Oposição e família denunciam "confissão forçada" de jornalista bielorrusso

Roman Protasevich, preso após o avião em que seguia ser desviado para Minsk, elogiou o presidente Lukashenko e admitiu ter conspirado para o tirar no poder numa entrevista que acabou a chorar.

No final da entrevista que foi transmitida pela televisão estatal bielorrussa, o jornalista Roman Protasevich começa a chorar e cobre o rosto com as mãos, dizendo que nunca mais se quer envolver com política e que espera um dia poder casar-se e ter filhos. Nos seus pulsos são visíveis marcas, possivelmente de algemas. Durante hora e meia, o crítico do presidente Alexander Lukashenko tinha elogiado o chefe de Estado que está no poder há quase 27 anos, admitido as acusações de que o tentou derrubar e defendido o abandono dos protestos contra o regime. Alemanha e Reino Unido já criticaram o que a oposição bielorrussa e a família apelidaram de "confissão forçada".

"Conheço o meu filho muito bem e acredito que nunca diria aquelas coisas. Eles quebraram-no, forçaram-no a dizer o que era preciso", disse o pai, Dmitry Protasevich, à AFP. "Ninguém devia acreditar nestas palavras, porque foram arrancadas dele à força, através de abuso e tortura do meu filho", acrescentou. O mesmo defendeu a líder da oposição, Svetlana Tikhanovskaya. "Com a ajuda da violência, pode colocar-se uma pessoa a dizer o que se quiser", disse numa visita a Varsóvia, lembrando que todos os vídeos do género "são filmados sob coação" e que "a missão dos presos políticos é sobreviver".

O jornalista de 26 anos, antigo editor do canal da rede social Telegram Nexta (que teve um papel importante na contestação ao regime de Lukashenko), foi detido a 23 de maio, junto com a namorada russa, Sofia Sapega, depois de o avião da Ryanair em que seguiam ter sido desviado para Minsk. O aparelho fazia a ligação entre Atenas (Grécia) e Vilnius (Lituânia), onde Protasevich vivia exilado desde 2019, mas quando sobrevoava a Bielorrússia as autoridades deste país alegaram haver uma ameaça de bomba para o obrigar a aterrar na capital.

Sanções europeias

O gesto foi prontamente contestado pela União Europeia, que aprovou novas sanções contra o regime de Lukashenko - apelidado muitas vezes de "o último ditador da Europa". Entre as novas sanções encontra-se a decisão dos 27 de fechar o espaço aéreo europeu às companhias bielorrussas, que entra em vigor neste sábado. A próxima fase das sanções será alargar a lista de altos-responsáveis do país que veem os seus bens congelados e estão proibidos de viajar para a União Europeia. Da lista já constam 88 nomes, incluindo o do próprio Lukashenko, depois da repressão violenta aos protestos desde as presidenciais contestadas de agosto de 2020.

Reagindo à entrevista de Protasevich, a Alemanha considerou que a "entrevista-confissão" revelou "o total desprezo" do regime bielorrusso "pela democracia" e "pelos seres humanos". Segundo o porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, a entrevista é "uma vergonha para a estação que a difundiu", bem como "para os dirigentes bielorrussos".

O chefe da diplomacia britânica reagiu no Twitter, alegando que a "entrevista perturbadora" foi "claramente realizada sob coação". Dominic Raab disse ainda que "a perseguição dos que defendem os direitos humanos e a liberdade dos media na Bielorrússia tem de parar", acrescentando que todas "as pessoas envolvidas na filmagem, na coação e na realização da entrevista devem ser responsabilizadas".

susana.f.salvador@dn.pt

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