Putin dá ordens para prosseguir a guerra, aliados fazem contas à reconstrução

Tomada Lugansk, os esforços do invasor centram-se em Donetsk. Aos líderes reunidos na Suíça para definir as linhas da reparação do país, Zelensky disse ambicionar uma reconstrução também social e institucional.

Vladimir Putin deu ordens para o exército prosseguir os "planos previamente aprovados" numa reunião com o ministro da Defesa Sergei Shoigu. O encontro transmitido pela televisão russa serviu para o presidente russo se mostrar vencedor, após a tomada por completo da região de Lugansk, e indicar que o esforço de guerra não vai parar. O sinal do que aí vem foi dado horas antes, quando Sloviansk e Kramatorsk - com Bakhmut as principais localidades que restam em mãos ucranianas no Donbass - receberam uma chuva de projéteis. Sem sinais de abrandamento na frente, muito menos de paz, começou uma conferência em Lugano, na Suíça, sobre a reconstrução do país, e na qual a União Europeia, pela voz da presidente da Comissão, se comprometeu a criar uma plataforma internacional para coordenar a iniciativa.

"Todos sabem que vai haver uma enorme batalha em Sloviansk", disse à Associated Press um soldado. Neste momento, o ânimo não será o melhor do lado ucraniano. Apesar de terem atrasado o avanço russo durante semanas - primeiro na siderurgia Azovstal, em Mariupol, depois em Severodonetsk - o preço a pagar terá sido na ordem das centenas de mortos e feridos diariamente. Em consequência, as forças na linha da frente estão a receber tropas com menos treino, como é o caso das unidades das forças de defesa territorial e da Guarda Nacional.

Com o ataque russo a Sloviansk, que matou seis pessoas, incluindo uma menina de 9 anos, o número de crianças mortas atingiu pelo menos 345. Outras 644 ficaram feridas.

Numa guerra de artilharia, como esta, a vantagem vai para as forças russas, com um número muito superior de armamento pesado. Como disse o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, Moscovo juntou "o seu maior poder de fogo no Donbass" pelo que agora "podem usar dezenas de milhares de munições de artilharia todos os dias numa secção da frente". Tem sido esta a tática russa: bombardear e arrasar povoações e cidades e só depois avançar.

Depois de uma retirada humilhante na região de Kiev, no início do conflito, o líder russo não quer perder a oportunidade de conquistar o máximo de território possível, e em especial a totalidade das duas regiões do leste da Ucrânia conhecidas por Donbass - afinal um dos motivos alegados para a "operação militar especial" foi a proteção dos habitantes de Lugansk e Donetsk, os quais dizia que vinham a sofrer "humilhação e genocídio".

Depois de Shoigu ter anunciado o controlo militar de Lugansk, Putin aconselhou as unidades que "participaram nas hostilidades e venceram na frente de Lugansk" a "descansar e aumentar as capacidades de combate". De resto, "devem executar as suas tarefas de acordo com planos previamente aprovados", disse Putin, que anunciou a condecoração dos dois comandantes militares no terreno com a ordem Herói da Rússia. "Espero que tudo continue a correr no seu rumo, como aconteceu até agora em Lugansk."

Em sentido oposto, e em reação à retirada de Lysychansk, o líder ucraniano disse que o seu país "não renuncia a nada". "Regressaremos, graças às nossas táticas, graças ao aumento do fornecimento de armas modernas", assegurou na habitual mensagem de vídeo publicada na sua página.

Discutir a reconstrução

Horas depois, o presidente ucraniano interveio na conferência de Lugano sobre a reconstrução do seu país, "uma tarefa de todo o mundo democrático, de todos os países que se dizem civilizados". Zelensky pediu para o apoio não se limitar às infraestruturas, mas que também se centre no desenvolvimento das instituições e da sociedade. Ou seja, que o projeto tenha "segurança, nível tecnológico, respeito pelas normas ambientais, orientação para o interesse social, transparência máximos".

O presidente ucraniano estimou em 750 mil milhões de dólares (719 mil milhões de euros) o custo da reconstrução do país, quando a guerra continua e com isso a destruição.

Um projeto que transcende a reconstrução e reparação do edificado e "do tecido da vida", mas também "do desenvolvimento institucional", um plano que necessita de 750 mil milhões de dólares. "Temos de reforçar as nossas instituições, garantir que somos o país mais livre da Europa, o mais confortável para os negócios e garantir que podemos cumprir todas as tarefas políticas, porque estamos a aderir ao mundo democrático", concluiu no discurso por videoconferência.

Na reunião organizada pelo governo suíço, que juntou ontem e hoje cerca de mil pessoas entre governantes, organizações internacionais de desenvolvimento e empresários, o objetivo não foi o de arrecadar fundos, mas de estabelecer prioridades para o pós-guerra. A presidente da Comissão Europeia anunciou que a UE vai criar uma plataforma internacional para identificar necessidades de investimento, coordenar ações e canalizar recursos de uma forma eficiente - e depois do verão, Ursula von der Leyen e o chanceler alemão Scholz irão organizar uma nova conferência, para dar "aos investidores a confiança necessária".

cesar.avo@dn.pt

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