Um milhão de eleitores de Aragão vão no domingo (8 de fevereiro) às urnas para eleger um novo governo autonómico, com as sondagens a apontarem para um resultado semelhante ao ocorrido nas eleições de dezembro na Extremadura (onde ainda não há governo devido aos desentendimentos). O Partido Popular (PP) deverá repetir a vitória de 2023, mas sem maioria absoluta para governar sozinho, voltando a ficar dependente do Vox (que sairá reforçado em votos e deputados regionais). À esquerda, os socialistas vão manter o segundo lugar, mas arriscam ter o pior resultado de sempre nesta região. O presidente do governo de Aragão, Jorge Azcón, resolveu antecipar as eleições (tal como tinha acontecido com María Guardiola na Extremadura) depois de não conseguir apoios suficientes para aprovar o Orçamento para 2026. Eleito com os votos do Vox após as eleições de 2023, viu o partido de extrema-direita abandonar o acordo de governação em julho de 2024, em desacordo com a decisão do PP de aceitar a redistribuição de menores migrantes por toda a Espanha. Mas se Guardiola pedia uma maioria absoluta para se livrar do Vox (não conseguiu), Azcón sabe que nunca houve uma maioria assim em Aragão e não fecha a porta a um novo acordo com o Vox, apesar dos desafios. “O governo tem que ter estabilidade e o Vox não vai ser um elemento de estabilidade”, disse numa entrevista ao El País, lembrando que o partido de extrema-direita não tem interesse em estar no executivo. “Porque uma coisa é pregar e outra é praticar o que se prega.”Questionado então porque é que antecipou as eleições, Azcón explicou que o fez por coerência. “Não podes dizer que [Pedro] Sánchez precisa de convocar eleições porque não tem orçamento e depois fazer exactamente a mesma coisa”, indicou, referindo-se ao facto de o governo espanhol estar ainda a funcionar com o orçamento de 2023 (prorrogado já em três ocasiões). Segundo a média de sondagens da RTVE, o PP de Azcón vai eleger 29 dos 67 deputados ao Parlamento de Aragão (mais um do que tem agora). Fica a cinco da maioria absoluta de 34. O PSOE, que apostou na candidatura da ex-ministra e porta-voz do governo de Sánchez, Pilar Alegría, pode não ir além dos 18 deputados, perdendo cinco. Alegría ganhou a Azcón nas eleições para a câmara de Saragoça, em 2019, mas ele acabou por se tornar no autarca graças ao apoio do Ciudadanos e do Vox. A candidata socialista acusa o adversário de adiantar as eleições por “capricho pessoal”, acreditando que a única sondagem é a das urnas. Mas o cenário para o PSOE não é positivo, prejudicado também por oito anos de governo de Sánchez - a maioria das sondagens a nível nacional diz que, se as eleições fossem hoje (estão previstas para 2027) o PP ganharia ao PSOE. Em Aragão (tal como aconteceu na Extremadura), o grande vencedor arrisca ser o Vox. Segundo as sondagens, o partido liderado a nível regional por Alejandro Nolasco deverá ganhar cinco deputados, subindo de sete para 12 representantes. “Se nos pusemos de acordo uma vez, porque não nos podemos pôr outra vez”, disse numa entrevista à agência EFE. O combate à imigração ilegal, uma redução “radical” de impostos e a melhoria dos serviços públicos são “inegociáveis” num possível acordo - que nunca será à esquerda.Tal como aconteceu nas eleições na Extremadura, o líder nacional do Vox, Santiago Abascal, envolveu-se pessoalmente na campanha. “Sente-se o cheiro a mudança radical, sente-se o triunfo iminente do senso comum”, escreveu no X, vaticinando que o domingo será “histórico”. Não foi o único líder partidário a passar pela região. .“Votar no PP significa meter o Vox dentro do governo de Aragão”, avisou Sánchez, que quer atrair os eleitores indecisos (cerca de 35 mil). “Peço que ninguém fique em casa e que não se deixem enganar. Quem pensa que votar em Azcón é a melhor forma de impedir um governo de extrema-direita está enganado. Porque o PP não é um baluarte contra eles; está a abrir-lhes as portas de par em par. O único voto que pode impedir um governo de direita e de extrema-direita é o voto no PSOE”, indicou Alegría. Por seu lado, o líder do PP quer evitar “uma guerra de partidos”, como a que está a assistir na Extremadura (onde ainda não há governo, fruto do desacordo entre PP e Vox). Alberto Núñez Feijóo pediu aos eleitores de direita que “não dividam as suas forças” para evitar uma “guerra” entre os dois partidos. “Não basta ganhar, temos que nos manter unidos, queremos um governo sólido, não uma guerra de partidos”, avisou num dos comícios da campanha, alegando que o PSOE, sabendo que vai perder, está a tentar tornar o Vox forte para enfraquecer Azcón enquanto presidente de Aragão. .Segundo as sondagens, outros três partidos vão conseguir assento parlamentar (atualmente há mais cinco). A Chunta Aragonesista (esquerda) ganhará um lugar, elegendo quatro deputados regionais. A aliança Esquerda Unida-Sumar deverá subir também um lugar, chegando aos dois, enquanto o Aragão Existe (que nasceu do mais restrito Teruel Existe, que ganhou destaque com o foco na ideia do despovoamento e da “Espanha vazia”) passaria de três a dois deputados.Aragão tem quase 48 mil metros quadrados (cerca de metade da área de Portugal) e menos de 1,4 milhões de habitantes - metade deles em Saragoça. Mas tem vindo a ganhar população, ao contrário de outras comunidades (quase 200 mil nas últimas três décadas, segundo a RTVE, com 14,2% de população estrangeira). Aragão cresceu 3,1% em 2024, abaixo da média espanhola, mas o desemprego é inferior ao de Espanha (8,5% contra 10,5%) e o rendimento é um dos mais elevados do país (apenas atrás de Madrid, País Basco, Navarra e Catalunha).Principais candidatos .Jorge Azcón (Partido Popular): Presidente de Aragão desde 2023 (inicialmente com o apoio do Vox), após uma carreira política autárquica que o levou em 2019 à presidência da câmara de Saragoça - a cidade onde nasceu em 1973. Está à frente do PP de Aragão desde 2021..Pilar Alegría (PSOE): A ex-ministra da Educação e Desporto, além de porta-voz do governo de Pedro Sánchez, nasceu em 1977, em La Zaida. Em 2019, foi a mais votada na corrida à câmara de Saragoça, mas Azcón foi eleito com o apoio do Ciudadanos e do Vox..Alejandro Nolasco (Vox): Nasceu em Pamplona em 1991, estudou Direito, Filosofia e História (é autor de sete livros) e foi advogado em Teruel antes de entrar na política. Entre 2023 e 2024 foi vice-presidente de Aragão, ao abrigo do acordo de governo com Azcón.