PSDB escolhe hoje candidato a presidente do Brasil

João Doria e Eduardo Leite disputam primárias de um partido que, desde Bolsonaro, já não é o que era. Bairrismos, acusações de fraude, traições, a sombra de Moro e até sexualidade entraram no debate

O PSDB vai escolher neste domingo, dia 21, o candidato a presidente nas eleições do próximo ano entre João Doria, governador de São Paulo, e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul. Resta saber se ainda é o PSDB que governou o Brasil de 1995 a 2002, através de Fernando Henrique Cardoso, e forçou Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do PT, à segunda volta nas quatro eleições seguintes ou se é o PSDB que em 2018, soterrado pela ascensão de Jair Bolsonaro, nem chegou a 5%.

Doria e Leite, assim como o terceiro candidato, Arthur Virgílio, ex-prefeito de Manaus, querem acreditar na primeira versão mas a maioria dos observadores inclina-se para a segunda, depois do debate das primárias ter sido marcado por lutas paroquiais, traições, acusações de fraude, homofobia e a sombra de Sergio Moro.

"O PSDB caminha para a extinção, ganhe Doria ou Leite, e dificilmente volta à presidência perdida em 2002", prevê o cientista político Vinícius Vieira, da Fundação Armando Álvares Penteado.

"Na prática, o partido sairá sempre rachado das primárias", continua. "Porque é um partido dividido, por um lado, entre os mais velhos, ainda ligados à social-democracia, e os mais jovens, liberais no sentido amplo da palavra".

"E, por outro, dividido em regionalismos, com São Paulo, que no passado lançou os candidatos Fernando Henrique Cardoso, José Serra ou Geraldo Alckmin e agora pode lançar Doria, a deter cerca de 25% a 30% dos filiados, contra os enciumados diretórios de Minas Gerais, cujo principal nome é o ex-candidato Aécio Neves, e também do Rio Grande do Sul, de onde vem Leite".

Mas mesmo São Paulo se subdivide. "Muitos filiados do estado asseguram que vão votar em Doria, para não se indispor com ele, mas vão escolher Leite na hora H", disse sob anonimato um "tucano", como são chamados os membros do partido, ao site O Antagonista. E Geraldo Alckmin, barão que negoceia a sua saída para outros partidos e pode até ser candidato a vice-presidente de Lula, também trabalha contra Doria, de quem se tornou inimigo interno.

Caso Cabelinho

"Depois, embora seja elogiável a realização de primárias, método que deveria ser seguido por outros partidos brasileiros, o processo foi muito mal conduzido, com suspeitas de fraude na votação", lembra Vinícius Vieira.

No domingo passado, Cabelinho, alcunha pela qual é conhecido Edson Moraes, vereador do PSDB na minúscula Tapiratiba, no interior de São Paulo, gravou um vídeo na internet a ensinar como fraudar a votação.

"Eu sou o vereador Cabelinho e descobri uma coisa que não pode acontecer na aplicação de votação do PSDB: eu vou mostrar para vocês como pode ser burlado o sistema", afirma. Em seguida, inscreve-se para votar nas primárias com o nome de Nair Aparecida Belchior, mesmo com a sua foto e documento, e a aplicação aceita.

O caso levou representantes de Leite a solicitar adiamento do ato eleitoral. Doria e Virgílio consideraram o pedido "imoral e inaceitável". Leite afirmou não ter sido informado da solicitação dos seus representantes.

Efeito Lava Jato

A campanha nas primárias foi ainda surpreendida pela filiação de Sergio Moro, ao Podemos, num ato com cara de pré-candidatura à presidência, o que baralharia as contas da chamada "terceira via" a Lula, o líder das sondagens, e Bolsonaro, o segundo classificado. A entrada em cena do ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro de Bolsonaro prejudica, sobretudo, Doria.

"Doria eleito no PSDB terá poucas hipóteses de vencer no país por causa da entrada de Moro na disputa", diz Vinícius Vieira. "Se se confirmar essa entrada, a Doria não restará muito além de se contentar com a vice-presidência dele, o que é ruim para o partido".

Entretanto, ao liderar a campanha pela vacinação no Brasil, o governador de São Paulo recebeu aplausos do país, por um lado, e vaias de eleitores bolsonaristas que o acusam de ter paralisado a economia estadual, por outro. "Ele não reúne sequer apoio popular no seu reduto", assinala o politólogo.

Homofobia

"Mas no caso de vencer Leite, ele seria ainda pior candidato a presidente por uma razão: é homossexual", adverte Vieira.

"Isso é um problema para o eleitor conservador, não vejo o eleitor evangélico, aquele que ficou impactado com a mamadeira de piroca de 2018 [notícia falsa de que Fernando Haddad queria instituir biberões em forma de pénis para combater a homofobia], agora votar num homossexual, talvez no futuro, se o conservadorismo na sociedade brasileira, como esperamos, se reduza", defende o universitário.

Há um exemplo vivo dessa tese. Depois de anunciar apoio a Leite, a deputada federal Geuvânia de Sá, presidente do diretório do estado de Santa Catarina, viu o eleitorado evangélico catarinense ameaçar não apoiar a sua reeleição ao parlamento. Um pastor da Assembleia de Deus gravou mesmo um vídeo chamando Leite de "indigno".

Têm a palavra os cerca de 40 mil filiados inscritos para votar, cujo peso eleitoral é de 25%. Os quase mil prefeitos e vice-prefeitos "tucanos" pesam também 25%, assim como os deputados federais, os senadores, os governadores, os ex-presidentes e o atual presidente do partido. O restante quarto é dividido, 12,5% para cada, entre deputados estaduais e vereadores.

EDUARDO LEITE

Governador do Rio Grande do Sul

36 anos

Principais apoios: Aécio Neves e Geraldo Alckmin (ex-candidatos à presidência), Tasso Jereissati (senador que retirou candidatura a seu favor)

JOÃO DORIA

Governador de São Paulo

63 anos

Principais apoios: Fernando Henrique Cardoso (presidente de 1995 a 2002), Bruno Araújo (presidente do partido), Alexandre Frota e Joice Hasselman (ex-bolsonaristas recém filiados)

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