"Portugal deve insistir, junto dos europeus, na assinatura do Acordo UE-Mercosul"

O recém-reeleito presidente do IPDAL - Instituto para a Promoção da América Latina e das Caraíbas fala da parceria com Brasil, do investimento na Colômbia e dos portugueses na Venezuela.

Foi agora reeleito presidente do IPDAL, o Instituto para a Promoção da América Latina e das Caraíbas. Para a diplomacia portuguesa, quão importante é essa parte do mundo?
A América Latina tem uma natural importância para a diplomacia portuguesa. Desde logo o Brasil. Seja pela grande e longa relação histórica, pela língua comum, pelo património, pela vasta comunidade portuguesa no Brasil - e o contrário - como também pelas relações comerciais entre os nossos dois países (metade do comércio com a América Latina é com o Brasil). Também Portugal e o Brasil estão juntos em organizações muito importantes como é o caso da CPLP e da Comunidade Iberoamericana (SEGIB). Além, obviamente, das Nações Unidas. Outro país da América Latina sempre presente é a Venezuela. Temos uma enorme comunidade portuguesa e luso-descendente na Venezuela (mais de meio milhão de pessoas). Também o Uruguai tem um lugar especial na nossa História. O seu território fez parte de Portugal. Neste momento Portugal tem 10 embaixadas na América Latina e temos em Lisboa 12 embaixadas de países latino-americanos. Deveríamos, por isso, reforçar a nossa presença diplomática abrindo novas embaixadas. É que os países da América Latina têm, pelas suas dimensões e necessidades económicas, boas oportunidades para as empresas portuguesas. Seja em matéria de exportações, de importações, como de investimento. É uma região de oportunidades para Portugal. Todos os anos o IPDAL organiza o "Fórum Empresarial Ibero-americano de Cascais" onde juntamos empresas e instituições de ambos os lados com o claro objetivo de incrementar as relações económicas. Portugal também tem de saber aproveitar melhor o seu "bom nome" na região através da nossa diplomacia. Uma diplomacia séria, profissional, solidária, previsível e de paz. O nosso país pode não decidir os grandes dossiers mundiais. Mas não tenhamos dúvidas que pode influenciar. E influencia. Esse poder é dado, pelo nosso prestígio na comunidade internacional. Mas claro, para termos uma bem sucedida estratégia de política externa precisamos de ter, em primeiro lugar, uma clara estratégia de política interna. Ajuda muito.

Tem havido consciência nos governos portugueses, sejam liderados pelo PS sejam liderados pelo PSD, da importância de olhar para a América Latina de forma mais abrangente do que somente o Brasil?
Tem. Naturalmente que o Brasil tem uma dimensão e uma importância que quase abafa os outros 19 países latinos do continente americano. Mas Portugal já descobriu outros países da América Latina onde, aliás, temos tido sucessos. A Colômbia é um exemplo flagrante onde temos grandes investimentos. Mas também o Chile, o Peru, o México. Curiosamente existem outros países onde empresas portuguesas têm encontrado nichos de mercado. Costumamos dizer no IPDAL que "existem boas oportunidades em todos os 20 países da América Latina incluindo o Haiti. É preciso é conhecer". E é exatamente o principal trabalho do IPDAL. Dar a conhecer, em Portugal, a realidade e as oportunidades dos países latino-americanos. De todos. Temos tido sucesso. Mas ainda há muito para fazer... Outro aspeto onde Portugal tem um papel decisivo é na relação da América Latina com África. Essa relação pode e deve ser triangular com a Europa. E Portugal, como país euro-atlântico, deve ser o hub de excelência nesta triangulação. O IPDAL trabalha muito nisso. Temos feito, nos últimos 12 anos, uma conferência anual que se chama o "Encontro do Triângulo Estratégico América Latina-Europa-África" que reúne países, instituições e especialistas dos três continentes. Identificamos e discutimos sempre uma agenda de interesses comuns e colocamos sempre Portugal como pivô dessa triangulação. Também organizamos todos os anos com a CPLP o "Fórum América Latina- CPLP" que reúne os países membros da CPLP com os da América Latina e das Caraíbas. Tem sido um sucesso. São cada vez mais os países da América Latina que se têm tornado observadores da CPLP.

Quando olha para a região hoje é otimista? A democracia e o desenvolvimento económico são a regra?
A América Latina, como o resto do mundo, atravessa uma crise económica e social devido ao impacto da pandemia do covid e, agravada agora, com as consequências da guerra na Ucrânia. Seja como for, a crise não é igual em todos os países. Curiosamente em crises do passado a maior parte dos países da América Latina tiveram uma resiliência invejável. Desta vez à crise económica junta-se, naturalmente, uma crise social e em alguns casos crises políticas. Mas as oportunidades de negócio continuam lá. O mercado é imenso e com necessidades em áreas em que Portugal é muito bom. Sejam oportunidades para as grandes empresas - que podem ser apoiadas pela banca multilateral regional da qual Portugal faz parte (CAF, BID, por exemplo) - sejam oportunidades para as nossas PMEs. Aliás, os países da América Latina podem também ser alternativas ou complementos em áreas de necessidade para a Europa. Por exemplo, energia e agroindústria.

Foi até bem recentemente deputado eleito pela Madeira. Ora, é na ilha que têm origem muitos dos luso-venezuelanos, habitantes de um país que tem estado em crise profunda, destoando do resto da região. Como vê o futuro da Venezuela?
A Venezuela é um dos países mais ricos do continente americano. Tenha condições para aproveitar e distribuir essa riqueza continuará a ser um país com imensas oportunidades. Infelizmente nos últimos anos, devido a vários fatores, passou por uma crise terrível. Milhares de portugueses têm sido vítimas disso. Mesmo assim grande parte da nossa comunidade insiste em continuar num país que ajudaram a construir. Penso que já estamos, apesar de tudo, num período de recuperação.

O Brasil tem este ano presidenciais e celebra 200 anos de independência. As relações bilaterais têm margem para se reforçar, seja quem for o próximo presidente brasileiro?
Claro que têm. O Brasil é uma oportunidade para Portugal. Como o contrário é verdade. Estamos a falar numa das maiores economias do mundo. Portugal deve reforçar a parceria com o Brasil. Não só no campo económico e cultural. Mas reforçar o político. Identificar claramente uma agenda de interesses comuns no mundo. Com destaque naturalmente para o lusófono mas não só. Outro exemplo: Portugal deve insistir junto dos parceiros comunitários na assinatura do Acordo UE-Mercosul. É essencial para ambos os blocos e positivo para Portugal e Brasil.

O filme Encanto da Disney tem sido um sucesso global. Mesmo centrado na Colômbia, os valores que transmite, de mistura racial, de entreajuda, de otimismo perante a vida, de convivência sã entre humanos e natureza, ilustram um pouco a alma do que conhece da América Latina e Caraíbas?
A diversidade cultural na maior parte dos países da América Latina e das Caraíbas é uma mais valia. Na cultura, na música, na gastronomia. Uma mistura local pré-colombiana, com tradições africanas, europeias, do médio oriente e asiáticas. O resultado é uma riqueza impressionante que importa destacar, conhecer e preservar.

leonidio.ferreira@dn.pt

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