, o Papa alterou a lei fundamental do Vaticano. Bergoglio não arriscou morrer antes de elevar esta mulher ao Governatorato do Estado papal, decidido a marcar o seu pontificado com o empoderamento feminino na Igreja.

Com ela, mas não sem luta. Quando em 2022 colocou a possibilidade de uma mulher, leiga, liderar um dicastério na constituição apostólica, redesenhando o organograma do Vaticano, o Papa embateu nos setores mais conservadores da Cúria, escudados no Direito Canónico vigente. Dois anos depois, o pontífice insistiu, anunciando a decisão a 19 de janeiro.

“Pequena mulher ensolarada e cheia de energia”, Petrini conhece bem as funções que Francisco lhe acaba de confiar. Até agora, a N.º 2 na “municipalidade”, administrou “com firmeza as muitas tarefas de Oltretevere, dos Museus do Vaticano aos jardins, da manutenção dos edifícios às intervenções extraordinárias, das receitas às despesas”.

O reconhecimento da competência vem dos anos (2005-2021) em que serviu na Congregação para a Evangelização dos Povos. Aí seria descoberta por Francisco - quando a 4 de novembro de 2021 confia a Petrini a secretaria-geral do governo, Bergoglio fez dela a mulher com a mais alta patente do Vaticano, e a primeira a ocupar o cargo. À época, havia quem lhe chamasse “a Papisa de Francisco”.

Gestora sem complexos

Do pallazo, localizado no centro do Estado da Cidade do Vaticano, Petrini supervisionará cerca de 2000 funcionários - 2% religiosos, 98% leigos - ao serviço de um organismo complexo, com sete grandes áreas operacionais: Infraestruturas e Serviços, Economia, Telecomunicações e Sistemas de Informação, Serviços de Segurança e Proteção Civil, Saúde e Higiene, Museus e Património Cultural, Vilas Pontifícias. Uma estrutura articulada e complicada de governar.

Como secretária-geral, confessou à imprensa, “um dos meus focos foi o apoio aos funcionários e suas famílias, desde o acampamento de verão para os filhos dos trabalhadores, à criação de um jardim de infância”.

“Empatia”e “disponibilidade para ouvir” são marcas de uma liderança, sempre discreta, jamais anódina, consubstanciada em “carisma” e “caráter”. Sobre essa natureza escreveu a jornalista e política italiana Lella Golfo, primeira signatária, enquanto parlamentar, do projeto-lei das quotas de género nos conselhos de administração e conselhos fiscais de empresas italianas, públicas e cotadas em bolsa (2011): “É uma abertura ao mundo, às suas alegrias e sofrimentos; é a curiosidade aguda de quem nunca se contenta com o que sabe, e é também um puro gesto de gratidão que se exprime assim, com autêntica proximidade.”

Raffaella Petrini é, porém, uma gestora sem complexos, que sabe bem como cortar custos e despesas desnecessárias e tornar a máquina administrativa mais eficiente, como, de resto, explicou em várias conferências sobre economia e a eficiência que o digital pode trazer à saúde pública.

Considerando a dicotomia entre crescimento económico e transformações mais profundas de nível social e cultural “um equilíbrio difícil de alcançar”-, Petrini assume-se inspirada pelo economista americano Jeremy Rifkin e pelo conceito de bens comuns.

Em outubro do ano passado, chefiou a delegação do Vaticano ao prestigiado Global Standards Symposium, em Nova Deli, sobre o tema “Catalisando a mudança: os líderes da indústria e dos ministérios definem o futuro da inovação”, e nessa ocasião, entre outras coisas, reiterou a proposta da Santa Sé para a criação de uma agência internacional para desenvolver um quadro regulamentar e operacional sobre o uso pacífico da Inteligência Artificial.

Poder vs. serviço

“A mulher mais poderosa do Vaticano”, lê-se em alguma imprensa italiana desta semana. Ao poder e ambição, Petrini responde com dois reptos menos em voga: “missão” e “serviço”. “Qualquer administrador gere recursos financeiros e materiais - bem como recursos humanos - que não possui. Ao usar esse tipo de glossário, perde-se uma das mais belas faculdades de quem gere cargos de responsabilidade: facilitar e influenciar positivamente a vida das pessoas.”

No início da década de 90 do século XX, a recém-licenciada em Ciências Políticas pela Universidade Internacional dos Estudos Guido Carli, em Roma, a cidade onde, a 15 de janeiro de 1969, nasceu, dava os primeiros passos numa agência de Relações Públicas. Perspetivava o sucesso em multinacionais. É nesses primeiros anos da idade adulta que se deixa cativar pelo desafio das irmãs Franciscanas da Eucaristia, instituto religioso de direito pontifício sediado nos Estados Unidos: restaurar o sentido do sagrado, especialmente da sacralidade da vida humana.

Colocada entre o caminho profissional e o apelo da fé, Petrini escolhe a consagração, convencida de uma conciliação impossível. Engano. Será já como consagrada que se tornará doutora (Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino) e mestre em Ciência do Comportamento Organizacional (Barney School of Business da Universidade de Hartford, Connecticut). Dois mundos vividos com igual paixão e pragmatismo.

Raffaella Petrini sucede ao cardeal octogenário Fernando Vergéz Alzaga.

Raffaella Petrini com o Papa Francisco.
É a primeira mulher a ocupar o cargo. Papa nomeia Raffaella Petrini como governadora do Vaticano

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