Despedindo-se, como já é habitual nas suas mensagens, com um “obrigado pela atenção a este assunto”, o presidente dos Estados Unidos subiu a fasquia do conflito ao afirmar na rede Truth Social que o seu país irá ripostar a cada ataque iraniano a um navio. “A partir deste momento, sempre que a República Islâmica do Irão disparar contra um navio no estreito de Ormuz, seja por míssil, foguete, drone ou qualquer outro dispositivo ou arma, os Estados Unidos irão bombardear e destruir uma ponte ou central elétrica, incluindo aquelas localizadas junto ou dentro da capital Teerão.” O fraseado do memorando de entendimento assinado por Donald Trump e Masoud Pezeshkian abriu caminho para que Teerão se visse como o soberano do estreito de Ormuz, impondo taxas e rotas autorizadas e atacando navios que não se submetam. Até que ponto os EUA e o Irão estão dispostos a puxar a corda até esta esgaçar?Teerão e Washington entraram nesta fase do conflito depois de o Irão ter atacado um navio que atravessava a via marítima responsável pelo trânsito de um quinto dos hidrocarbonetos. No dia 8, o presidente dos EUA perdeu a paciência e declarou o fim do memorando de entendimento e correspondente cessar-fogo enquanto insultava a liderança iraniana. Depois lançou para o ar a ideia de os EUA tomarem o controlo do estreito e serem os beneficiários de uma taxa no valor de 20% dos produtos transportados, ideia abandonada no dia seguinte. Retomado foi o bloqueio naval aos portos iranianos, medida que recebeu a contramedida por parte dos houthis, aliados do Irão. O grupo armado que controla parte do Iémen pôs em prática um bloqueio aos navios destinados à Arábia Saudita. Pelo menos sete navios foram impedidos de passar o estreito de Bab el-Mandeb, que liga o mar Vermelho ao mar da Arábia, disse a empresa Lloyd’s List. Em paralelo, prosseguem há uma dúzia de dias consecutivos operações militares de ambos os lados. Os ataques dos EUA deixaram de se limitar a alvos militares e passaram a atingir infraestruturas iranianas nas mais diversas regiões do país. O Irão tem retaliado para os países vizinhos, ora tendo como alvo bases militares dos Estados Unidos, ora alvos civis, como uma estação de dessalinização e uma central elétrica no Koweit, ou um centro de dados da Amazon no Bahrein, por exemplo. Além destes países, e do Qatar, alvos habituais, o Irão expandiu os ataques à Arábia Saudita e à Jordânia. A meio dos ataques e contra-ataques - que não se dirigiram contra Israel ou contra as forças navais norte-americanas -, o guia supremo considerou, no dia 18, que a assinatura de Trump era “inócua e inválida”. .100Ataques do Irão passaram as defesas aéreas desde 28 de fevereiro, tendo lançado no total cerca de 8500 mísseis e drones, disse um militar ao Washington Post..Antes da ameaça de quarta-feira em relação aos navios no estreito de Ormuz, foram despachados mais aviões de caça para a região, e Trump disse que o material nuclear iraniano alegadamente realocado numa montanha nos arredores de Natanz seria alvo de bombardeamentos.Uma “guerra em grande escala” até onde?Este avolumar do conflito - descrito pelo presidente Pezeshkian como uma “guerra em grande escala” - poderá ir até que ponto? Do ponto de vista militar, ambas as partes sofreram perdas consideráveis desde 28 de fevereiro. O Irão, segundo os EUA, ficou sem navios da Marinha (embora mantenha capacidade naval com as lanchas rápidas). Mas a sua capacidade para desferir golpes destrutivos na região mantém-se intacta. Em junho, Trump disse que Teerão tinha ficado com 21% da capacidade de mísseis. Mas, no mês anterior, um agente da CIA citado pelo Washington Post estimou que o stock de mísseis iraniano estaria em 70% em relação aos níveis anteriores à guerra. A mesma fonte calculou que o Irão poderia resistir entre três e quatro meses ao bloqueio naval norte-americano.Na quarta-feira, o porta-voz das forças armadas iranianas afirmou que o seu país está a aumentar o arsenal de mísseis desde o início da guerra, apesar dos bombardeamentos. Segundo o general Abolfazi Shekarchi, os EUA não conseguiram localizar os locais de produção dos mísseis e dos drones e estes “vão diretamente da produção para uso operacional” enquanto os stocks são reabastecidos, disse à Press TV. Do lado norte-americano, os danos principais são as bases na região. A escala da destruição ainda não foi totalmente divulgada. Em