Paulo Veiga quer liderar o Movimento para a Democracia (MpD) em Cabo Verde para devolver o partido às vitórias eleitorais, aproximá-lo dos militantes e preparar uma nova estratégia para o país. O candidato às eleições internas marcadas para setembro assume que a sua candidatura "vai até ao fim", promete abrir o partido à participação das bases e defende uma política assente na verdade, na transparência e numa visão de longo prazo. Ao mesmo tempo, acredita que o MpD reúne condições para voltar ao Governo depois da derrota nas legislativas de maio."Estou a candidatar-me ao MpD porque acredito que posso unir o partido e devolvê-lo às vitórias", afirma ao DN Paulo Veiga, recordando que o partido foi, durante anos, a principal força autárquica do país e governou Cabo Verde durante duas décadas. "É necessário dar um salto na modernização do partido para corresponder ao presente e ao futuro. Se queremos voltar a ser inteiros, temos de mudar."O candidato considera que a principal fragilidade do MpD não está na perda de apoio para outros partidos, mas no afastamento entre a direção e os seus militantes. "Aquilo de que os militantes e simpatizantes mais se queixam é da distância entre quem dirige o partido e as bases", afirma. "Os resultados eleitorais mostram isso. Em 2016 tivemos cerca de 122 mil votos e, em 2026, cerca de 84 mil. O partido vencedor praticamente não aumentou a votação. O que cresceu foi a abstenção."Na leitura de Paulo Veiga, isso significa que o partido continua a ter uma base eleitoral sólida. "Não perdemos os nossos simpatizantes. Eles sentiram que deixaram de ser ouvidos e optaram pela abstenção, não por votar noutro partido." Questionado sobre a possibilidade de o PAICV consolidar o poder durante vários anos, Paulo Veiga mostra-se pouco convencido. "Não acredito que seja esse o cenário", responde. "Foram prometidas muitas medidas gratuitas, mas esqueceram-se de explicar à população que, para dar, é preciso ir buscar recursos a algum lado."Na sua opinião, isso acabará por ter consequências. "Acredito que o Governo acabará por aumentar a carga fiscal e o custo de vida para financiar essas medidas. Isso criará uma oportunidade para o MpD voltar a conquistar a confiança dos cabo-verdianos."Mais do que discutir apenas o partido, Paulo Veiga quer alterar a forma como Cabo Verde olha para si próprio. "Defendo há muito tempo que Cabo Verde deixe de ser visto como um pequeno Estado e passe a assumir-se como uma grande nação oceânica", afirma.Para sustentar essa ideia, recorre ao desempenho da seleção cabo-verdiana no Campeonato do Mundo. "Os Tubarões Azuis mostraram que conseguem competir de igual para igual com qualquer seleção, incluindo campeões do mundo. .Paulo Veiga faz questão de reconhecer o percurso do país desde a independência. "Houve uma visão em cada etapa da nossa história. Primeiro, demonstrar que Cabo Verde era um país viável. Depois consolidar a democracia, o Estado de direito, a estabilidade monetária e apostar na educação." Mas entende que chegou o momento de dar um novo salto. "Agora é preciso complementar esse percurso com uma ambição ainda maior e pensar qual é o papel de Cabo Verde no mundo."Essa visão passa sobretudo pela economia. "Temos atualmente cerca de 1,3 milhões de turistas. Agora o desafio já não é crescer em quantidade, mas qualificar o turismo."Para o candidato, o país deve apostar também mais na cultura. "Uma das maiores razões que leva as pessoas a viajar é conhecer a cultura de outros povos. Cabo Verde tem uma riqueza cultural extraordinária." Na sua perspetiva, Cabo Verde deve igualmente aproveitar a sua posição estratégica no Atlântico. "Hoje ligamos quatro continentes através de três cabos submarinos de fibra ótica. Podemos tornar-nos um hub tecnológico e logístico de referência."Sobre as críticas ao sistema de saúde em Cabo Verde, Paulo Veiga começa por elogiar os profissionais do setor. "Cabo Verde respondeu muito bem durante a pandemia da covid-19. Isso mostra que temos um sistema de saúde sólido e recursos humanos de qualidade." Ainda assim, considera necessário investir mais. "Precisamos de crescer economicamente para melhorar infraestruturas, aumentar a oferta de especialidades e criar condições para que mais profissionais de excelência possam trabalhar no país."O mesmo raciocínio aplica-se ao combate à pobreza. "Temos de reduzir significativamente a pobreza extrema." Mas recusa soluções imediatas. "Isso faz-se qualificando o turismo, criando emprego, atraindo novas indústrias e produzindo mais em Cabo Verde."Ao longo da entrevista, Paulo Veiga insiste numa ideia que considera essencial para recuperar a confiança dos cidadãos. "É preciso dizer a verdade às pessoas." Na sua opinião, a política habituou-se a vender promessas em vez de explicar a realidade. "As coisas não aparecem por magia. É preciso trabalhar, conhecer o caminho e ajustar esse caminho para alcançar os objetivos."Questionado sobre a confiança dos cabo-verdianos na política, responde sem hesitar. "Eu acho que os cabo-verdianos acreditam em Cabo Verde." E explica: "Quando é preciso unir o país, os cabo-verdianos unem-se. Vimo-lo durante situações difíceis e voltámos a vê-lo no Mundial. Há um enorme orgulho nacional." Na sua opinião, cabe agora aos políticos corresponderem a esse sentimento. "A política é uma atividade nobre, mas tem de voltar a merecer a confiança das pessoas."Para isso, promete alterar profundamente o funcionamento interno do MpD. "Defendo eleições primárias para escolher os candidatos às autarquias, à Assembleia Nacional e aos órgãos do partido." Quer ainda criar uma base de dados certificada de militantes e um modelo de organização mais aberto. "Se continuarmos a fazer tudo da mesma maneira, teremos sempre os mesmos resultados."Se vencer as eleições internas, Paulo Veiga diz já saber qual será o primeiro gesto. "Vou convidar os meus adversários para fazerem parte da equipa. Não tenho adversários dentro do MpD. São colegas que têm uma visão diferente da minha." Logo depois, garante que procurará unir o partido. "Vou reunir os militantes para agradecer a confiança e explicar as mudanças que pretendo implementar."E se não vencer? A resposta mantém o tom. "Continuarei a apoiar o MpD. Vou entregar ao vencedor todo o trabalho que desenvolvi e estarei disponível para colaborar da forma que entenderem." Porque, conclui, "o partido é como uma família"..A Figura do Dia. Cabo Verde é Portugal