Porque é que o celeiro da América do Sul não é a resposta para a crise global do trigo?

A ofensiva militar de Moscovo na Ucrânia e as subsequentes sanções à Rússia interromperam o fornecimento de cereais de ambos os países, responsáveis por 30% da produção mundial de trigo

Enquanto o mundo enfrenta uma crescente crise alimentar provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, muitos olham para o "celeiro" da América do Sul - os grandes produtores de trigo Brasil e Argentina, juntamente com Uruguai e Paraguai - como uma possível solução.

Mas especialistas e analistas dizem que uma variedade de fatores - clima, custo, necessidades domésticas - tornam essa solução altamente improvável.

A Rússia e a Ucrânia sozinhas produzem 30% da oferta mundial de trigo. A ofensiva militar de Moscovo na Ucrânia e as subsequentes sanções à Rússia interromperam o fornecimento de fertilizantes, trigo e outras matérias-primas de ambos os países, elevando os preços de alimentos e combustíveis, especialmente nos países em desenvolvimento.

A suspensão das exportações da Índia exacerbou ainda mais o problema.

Mas, e os principais países produtores de trigo da América do Sul? Podem ou não ser capazes de ajudar a aliviar a crise?

Brasil: maior produção, mas grandes necessidades em casa

O gigante agrícola Brasil deve aumentar a sua produção de trigo entre três e 11 por cento este ano, de acordo com a Embrapa Trigo, uma unidade de pesquisa estatal afiliada ao Ministério da Agricultura brasileiro. Preços recordes, procura crescente e a "expectativa de clima favorável, reforçam a projeção de aumento da área plantada" de 2,7 milhões de hectares em 2021 para pouco mais de três milhões em 2022, disse a Embrapa Trigo.

Mas o país de 213 milhões de habitantes já não consegue atender à procura interna - estimada em 12,7 milhões de toneladas por ano, e em ascensão. Os custos internos de logística e transporte levaram muitos agricultores, principalmente no sul, a favorecer a exportação, aumentando assim a necessidade de importar. O Brasil é, na verdade, o oitavo maior importador de trigo do mundo, e a maioria (87%) vem da Argentina.

Argentina: falta de reservas de água

A Argentina, onde residem 45 milhões de pessoas, também é tradicionalmente um grande produtor de trigo - mas as condições climáticas atuais são desfavoráveis, o que significa que é improvável que ajude a preencher o vazio global.

"Esperamos uma queda de cerca de 8% na área plantada com trigo", disse à AFP Tomas Rodriguez Zurro, analista argentino. Isso equivale a uma queda de 6,8 milhões para 6,3 milhões de hectares, devido principalmente a uma seca que afeta o país, explicou Rodriguez Zurro.

"Em geral, plantamos trigo para depois plantar soja, mas as reservas hídricas são muito baixas, então os produtores não querem arriscar plantar trigo caso reduza ainda mais as reservas de humidade" para as plantações posteriores, disse Rodriguez Zurro.

Além disso, os agricultores dizem que usarão menos fertilizantes devido ao aumento dos preços - outro fator que limita a produção, disse o analista.

A Rússia é o maior exportador mundial de fertilizantes, com mais de 12% do mercado global, mas as suas vendas foram praticamente paralisadas por sanções.

Paraguai e Uruguai: pequeno impacto global

Tanto o Paraguai, um país de 7,5 milhões, quanto o Uruguai (3,5 milhões) desfrutam de bons rendimentos de trigo - mas têm um impacto global muito menor e nenhum deles espera aumentar a produção.

"A produção de trigo é cara, muito cara", disse uma fonte do Ministério da Agricultura do Uruguai.
Os agricultores esperam um rendimento "semelhante ao do ano passado, ou um pouco maior", disse a fonte - um total que deve satisfazer a procura doméstica e permitir que as exportações permaneçam em cerca de um milhão de toneladas por ano.

No Paraguai, a produção também deve permanecer estável, segundo Hector Cristaldo, presidente do sindicato dos agricultores do Paraguai, mas acrescentou: "Os nossos volumes não são significativos no cenário mundial".

O Paraguai consome 700.000 toneladas e exporta o mesmo, quase exclusivamente para o Brasil.
Em meados de maio, quando a Índia proibiu as exportações, o trigo atingiu um preço recorde de 438,25 euros por tonelada no mercado europeu.

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