"A freira.” É assim que a conhecem para lá dos Muros Leoninos, sem necessidade de especificar de quem estão a falar, relata uma rendida imprensa italiana. Que lhe traça o retrato: “Figura esbelta, sorriso atravessado por um fio de ironia, extremamente discreta e extremamente eficiente” (La Repubblica, 26.02).Raffaella Petrini, de 56 anos, é, a partir de 1 de março, a primeira mulher presidente da Pontifícia Comissão para o Estado da Cidade do Vaticano, bem como presidente do Governatorato, órgãos legislativo e executivo que lidam com o funcionamento do menor estado do mundo, em tamanho e população, mas um microestado com enorme influência global.A freira sucede a vestes cardinalícias: Francisco fez dela a segunda mulher a ter ascendente hierárquico sobre um cardeal (depois de Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica), quebrando uma tradição secular. Por ela, de uma cama da Policlínica Gemelli, de onde também assinou e finalizou a nomeação, o Papa alterou a lei fundamental do Vaticano. Bergoglio não arriscou morrer antes de elevar esta mulher ao Governatorato do Estado papal, decidido a marcar o seu pontificado com o empoderamento feminino na Igreja.Com ela, mas não sem luta. Quando em 2022 colocou a possibilidade de uma mulher, leiga, liderar um dicastério na constituição apostólica, redesenhando o organograma do Vaticano, o Papa embateu nos setores mais conservadores da Cúria, escudados no Direito Canónico vigente. Dois anos depois, o pontífice insistiu, anunciando a decisão a 19 de janeiro.“Pequena mulher ensolarada e cheia de energia”, Petrini conhece bem as funções que Francisco lhe acaba de confiar. Até agora, a N.º 2 na “municipalidade”, administrou “com firmeza as muitas tarefas de Oltretevere, dos Museus do Vaticano aos jardins, da manutenção dos edifícios às intervenções extraordinárias, das receitas às despesas”.O reconhecimento da competência vem dos anos (2005-2021) em que serviu na Congregação para a Evangelização dos Povos. Aí seria descoberta por Francisco - quando a 4 de novembro de 2021 confia a Petrini a secretaria-geral do governo, Bergoglio fez dela a mulher com a mais alta patente do Vaticano, e a primeira a ocupar o cargo. À época, havia quem lhe chamasse “a Papisa de Francisco”.Gestora sem complexos Do pallazo, localizado no centro do Estado da Cidade do Vaticano, Petrini supervisionará cerca de 2000 funcionários - 2% religiosos, 98% leigos - ao serviço de um organismo complexo, com sete grandes áreas operacionais: Infraestruturas e Serviços, Economia, Telecomunicações e Sistemas de Informação, Serviços de Segurança e Proteção Civil, Saúde e Higiene, Museus e Património Cultural, Vilas Pontifícias. Uma estrutura articulada e complicada de governar.Como secretária-geral, confessou à imprensa, “um dos meus focos foi o apoio aos funcionários e suas famílias, desde o acampamento de verão para os filhos dos trabalhadores, à criação de um jardim de infância”.“Empatia”e “disponibilidade para ouvir” são marcas de uma liderança, sempre discreta, jamais anódina, consubstanciada em “carisma” e “caráter”. Sobre essa natureza escreveu a jornalista e política italiana Lella Golfo, primeira signatária, enquanto parlamentar, do projeto-lei das quotas de género nos conselhos de administração e conselhos fiscais de empresas italianas, públicas e cotadas em bolsa (2011): “É uma abertura ao mundo, às suas alegrias e sofrimentos; é a curiosidade aguda de quem nunca se contenta com o que sabe, e é também um puro gesto de gratidão que se exprime assim, com autêntica proximidade.”Raffaella Petrini é, porém, uma gestora sem complexos, que sabe bem como cortar custos e despesas desnecessárias e tornar a máquina administrativa mais eficiente, como, de resto, explicou em várias conferências sobre economia e a eficiência que o digital pode trazer à saúde pública. Considerando a dicotomia entre crescimento económico e transformações mais profundas de nível social e cultural “um equilíbrio difícil de alcançar”-, Petrini assume-se inspirada pelo economista americano Jeremy Rifkin e pelo conceito de bens comuns. Em outubro do ano passado, chefiou a delegação do Vaticano ao prestigiado Global Standards Symposium, em Nova Deli, sobre o tema “Catalisando a mudança: os líderes da indústria e dos ministérios definem o futuro da inovação”, e nessa ocasião, entre outras coisas, reiterou a proposta da Santa Sé para a criação de uma agência internacional para desenvolver um quadro regulamentar e operacional sobre o uso pacífico da Inteligência Artificial.Poder vs. serviço“A mulher mais poderosa do Vaticano”, lê-se em alguma imprensa italiana desta semana. Ao poder e ambição, Petrini responde com dois reptos menos em voga: “missão” e “serviço”. “Qualquer administrador gere recursos financeiros e materiais - bem como recursos humanos - que não possui. Ao usar esse tipo de glossário, perde-se uma das mais belas faculdades de quem gere cargos de responsabilidade: facilitar e influenciar positivamente a vida das pessoas.”No início da década de 90 do século XX, a recém-licenciada em Ciências Políticas pela Universidade Internacional dos Estudos Guido Carli, em Roma, a cidade onde, a 15 de janeiro de 1969, nasceu, dava os primeiros passos numa agência de Relações Públicas. Perspetivava o sucesso em multinacionais. É nesses primeiros anos da idade adulta que se deixa cativar pelo desafio das irmãs Franciscanas da Eucaristia, instituto religioso de direito pontifício sediado nos Estados Unidos: restaurar o sentido do sagrado, especialmente da sacralidade da vida humana. Colocada entre o caminho profissional e o apelo da fé, Petrini escolhe a consagração, convencida de uma conciliação impossível. Engano. Será já como consagrada que se tornará doutora (Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino) e mestre em Ciência do Comportamento Organizacional (Barney School of Business da Universidade de Hartford, Connecticut). Dois mundos vividos com igual paixão e pragmatismo.Raffaella Petrini sucede ao cardeal octogenário Fernando Vergéz Alzaga..É a primeira mulher a ocupar o cargo. Papa nomeia Raffaella Petrini como governadora do Vaticano