Enquanto a atenção global se satura com o ruído das frentes mais mediáticas, um vasto "ângulo morto" geopolítico consome milhões de vidas no Sudão, na República Democrática do Congo, no Iémen, no Sael e em Myanmar. Validado por especialistas e pelo Anuário Janus do Observare, este mapa de sangue prova que a letalidade de um conflito já não dita a sua presença nos telejornais: entre a pilhagem de recursos em África e o perigoso contrarrelógio estratégico na Ásia, o mundo arde numa sombra que a comunidade internacional, por fadiga ou conveniência, optou por deixar de ver. E, à la longue, o agudizar de conflitos entre nações com poder nuclear ameaça transformar este silêncio num rastilho capaz de alterar totalmente o xadrez do globo.A missão a que o Diário de Notícias se propôs foi clara: resgatar do silêncio editorial as frentes que, embora permanentes, se tornaram invisíveis. Para ponto de partida, fixámos o olhar em cinco palcos críticos, que só muito raramente merecem cobertura noticiosa: a guerra civil no Sudão, a violência no leste da República Democrática do Congo, o impasse no Iémen, a instabilidade no Sael e a insurgência em Cabo Delgado.Em busca de confirmação desta suspeita, o DN foi procurar confirmação, ou correção, de especialistas na matéria. Para tanto, entrou em contacto com o Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) e, coincidência das coincidências, descobriu que o seu Observatório de Relações Externas (Observare) escolheu para tema mais recente do seu Anuário Janus precisamente as guerras esquecidas — ou melhor, o contraste entre as guerras “mediáticas e esquecidas” —, cujo conteúdo com mais de 20 artigos de investigadores está disponível online.E foi logo na primeira conversa com o diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), Luís Tomé, que chegou a primeira correção. O professor da UAL, e também diretor do Observare, sublinhou que os cinco conflitos esquecidos a destacar dependem da região do globo para onde se olhar. Uma perspetiva geográfica: o conceito de "esquecimento" é mutável consoante a latitude.O Eixo Indo-Pacífico e o Risco de uma "Desordem sem Regras"Ao deslocar o foco para o Oriente, Luís Tomé alerta que "neste momento não se tem falado daquela que é a grande questão que pode levar à guerra próxima entre as duas maiores potências do mundo, as duas verdadeiras únicas superpotências que são os Estados Unidos e a China: a questão de Taiwan". Para o especialista, vivemos "num contrarrelógio, numa situação explosiva", alimentada pela diretiva de Pequim para que o seu Exército esteja pronto a concluir a unificação até 2027.Esta tensão não é isolada e projeta-se sobre o Japão e as Filipinas, onde a "crescente militarização" e as disputas territoriais em recifes como o atol de Scarborough Shoal, no Mar do Sul da China, criam incidentes quase diários que escapam aos radares mediáticos ocidentais. O professor catedrático é taxativo ao afirmar que "uma ação militar chinesa sobre Taiwan punha em causa e ameaçava a segurança do Japão", unindo os destinos destes dois mares num único foco de perigo..O cenário torna-se ainda mais sombrio quando se equaciona a "possibilidade de uma ação articulada da Rússia, para lá da Ucrânia, e da China". Este movimento de pinça, onde a Rússia avançaria no sentido europeu enquanto a China bloquearia as saídas para os mares, aproveitaria um "momento de muita vulnerabilidade" dos aliados ocidentais.Segundo o diretor do Observare, a Europa ainda não consegue ser verdadeiramente autónoma em termos militares e de defesa, enfrentando este perigo "sem defesa antimíssil ou satélites próprios", enquanto aguarda por capacidades que só terá daqui a uma década. No meio desta "desordem sem regras", o professor aponta ainda o dedo ao risco nuclear entre a Índia e o Paquistão, cujas tensões apenas suspensas podem, perante qualquer rastilho, "mudar o xadrez do globo".Esta fragilidade estende-se à Ásia Meridional, onde nota um preocupante "efeito de contágio" da instabilidade no Irão. Luís Tomé recorda que a Índia e o Paquistão "no ano passado estiveram à beira de uma grande guerra nuclear" e que o atual cenário de "desordem, sem regras, sem verdadeiro domínio e controlo das circunstâncias", convida certos atores a promoverem as suas agendas. A complexidade é agravada pelas alianças cruzadas: o Irão mantém uma "parceria estratégica com a Índia", o inimigo histórico do Paquistão, enquanto este último enfrenta o "acrescer" do conflito fronteiriço com os Talibãs, no Afeganistão. O especialista frisa que Islamabad tem mesmo acusado Deli de "estar a apoiar os Talibãs", criando um emaranhado de ramificações em que estes conflitos esquecidos podem, subitamente, desfragmentar a segurança regional e do globo.Do Mar Vermelho ao coração de África: a geopolítica da pilhagemAs cinco frentes inicialmente identificadas pelo DN encontram um eco profundo e detalhado na análise de Fernando Jorge Cardoso, subdiretor do Observare e especialista em Assuntos Africanos. Para o académico, "juntamente com a Ucrânia, o Sudão será o conflito mais mortífero" da atualidade. Trata-se de uma "tragédia humanitária" com incidência particular em Cartum e no Darfur, onde se processa uma "limpeza étnica", sublinha o professor catedrático. A importância estratégica é global, continua o especialista, uma vez que a posse de um porto de águas profundas no Mar Vermelho confere a esta guerra uma "potencial influência no trânsito marítimo entre o Índico e o Mediterrâneo".No Sael, a violência jihadista intensificou-se drasticamente, criando "terreno fértil para os negócios de mercenários assentes no uso de recursos minerais em troca de proteção". Esta extensa faixa semiárida, que atravessa África entre o Saara e as savanas do sul, estendendo‑se do Atlântico ao Mar Vermelho, é, toda ela, uma zona frágil onde a pressão de grupos armados, golpes militares e conflitos locais se cruza com pobreza extrema e ausência de Estado, afetando países como o Mali, o Níger, o Chade ou o Sudão. Fernando Jorge Cardoso descreve grupos armados que "vivem da pilhagem da guerra usando interpretações liberalistas do Islão para concitarem apoios".Esta dinâmica de exploração replica-se no leste da República Democrática do Congo, num conflito de "natureza geopolítica e económica" que é "financiado pela pilhagem de recursos - designadamente o Coltan e ouro", afirma o professor."São conflitos altamente destrutivos, que provocam deslocações e criam condições para golpes militares como os que aconteceram no Mali, Niger e Burkina-Faso", mas que, sublinha o especialista, "não têm conseguido parar a atuação dos grupos jihadistas". O subdiretor do Observare acrescenta ainda que "este conjunto de conflitos tem importância estratégica, na medida em que criou campo para uma penetração de interesses externos (Rússia, Grupo Wagner, por exemplo) e criou igualmente um terreno fértil para os negócios de mercenários assentes no uso de recursos minerais em troca de proteção.". O cenário de desestabilização de rotas vitais estende-se ao Iémen, onde os rebeldes Houthi se transformaram num "foco de desestabilização do corredor marítimo do Mar Vermelho". O país permanece num impasse de "combates localizados e uma crise humanitária massiva". Já sobre Cabo Delgado, o subdiretor do Observare oferece uma leitura cirúrgica sobre a retirada das grandes petrolíferas. Para o especialista, a decisão deveu-se menos aos ataques diretos e mais às "condições internacionais dos mercados do petróleo, que desfavoreciam a continuação das operações" naquele momento.Apesar disso, não deixa de estar mais perto de nós, portugueses, em termos linguísticos e afetivos, e já vão quase nove anos, desde 2017, que o norte de Moçambique enfrenta uma insurgência islâmica. E mesmo com a intervenção de forças regionais e do Ruanda, o conflito já causou milhares de mortes e quase um milhão de deslocados, afetando gravemente a exploração de gás natural na região.