O russo admirador de Magalhães que ao navegar à volta do mundo é também embaixador da Sibéria 

O viajante Evgueni Kovalevski e a geógrafa Julia Kaluzhnaya estão em Lisboa para apresentar a nova expedição em redor do mundo no trimarã insuflável Russian Ocean Way que celebra os 220 anos da primeira circumnavegação russa e os 200 anos da descoberta da Antártida.

"O lugar onde a pessoa vive nem sempre determina o que a pessoa faz. Eu nasci para ser viajante. Pode ser a pé, pode ser de barco. O que me interessa é viajar, porque para mim a viagem é um instrumento para conhecer melhor o mundo. Para mim, o mais importante é conhecer o mundo, a natureza global. Para nós humanos é primordial entendermos que somos parte da natureza", afirma Evgueni Kovalevski, russo de 64 anos que já fez a circumnavegação do planeta no trimarã insuflável Russian Ocean Way e agora repete a aventura.

Oriundo de Tomsk, na Sibéria, a muitos quilómetros do mar, Kovalevski é um navegador improvável, mas também a prova viva de que com força de vontade tudo é realizável . E é importante o impacto das suas viagens pelo planeta para os habitantes de Tomsk, como sublinha Julia Kaluzhnaya, da seção local da Sociedade Geográfica Russa e coordenadora em terra da expedição em curso: "Para nós em Tomsk é um privilégio ter alguém como Evgueni, que já conheceu tantas partes do mundo. É famoso, tem grande experiência de viajante, e quando regressa conta o mundo que viu, e não só aos adultos como também às crianças e aos adolescentes. Explica como é a América do Sul, como são as ilhas do Pacífico, etc, e isso é muito importante para aqueles meninos. Ele é inspirador para muita gente".

A conversa com Kovalevski e Kaluzhnaya é no Museu da Farmácia em Lisboa, onde a dupla de cientistas (ele é doutorado em ciências técnicas, ela em geografia) veio dar uma palestra para o público interessado nas viagens marítimas. Foram recebidos pelo diretor, o historiador João Neto, que fez questão de contar que na coleção estão os estojos de farmácia de vários viajantes célebres, como o norueguês Roald Amundsen, primeiro homem a atingir o Pólo Sul.

A nova viagem à volta do mundo do trimarã insuflável decorrerá até 2023, numa rota equivalente a 60 mil quilómetros. E insere-se nas celebrações de duas efemérides marítimas importantes para a Rússia: os 220 anos da primeira circumnavegação pela sua marinha, entre 1803 e 1806, obra dos navios Nadezhda e Neva, sob os comandos de Ivan Krusenstern e Yuri Lisyansky, e o bicentenário da descoberta da Antártida por Fabian Gottlieb von Bellingshausen e Mikhail Lazarev, em 1820, capitaneando o Vostok e o Mirny, da armada do czar.

Admirador dos feitos navais dos portugueses nos séculos XV e XVI, Kovalevski recorda que "quando Magalhães fez a sua viagem as pessoas finalmente convenceram-se de que o mundo é uma esfera. Ele também contactou com a natureza de forma muito íntima e isso para mim é muito importante". Fernão de Magalhães e Vasco da Gama "foram grandes navegadores, descobriram novos horizontes, e as suas viagens foram muito importantes para o desenvolvimento da humanidade", acrescenta o russo, que também visitou a Sociedade de Geografia de Lisboa nesta sua passagem por Portugal, enquanto o trimarã está em reparações em Espanha para poder sair de novo para o mar, pois os riscos têm de ser mínimos tamanho é o desafio. Sobre o oceano batizado por Magalhães há 500 anos e pelo português (ao serviço de Espanha) pioneiramente cruzado, diz Kovalevski que "atravessar o Pacífico é difícil. Do ponto de vista do navegador, é o mais perigoso, o mais selvagem. Não é nada um oceano pacífico".

Sobre viajar pelo mundo e ser cidadão do maior país, que se estende de Kalininegrado a Vladivostoque, o aventureiro russo nota que "o tempo que nos dá a vida tem os seus limites. Já viajei muito pela Rússia, sobretudo pela Sibéria, e sou um grande patriota da Rússia, como da Sibéria, a minha região. Considero-me um embaixador de ambas. E a forma que encontrei para exercer esse meu patriotismo foram as atividades educativas, pois viajo pelo mundo, aprendo e depois gosto muito de falar com jovens, de ir às escolas, transmitir aquilo que vi e percebi". Apesar de falar inglês e espanhol, a conversa é feita em russo e português e traduzida por Vladimir Iaroshevski, conselheiro cultural da embaixada russa em Portugal, entidade que fez também a apresentação da Exposição fotográfica "As belezas naturais da Rússia" oferecida pela Sociedade Geográfica Russa, que terá a sua inauguração durante as Jornadas Europeias do Património 2021 - 24 de setembro a 3 de outubro.

"O planeta está cheio de pessoas de boa vontade. Se temos alguma dificuldade há sempre alguém que ajude. Seja em que país for. Se não tens comida, oferecem mesa; se não tens onde dormir, oferecem teto. Há pessoas que vivem da pesca, outras que cultivam arroz, há também quem venda mercadorias, mas todas fazem parte da humanidade", diz Kovalevski, quase como resumindo as suas viagens. Em Tomsk, o museu da Sociedade Geográfica Russa guarda a coleção de objetos que tem trazido e que são uma lição de história mundial, acrescenta Kaluzhnaya.

leonidio.ferreira@dn.pt

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