O que é a chamada revolução flamingo?É o nome dado a uma onda de protestos populares que começou no final de maio na Albânia. Começou por se centrar contra um projeto de uma estância de luxo numa área protegida e transformou-se num movimento nacional que exige a demissão do primeiro-ministro Edi Rama, bem como reformas estruturais no país. Flamingo porquê?Também poderia chamar-se foca-monge ou o nome de outra espécie que habita a lagoa de Narta e a península de Zvërnec, perto de Vlorë — a zona em disputa no Mar Adriático que é um santuário de biodiversidade. Acolhe mais de 200 espécies, incluindo flamingos, pelicanos e tartarugas marinhas. Os manifestantes adotaram o flamingo como símbolo, usando bonecos gigantes, desenhos e versões alternativas da bandeira albanesa..Sazan, de base militar do estalinista Hoxha para estância de Trump.Que projeto é este e quem está por trás?O projeto imobiliário divide-se em dois locais: na ilha desabitada de Sazan (que albergou uma antiga base militar da era do comunista Enver Hoxha) e um complexo turístico na zona costeira de Zvërnec, dentro de uma área protegida, com hotéis, apartamentos e marinas. Os montantes citados do investimento situam-se nos 1,4 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros) para Sazan e 4,7 mil milhões (4,1 mil milhões de euros) para Zvërnec. O projeto tem a mão de Jared Kushner, genro de Donald Trump, e recebeu o estatuto de “investidor estratégico” por parte do governo albanês. Ivanka Trump contou num podcast que ela e o marido descobriram Sazan durante uma viagem de iate, em 2021, e que desde então ficaram “encantados” com a sua beleza — e com o potencial para lucrarem. Porquê a controvérsia? Porque envolve uma área legalmente protegida desde 2004. Mas as restrições à construção foram convenientemente enfraquecidas por emendas à lei das áreas protegidas em 2024. Ambientalistas denunciam a apropriação de terras públicas, falta de transparência sobre os beneficiários reais e risco de danos ambientais irreversíveis.O que desencadeou os protestos?No final de maio, moradores e ativistas encontraram maquinaria pesada e cercas com arame farpado na área protegida. Em 30 de maio, durante um protesto em Zvërnec, guardas de uma empresa de segurança privada agrediram e detiveram manifestantes perante a inação da polícia. As imagens do sucedido inflamaram a opinião pública. Em 24 horas, o movimento espalhou-se de Zvërnec para Tirana e outras cidades albanesas, bem como para a diáspora albanesa. O lema “Albânia não está à venda” uniu pessoas de todos os espectros sociais e políticos, jovens e velhos, assim como comunidades afetadas por outros projetos “estratégicos”.Quem lidera o movimento?O movimento não é hierárquico e não tem líderes únicos. Há uma clara rejeição ao envolvimento dos partidos tradicionais, incluindo a oposição do Partido Democrata de Sali Berisha, visto como parte do sistema. A organização faz-se através de assembleias diárias nas ruas. Quais as suas exigências?As reivindicações incluem, como é natural, o cancelamento do projeto imobiliário de Zvërnec/Sazan e a revogação da lei dos investidores estratégicos e das emendas à lei das áreas protegidas. Mas se a defesa do meio ambiente foi o catalisador, o protesto acabou por dar voz a uma lista de problemas acumulados: sistema de saúde precário, pensões baixas, educação deficitária, preços elevados, corrupção, apropriação de terras e perceção de um regime oligárquico. Daí que o movimento peça a demissão do governo de Edi Rama; a criação de um governo técnico de transição para organizar eleições livres e justas; e reformas constitucionais e eleitorais.Como reagiu o governo?Num primeiro momento, o governo respondeu com repressão policial. Mais tarde com a narrativa de “guerra híbrida”, acusando atores externos (Grécia, Sérvia, Irão) de orquestrarem os protestos, tendo chegado a circular uma foto gerada por IA de autocarros gregos a chegar para manifestações.Que consequências para Rama? E para Tirana?O organismo anticorrupção (SPAK), sob pressão, abriu investigações ao projeto, incluindo as emendas de 2024 à lei das áreas protegidas. Rama, antigo presidente da Câmara da capital albanesa e chefe do executivo desde 2013, não dá sinais de querer abdicar do cargo, nem do controverso projeto, nem sequer da legislação que abre o país ao investimento estrangeiro ainda que tenha como consequência potenciais crimes ambientais. No ano passado, Rama havia chamado a atenção mediática por ter nomeado uma ministra virtual para a pasta dos concursos públicos — ou seja, entregou-a à IA. Uma iniciativa de aparente probidade, mas que foi alvo de críticas porque essa transferência de competências não garante por si a impossibilidade de corrupção. A Albânia, que é candidata à adesão à União Europeia, não fica bem vista neste caso que levanta dúvidas sobre a transparência das instituições, sobre o Estado de direito, e sobre a defesa do ambiente perante aparentes práticas oligárquicas sob a capa do desenvolvimento.