maio, uma análise de imagens de satélite a cargo do Washington Post detetou 228 estruturas ou equipamentos destruídos ou danificados em 15 bases norte-americanas em seis países árabes. Nos últimos dias, novos ataques mataram também quatro militares nesses locais, elevando as baixas dos EUA para 17. As bases são uma projeção de força norte-americana na região, mas a sua proximidade com o Irão é também uma desvantagem. “Ninguém com a cabeça no lugar algum dia colocaria o quartel-general avançado do CENTCOM [Centro de Comando] a 160 quilómetros do Irão, mas é exatamente aí que está”, disse o ex-comandante daquele órgão Frank McKenzie, ao Middle East Eye..37,5Mil milhões de dólares (32,8 mil milhões de euros) é o custo estimado da guerra por parte dos EUA, sem contar com o ónus da reconstrução das bases militares atingidas, disse o secretário da Guerra Pete Hegseth..É público que a campanha de 39 dias da Operação Fúria Épica baixou a disponibilidade de quatro munições para níveis preocupantes: os mísseis de cruzeiro Tomahawk, os mísseis para os sistemas Patriot e THAAD, e os mísseis navais SM-3 e SM-6. Nenhuma destas munições será reposta em breve. No mês passado, o secretário da Guerra admitiu que demorará “meses e anos, dependendo do sistema de armas”. Na terça-feira, Pete Hegseth foi questionado pelos congressistas sobre o seu pedido de financiamento de 67 mil milhões de dólares adicionais ao orçamento do seu departamento. Mas o entrave para o reabastecimento não é dinheiro, é tempo - tempo para obter os minerais críticos que compõem os sistemas avançados de armas, e de que os EUA dependem da China. Há indicações de que nenhuma das partes está interessada em prolongar o conflito, mas entretanto este agrava-se. O negociador-chefe iraniano, Bagher Ghalibaf, ameaçou continuar a atacar os vizinhos: “Numa região onde não vendemos petróleo, ninguém venderá petróleo. Se a nossa segurança não estiver garantida, nenhuma infraestrutura estará segura, e a segurança do estreito [de Ormuz] depende da ausência de forças americanas.”Para Behnam Ben Taleblu, da Fundação para a Defesa das Democracias, “a política de terra queimada incremental do Irão contra o mundo árabe destina-se a fazer com que a América se retire da região, e não a reforçar a sua presença”, afirmou, citado pelo Wall Street Journal.Nos EUA, as eleições intercalares aproximam-se com o aumento do custo de vida a pesar no voto. Na mais recente sondagem da Ipsos para o Washington Post, dois terços não acreditam que as negociações com o Irão impeçam este país de desenvolver armas nucleares e 59% temem que o preço dos combustíveis não volte ao que era. De forma ainda mais significativa, o dossier Irão é aquele mais reprovado (69%), acima da economia (65%). Para Martin Griffiths, antigo subsecretário-geral da ONU para os assuntos humanitários, o segredo para voltar à mesa das negociações está em ambos os lados acreditarem que perderam. “Há uma expressão, aliás, na comunidade de mediação que pode ser relevante aqui: ‘um impasse mutuamente doloroso’”, disse o agora diretor executivo da Mediation Group International, citado pela Al Jazeera, que acredita ser o caso. Acordo nuclear, sim, mas com Riade Donald Trump chegou a um acordo de 30 anos com a Arábia Saudita do príncipe Mohammed bin Salman para a instalação de um programa nuclear. Avançada pelo Wall Street Journal e depois pelo New York Times e Associated Press, a notícia detalha que, em resultado de um estudo conjunto de sauditas e norte-americanos, o pacto abre a porta à construção de uma fábrica de enriquecimento de urânio no país do Golfo. Segundo uma fonte, o acordo exclui o protocolo adicional da Agência Internacional de Energia Atómica, que prevê monitorização e inspeções ao programa. O acordo terá de passar pelo crivo do Congresso e não faltará quem tema que este desenvolvimento abra à porta à proliferação nuclear. O príncipe saudita não só tem mostrado interesse no desenvolvimento de um programa nuclear com fins civis, mas também na hipótese da aquisição de armas nucleares. Numa entrevista à CBS, em 2018, Salman disse que a Arábia Saudita iria desenvolver essa componente nuclear “o mais rápido possível” se o seu rival regional, o Irão, a obtivesse..Trump afirma que o Irão "vai pagar generosamente" e reconhece impacto do conflito nos preços dos combustíveis.Irão volta a retaliar contra infraestruturas da Amazon