O diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, nomeado por Donald Trump, demitiu-se esta terça-feira (17 de março), alegando não poder apoiar a guerra no Irão. Joe Kent disse, na sua carta de demissão, que Teerão “não era uma ameaça iminente” aos EUA e que Washington só começou a guerra “por causa da pressão de Israel e do seu poderoso lóbi na América”. Trump rejeita acusações, dizendo que o veterano era “fraco em segurança”.A demissão surge no dia em que os israelitas anunciaram ter matado o líder do Conselho de Segurança Nacional do Irão, Ali Larijani, que muitos viam como um moderado (apesar de ter liderado a repressão aos protestos deste ano) e como a melhor opção para dialogar com o Ocidente - cenário que não interessaria a Israel. Teerão viria a confirmar horas depois o facto, com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, a prometer vingar a morte, segundo comunicado divulgado pela agência de notícias oficial Mehr.Baixa internaO 18.º dia de guerra no Irão marca o primeiro sinal de dissidência dentro da Administração de Trump em relação ao conflito. Kent alega na carta de demissão que o presidente foi “enganado” por oficiais israelitas e uma campanha de desinformação, levando-o a acreditar que o Irão representava uma ameaça iminente para os EUA, que era preciso atacar agora e que havia um caminho claro para a vitória.“Isto foi mentira e é a mesma táctica que os israelitas usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares dos nossos melhores homens e mulheres. Não podemos cometer esse erro novamente”, disse. Os argumentos de Kent - um veterano das forças especiais e da CIA de 45 anos cuja mulher, também veterana, foi morta num ataque suicida na Síria -, ecoam os de vários comentadores conservadores e do movimento MAGA que são contra o envolvimento dos EUA neste conflito. A Casa Branca considerou as acusações “absurdas”. E o próprio Trump também criticou aquele que era um dos seus grandes apoiantes, sabendo que não será bom alguém com o currículo e experiência de Kent questionar os motivos para os EUA entrarem na guerra. Mesmo se, no passado, foi atacado por ligações a militantes de extrema-direita e defendeu várias teorias da conspiração. “Li a declaração dele. Sempre achei que ele era um tipo porreiro, mas sempre achei que era fraco em segurança, muito fraco em segurança. Não o conhecia bem, mas achei que parecia ser um tipo bastante porreiro”, disse Trump aos jornalistas na Sala Oval. “Ainda bem que saiu, porque disse que o Irão não era uma ameaça”, acrescentou. “O Irão era uma ameaça. Todos os países perceberam a ameaça que o Irão representava. A questão é se queriam ou não fazer algo a esse respeito”, afirmou Trump. O presidente dos EUA aproveitou também para dizer que a NATO está a cometer “um erro muito tolo”, depois de vários países terem rejeitado o seu pedido de enviar navios de guerra para o estreito de Ormuz. .Europeus entre o não resoluto e a “mente aberta” à proposta de Trump para Ormuz.A ideia de Trump era usar os aliados para manter aberta esta importante via marítima por onde passa 20% do comércio mundial de petróleo - e que Teerão fechou, causando o aumento do preço dos combustíveis a nível mundial. “Não precisamos da ajuda de ninguém”, escreveu também na Truth Social, depois de na véspera ter pedido essa ajuda. E depois de Larijani?O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, anunciou esta terça-feira (17 de março) a morte de Ali Larijani, num bombardeamento em Teerão. “Esta manhã eliminámos Ali Larijani, o chefe da Guarda Revolucionária, que é o gangue de mafiosos que realmente controla o Irão”, disse o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, já depois de as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) o apelidarem de “líder de facto” do Irão. O líder do Conselho de Segurança Nacional era um dos membros de destaque do regime, sendo visto como capaz de equilibrar a lealdade ideológica com o pragmatismo político. .De negociador nuclear a chefe da segurança iraniana. Quem é Ali Larijani, que Israel diz ter eliminado.Além disso, após vários anos como o principal negociador iraniano para o nuclear, tinha muitos contactos no Ocidente, sendo visto por alguns como possível interlocutor num eventual diálogo para pôr fim à guerra. Isto sem esquecer o papel que teve na repressão dos protestos no início do ano no Irão, que segundo algumas fontes podem ter causado mais de 30 mil mortos. Teerão confirmou ainda a morte do líder da força paramilitar Basij, Gholamreza Soleimani, noutro ataque israelita durante a noite. Com estes elementos eliminados, há agora o receio de que sejam substituídos por alguém da linha dura do regime, tornando a possibilidade de diálogo ainda mais remota. “Larijani pertencia a um grupo muito pequeno de pessoas influentes que sabiam como gerir tanto a guerra como a política em torno dela. Perder pessoas desta forma torna o sistema mais rígido, mais focado na segurança e, em última análise, menos flexível na forma como trava - ou como acaba por terminar - a guerra”, escreveu no X o investigador do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança e especialista em Irão e Médio Oriente, Hamidreza Azizi. Numa entrevista à CNN, disse que acabar com um possível interlocutor pode ter sido precisamente o objetivo de Israel. O novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, continua sem aparecer em público no meio de indicações de que também terá sido ferido no ataque que matou o pai - o Irão admite que foi ferido ligeiramente, mas os EUA sugerem que pode estar em estado grave. Segundo a Reuters, terá participado na primeira reunião de política externa (não é claro se presencialmente ou à distância), tendo rejeitado propostas de desescalada do conflito. De acordo com a agência de notícias, que cita um oficial iraniano que pediu anonimato, a proposta de “reduzir tensões ou de um cessar-fogo” terá sido passada a Teerão por dois países intermediários. O líder supremo rejeitou a proposta, tendo respondido que não era “o momento certo para a paz até que os EUA e Israel se ajoelhem, aceitem a derrota e paguem indemnizações”.O porta-voz das IDF, brigadeiro-general Effie Defrin, prometeu entretanto que Israel vai “caçar” Khamenei. “Não sabemos qual é o seu destino. Não o ouvimos, não o vemos, mas posso afirmar uma coisa: continuaremos, como já demonstrámos, a perseguir qualquer pessoa que represente uma ameaça para o Estado de Israel ou que levante a mão contra ele”, afirmou..Próximo líder do Irão “não vai durar muito tempo” sem a aprovação dos EUA