A Hungria de Viktor Orbán estragou a viagem dos líderes da União Europeia a Kiev, ao juntar o veto ao 20.º pacote de sanções contra a Rússia, anunciado no domingo a uma mudança de planos sobre o acordo ao empréstimo de 90 mil milhões de euros decidido em dezembro.“Os ucranianos não terão acesso ao empréstimo de guerra, nem haverá um 20.º pacote de sanções enquanto continuarem a brincar com o nosso fornecimento energético”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Peter Szijjártó, em Bruxelas, onde se reuniu com os homólogos europeus.O ministro referia-se ao oleoduto de Druzhba, que até janeiro abastecia a Hungria e a Eslováquia com petróleo russo graças a um acordo que isenta estes dois países de cumprir o boicote à energia russa. Mas no mês passado um ataque de drones russo em território ucraniano interrompeu o fluxo de petróleo. Segundo Budapeste, não só não há qualquer impedimento para o oleoduto voltar à atividade, como Kiev é responsável por um “ato de hostilidade não-provocada”. Szijjaártó acusou Kiev de exercer “chantagem” para que Budapeste recue no seu veto à adesão da Ucrânia à UE. .O presidente do Conselho Europeu e o presidente francês afirmam que não se pode voltar atrás com a palavra..O governo eslovaco de outro pró-russo, Robert Fico, também sinalizou o seu veto ao pacote de sanções. Este ia apertar as malhas ao transporte marítimo de petróleo, cujas receitas caíram 24% em 2025 face ao ano anterior. Para complicar mais a questão, as forças ucranianas atingiram a estação de bombeamento de petróleo de Kaleiniko, a 1200 quilómetros da fronteira ucraniana, e ponto importante de abastecimento do oleoduto Druzhba.Ainda mais grave, tendo em conta o calendário (a Ucrânia necessita de financiamento a partir de abril), é o volte-face do primeiro-ministro húngaro no que respeita ao empréstimo a Kiev. Resultante de negociações que se seguiram ao fracasso das anteriores que haviam incidido sobre a utilização dos ativos russos congelados, tiveram a particularidade de deixar de fora a Hungria, a Eslováquia e a Chéquia (já sob o efeito do novo governo do populista Andrej Babis).O facto de Budapeste não ter de gastar um cêntimo funcionou até agora, quando Orbán se aproxima das eleições legislativas e volta a usar a guerra na Ucrânia como o papão aos eleitores. “Acontecimentos recentes forçaram-me a mudar de posição”, escreveu o húngaro numa carta enviada na terça-feira a António Costa, que, em conjunto com Ursula von der Leyen, se encontra nesta terça-feira com Volodymyr Zelensky na capital ucraniana para marcar os quatro anos da invasão russa. Porém, na volta do correio, o presidente do Conselho desvalorizou a iniciativa magiar. “Uma decisão tomada pelo Conselho Europeu deve ser respeitada. Quando os dirigentes chegam a um consenso, ficam vinculados a essa decisão. Qualquer violação desse compromisso constitui uma afronta ao princípio da cooperação leal”, afirmou Costa. Em Paris, o presidente Em- manuel Macron alinhou com Costa: “Os compromissos políticos e a palavra dada no último Conselho Europeu serão cumpridos. Não pode ser de outra forma.”Antes, a porta-voz da Comissão apontou para a falta de credibilidade que seria a concretização do bloqueio. “Se todos os líderes que se comprometeram com este empréstimo tiverem credibilidade, agora é o momento de o demonstrar. E esperamos que todos os líderes, incluindo o primeiro-ministro Orbán, cumpram o seu compromisso político”, disse Paula Pinho.