Perda de peso de Kim Jong-un gera especulações sobre a sua saúde

O interesse não é mera coscuvilhice, já que o líder norte-coreano ainda não designou publicamente um sucessor que ficará responsável pelo programa nuclear.

As especulações sobre o estado de saúde do líder norte-coreano não são novas - no ano passado falou-se até da sua morte iminente -, mas quando as fotos mais recentes de Kim Jong-un mostram que parece ter perdido vários quilos, os rumores voltam a fazer-se ouvir. O interesse não é mera coscuvilhice: "A saúde de Kim importa a Seul, Washington, Tóquio e outras capitais mundiais, porque ele ainda não consagrou publicamente um sucessor que poderia controlar um avançado programa nuclear que tem como alvo os EUA e os seus aliados - se ficar incapacitado", escreveu a agência de notícias Associated Press.

No ano passado, os serviços de informação sul-coreanos (que seguem de perto tudo o que se passa no Norte) disseram aos deputados acreditar que Kim pesava 140 kg - mede cerca de 1,70 m. Desde que chegou ao poder, em finais de 2011, teria engordado entre seis e sete quilos por ano. A atual perda de peso - de pelo menos 10 ou 20 kg - é visível nas fotos mais recentes divulgadas pelas agências estatais da Coreia do Norte, quando comparadas com outras fotos oficiais de há quatro meses. Na Coreia do Sul fala-se até que Kim, de 37 anos, já conseguiu apertar mais um furo na bracelete do seu relógio, avaliado em 12 mil dólares.

O líder norte-coreano é fumador, e tanto o pai, Kim Jong-il, como o avô, Kim Il-sung, que governaram a Coreia do Norte antes dele, morreram de problemas cardíacos. E não é claro se a perda de peso é resultado de algum problema de saúde ou de uma decisão consciente do próprio líder para tentar evitar o destino do pai e do avô. O excesso de peso aumenta o risco de problemas cardiovasculares.

Esta não é a primeira vez que a sua saúde é seguida de perto: em 2014 apareceu, depois de seis semanas de ausência, com uma bengala, com os sul-coreanos a alegar que terá sido operado para retirar um quisto do tornozelo. No ano passado esteve ausente por três semanas - falhando até a celebração do aniversário do falecido avô, um importante evento do calendário político. Na altura falou-se que teria sido submetido a uma operação ao coração, havendo quem tenha chegado a dizer que estava morto, mas acredita-se que estaria apenas a resguardar-se com a família por causa da pandemia de covid - apesar de Pyongyang continuar a alegar que não teve casos.

A questão do seu estado de saúde prende-se com o eventual vazio de poder que possa existir na Coreia do Norte caso morra ou fique incapacitado, sendo que no ano passado se falou na hipótese de a sua irmã, Kim Yo Jong, lhe poder suceder. Outra hipótese era haver uma liderança coletiva. Kim Yo Jong, de 33 anos, já não faz, contudo, parte do Politburo do Partido dos Trabalhadores da Coreia (voltou a ser despromovida no congresso do início deste ano). Recentemente foi, contudo, criado o cargo de primeiro-secretário do partido, o que seria, na prática, o número dois do país, uma espécie de vice-presidente. Mas o cargo ainda não foi ocupado, com Kim a temer perder o controlo sobre o poder.

Da tensão alimentar aos EUA

Os rumores sobre a saúde de Kim voltam a surgir na semana em que houve uma sessão plenária do Comité Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia, que durou vários dias. No primeiro dia, o líder norte-coreano admitiu que o país está a enfrentar uma "situação de tensão alimentar", visto a sua economia ser alvo de múltiplas sanções internacionais, impostas em resposta aos programas nucleares, à qual se juntaram, no ano passado, desastres naturais. "A situação alimentar está agora tensa, uma vez que o setor agrícola não conseguiu cumprir o objetivo de produção de cereais devido aos danos causados pelos tufões no ano passado", disse Kim. E pediu medidas para minimizar o impacto destas catástrofes, dizendo que assegurar "boas colheitas" era uma "prioridade máxima".

Já no terceiro dia do encontro, Kim avisou que a Coreia do Norte deve preparar-se "tanto para o diálogo como para o confronto" com os EUA. O líder norte-coreano pediu "pleno empenhamento" para a segunda opção, com vista "à proteção da dignidade e interesses" do país e para que seja "garantido um ambiente pacífico e seguro" para o Estado. Foi a primeira reação de Kim à indicação da nova Administração norte-americana de Joe Biden de rever a sua estratégia para com Pyongyang, prometendo uma "aproximação prática e calibrada", incluindo através de esforços diplomáticos para persuadir o regime a abdicar do seu programa nuclear e de mísseis.

susana.f.salvador@dn.pt

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