Prigozhin declara guerra ao comando militar russo

Chefe dos mercenários Wagner acusou a elite militar de enganar Putin e a sociedade russa sobre a Ucrânia. Mais tarde disse que os seus homens foram alvo de um míssil russo e prometeu agir.
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Não é de agora a animosidade entre o dono da empresa de mercenários Wagner e as chefias militares russas, mas o choque frontal acabou por dar-se nas últimas horas. Depois de no final de maio ter saído de Bakhmut com as suas milícias, num braço-de-ferro de meses com o ministro da Defesa e o chefe do Estado-Maior, Yevgeny Prigozhin recusou a nova ordem de que os "destacamentos voluntários" são obrigados a assinar contrato com o Ministério da Defesa.

Agora, num vídeo, acusou o ministro Sergei Shoigu de enganar Vladimir Putin e a sociedade russa. Ato contínuo, pediu às autoridades judiciais para instaurarem um processo penal contra Shoigu, e Valery Gerasimov, o chefe do Estado-Maior pelos crimes de "genocídio do povo russo" e de "traição". Horas depois, acusou Shoigu de ter ordenado uma operação contra os seus homens num campo na retaguarda e prometeu realizar uma "marcha pela justiça" para "travar o mal trazido pela liderança militar do país".

Recentemente, nas regiões fronteiriças de Bryansk e Belgorod milícias russas que têm combatido ao lado dos ucranianos fizeram incursões e lutaram contra tropas russas. Agora é senhor da guerra Prigozhin, aliado de Vladimir Putin, quem ameaça com uma revolta contra os seus inimigos declarados Shoigu e Gerasimov.

"O mal trazido pela liderança militar do país deve ser travado. Eles negligenciam a vida dos soldados. Esqueceram a palavra "justiça", e nós vamos trazê-la de volta. Aqueles que hoje destruíram os nossos homens, que destruíram dezenas, dezenas de milhares de vidas de soldados russos serão punidos. Estou a pedir: que ninguém resista. Todos os que tentarem resistir, considerá-los-emos um perigo e destruí-los-emos imediatamente, incluindo quaisquer postos de controlo no nosso caminho", anunciou Prigozhin numa mensagem de áudio no canal de Telegram do seu grupo de empresas Concord.

No entanto, mais tarde clarificou (ou não): "Isto não é um golpe militar. Trata-se de uma marcha pela justiça. As nossas ações não interferem de forma alguma com o exército."

O Ministério da Defesa russo desmentiu a alegação de que o exército russo teria atacado um campo Wagner, tendo classificado os relatos de "propaganda".

Já o Kremlin reagiu de outra forma, mais ambígua. O porta-voz Dmitri Peskov disse que o presidente está a par das alegações do grupo mercenário Wagner. "O presidente Putin foi informado de todos os acontecimentos em torno de Prigozhin. Estão a ser tomadas as medidas necessárias", declarou Peskov.

No vídeo de uma hora que terá provocado esta espiral de acontecimentos, Prigozhin disse o que russo algum pode afirmar sem sofrer consequências legais. Primeiro, que o Donbass tem sido saqueado desde 2014 pelos russos, desde a administração presidencial ao FSB e a oligarcas como o ucraniano Serhiy Kurchenko.

Depois, acusou as chefias militares de cozinharem uma guerra sob falsos pretextos. "O Ministério da Defesa tentou enganar o presidente e a sociedade ao dizer que a Ucrânia estava a enlouquecer de agressividade e que planeava atacar-nos juntamente com todo o bloco da NATO", disse, isentando Putin. Afirmou também que o "clã oligarca" fez pressão para que a invasão acontecesse.

Segundo o homem que ficou conhecido como o chef de Putin, Shoigu convenceu o líder de que a guerra era necessária para que "um bando de bastardos pudesse assumir o poder e exibir o exército forte que têm". Mas a invasão foi um falhanço devido a um "planeamento incompetente".

"Por alguma razão, este bando de idiotas pensou que era tão esperto que ninguém perceberia o que estava a fazer ou os impediria de chegar a Kiev", pelo que quando os seus homens entraram na Ucrânia, em março de 2022, ou seja, dias depois do início da invasão, "já era impossível falar de uma vitória, uma vez que as forças não eram suficientes".

No mesmo dia, o presidente francês referiu-se, ainda que indiretamente, a Prigozhin, ao acusar a Rússia de ser "uma força desestabilizadora em África através de milícias privadas que se aproveitam e cometem abusos contra as populações civis", disse em entrevista à RFI, franceinfo e France 24.

Os mercenários de Prigozhin estão em ação na Líbia, República Centro-Africana, Mali e Sudão, segundo o Departamento de Estado dos EUA. Além disso, já operaram em Moçambique e poderão estar no Burquina Faso.

Anfitrião de uma cimeira para um novo pacto financeiro mundial sobre o clima, Emmanuel Macron recebeu chefes de Estado e de governo e outros altos dirigentes no Eliseu, na quinta-feira para um jantar de trabalho, depois para encontros bilaterais, como o havido com o presidente brasileiro, que não se pronunciou sobre a guerra na Ucrânia.

Antes, ambos participaram numa mesa-redonda. Nela, Lula da Silva foi porta-voz do setor agropecuário brasileiro ao mostrar-se contra as exigências ambientais da UE para o acordo de livre comércio avançar entre Bruxelas e os países do Mercosul. Uma tomada de posição em linha com o que o jornal de esquerda Liberátion havia titulado em manchete, "Lula la decepção".

cesar.avo@dn.pt

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