Quem são os radicais de direita que querem governar o Brasil à distância?
Horas depois de aterrar em Miami com o objetivo de fugir da polícia e dos tribunais, Flávio Bolsonaro comparou-se em carta aberta a Charles de Gaulle, para espanto geral de quem a leu. Como o estadista francês durante o regime de Vichy, o candidato derrotado por Lula da Silva na eleição presidencial do Brasil, no domingo, dia 25, vê-se a governar ou, no mínimo, a liderar a oposição a partir dos EUA, com a ajuda de um círculo íntimo ao lado. Académicos ouvidos pelo DN, entretanto, duvidam que a estratégia desse núcleo prospere.
E quem é o núcleo? Na Florida, Flávio, 45 anos, ex-candidato presidencial e senador até o início de fevereiro de 2027, foi recebido pelo irmão Eduardo, 42, ex-deputado federal. Se o mais velho saiu do Brasil, pela Argentina sem cumprir a ordem de entregar os passaportes e a proibição de viajar por ser investigado em três casos de corrupção e lavagem de dinheiro e um de calúnia, o mais novo é mesmo foragido da justiça brasileira depois de ter sido condenado a quatro anos e dois meses de prisão por coação.
Flávio é (ou era) visto como o filho mais moderado de Jair Bolsonaro – “sou o Bolsonaro que se vacinou”, disse em campanha para mitigar a imagem da família. Mas Eduardo, radical assumido, lidera uma espécie de ministério das relações externas do bolsonarismo, com ligações a expoentes da direita norte-americana, como Steve Bannon, estratega de Donald Trump, e Marco Rubio, atual secretário de estado.
Com Rubio e outros membros da administração republicana, Eduardo coordenou o “tarifaço”, o aumento agressivo de impostos de importação adotado pelos EUA contra o Brasil. No mesmo lóbi, conseguiu fazer aprovar sanções ao juiz Alexandre de Moraes, que conduziu a condenação do pai, através da Lei Magnitsky, que restringe vistos a acusados de violação de direitos humanos. O objetivo era pressionar os poderes executivo, legislativo e judicial e impor a amnistia de Jair Bolsonaro. Foram essas ações que motivaram a sua condenação por coação no curso do processo.
O neto do ditador
Flávio e Eduardo, por força dos cargos e do apelido, são a cabeça da sucursal americana da extrema direita brasileira. Já Paulo Figueiredo, empresário, comentador político e influenciador, residente nos EUA há dez anos, funciona como espécie de ideólogo, até porque o guru original do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, morreu em Richmond, em 2022.
Figueiredo vem, como Flávio e Eduardo, de uma linhagem de extremistas de direita: é neto do general João Batista Figueiredo, último presidente, de 1979 a 1985, do período da ditadura militar. E é, como Eduardo, foragido da justiça brasileira por coação no curso do processo de Bolsonaro por instigar o “tarifaço” e a Magnitsky.
Em junho deste ano atacou o voto feminino. “A mulher, sobretudo as solteiras, votam muito mal”. Dada a repercussão negativa, “corrigiu”: “Deixem eu retratar-me: a mulher não vota muito mal, vota mal para c….”. Sobre a hoje senadora Michelle Bolsonaro, à época em colisão com o então pré-candidato presidencial Flávio, disse que o sucesso político dela dependia de não abrir a boca.
Allan dos Santos, jornalista com mandado de prisão preventiva desde 2021 no contexto de um inquérito sobre fake news, é outro conselheiro dos irmãos Bolsonaro.
Os outros
Nos EUA, Flávio já se fotografou também com Alexandre Ramagem, diretor-geral da Abin, a CIA brasileira, no governo Bolsonaro, que escapou para a Florida, via Guiana, após ser condenado a 16 anos de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado de 2022.
E deve reunir-se com Rodrigo Cataratas, garimpeiro de ouro ligado à exploração mineira nos territórios indígenas Yanomani, já condenado por garimpo ilegal. Ele é suspeito, segundo a polícia, de ter ajudado Ramagem a fugir.
Além, claro, de Willer Tomaz, o amigo pessoal e advogado com quem é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro em operações milionárias envolvendo apostas e irregularidades nos descontos da segurança social brasileira. Além desse caso, Flávio ainda é suspeito no caso do pedido ao banqueiro preso por corrupção Daniel Vorcaro de 134 milhões de reais para financiar filme biográfico sobre Jair Bolsonaro e, segundo a polícia, as despesas de Eduardo nos EUA.
Párias
“Eles não conseguem comandar o Brasil a distância mas podem causar transtornos graves à nossa democracia, como greves e bloqueios, até porque têm uma base radical fiel de uns 20% da população, e também causar mais sanções, via Trump”, defende Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado. Para o académico, “eles são, por isso, párias para o mundo mas não tanto para o Brasil…”
Já Roberto Uebel, professor da mesma disciplina mas da Escola de Propaganda e Marketing, acha que “se esse núcleo influenciar alguém, será um grupo muito restrito de bolsonaristas leais, porque até Michele Bolsonaro se afastou dos enteados”. Segundo Uebel, “o movimento irá, sim, acelerar o fim do bolsonarismo”.

