Em agosto, menos de um mês depois de ter chegado a Paris como embaixador dos EUA, Charles Kushner falhara uma convocatória para se apresentar no Ministério dos Negócios Estrangeiros depois de críticas consideradas inaceitáveis por Paris sobre a “falta de ação suficiente” contra o antissemitismo por parte do presidente Emmanuel Macron e enviara o seu número dois. Há dias, Charles Kushner voltou a ser chamado pelo ministro Jean-Noël Barrot na sequência de comentários da administração Trump sobre a morte do ativista de extrema direita Quentin Deranque. Desta vez, o representante dos EUA alegou “compromissos pessoais” e fez-se representar novamente por outro elemento da embaixada. O caso gerou a indignação do governo francês, que proibiu qualquer contacto entre Kushner e os ministros do executivo de Sébastien Lecornu. “À luz desta aparente falha em compreender os requisitos básicos da missão de embaixador e a honra de representar o seu país, o ministro solicitou que [Kushner] não tenha mais acesso direto aos membros do governo francês”, disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros em comunicado. Mas uma conversa telefónica entre o embaixador e Barrot na terça-feira parece ter serenado os ânimos. Kushner “tomou nota, expressou a sua vontade de não interferir no nosso debate público e recordou a amizade que une a França e os EUA”, disse o gabinete do ministro em comunicado, acrescentando que os dois concordaram em reunir-se nos próximos dias e revertendo a proibição de contacto entre o embaixador e os ministros. O embaixador fora chamado para explicar a sua partilha no X de uma declaração do Gabinete de Contraterrorismo do Departamento de Estado dos EUA na qual se lia: “As informações, corroboradas pelo ministro do Interior francês, segundo as quais Quentin Deranque teria sido morto por militantes da extrema-esquerda, deveria preocupar-nos a todos”. E prosseguia: “O extremismo violento de esquerda está a aumentar e o seu papel na morte de Quentin Deranque demonstra a ameaça que representa para a segurança pública.”Deranque, de 23 anos, morreu após sofrer um traumatismo craniano. Terá sido atacado por pelo menos seis pessoas à margem de uma manifestação de extrema-direita organizada contra a visita da eurodeputada da Frente Insubmissa (extrema-esquerda) Rima Hassan à universidade Science Po Lyon. Mas esta está longe de ser a primeira polémica em que Charles Kushner se envolve. Filho de judeus polacos, sobreviventes do Holocausto, que imigraram para os EUA em 1949, Charles - ou Chanan, o nome que os pais lhe deram em homenagem a um tio materno morto num campo de concentração nazi - Kushner cresceu em New Jersey, onde o pai começara como carpinteiro mas acabara por criar o seu próprio negócio. Formado em Direito pela Universidade Hofstra, em 1985 assume os negócios do pai e funda a Kushner Companies. Num perfil publicado em finais de janeiro, o Le Monde explicava como Kushner, de 71 anos, gosta de recordar que não é um diplomata de carreira e que nunca pediu para ser embaixador em Paris. Mas desde que chegou, o amigo pessoal de Donald Trump - além do mais pai de Jared Kushner, marido de Ivanka e emissário do presidente nas negociações de paz tanto para a Ucrânia como para o Médio Oriente - não tem hesitado em recorrer aos seus métodos diretos e a uma retórica sem papas na língua para passar a mensagem da Administração americana. Mas qual a missão de Kushner em Paris? “Abrir os olhos da França para as questões globais”, disse o próprio em entrevista à televisão LCI, apelidando Trump de “Viagra da Europa, a nossa última oportunidade de evitar sermos varridos pela história”.Ora se hoje Kushner é incansável na defesa do compadre, com o qual tem três netos em comum, no início dos anos 2000 o empresário foi um dos principais doadores do Partido Democrata. E em 2005 foi mesmo condenado a dois anos de prisão após se declarar culpado de 18 crimes, entre eles financiamento ilegal de campanhas, fraude fiscal ou corrupção ativa de testemunha. Esta última acusação referia-se ao facto de Kushner ter contratado uma prostituta para seduzir o cunhado, que estava a colaborar com a investigação, enviando depois a gravação do encontro à irmã. Atos que o tribunal considerou “vergonhosos e repreensíveis”. Mas acabaria por receber um perdão presidencial do seu amigo “Donald” em 2020. Quando anunciou a sua nomeação como embaixador em Paris, o presidente destacou um “tremendo líder empresarial, filantropo e negociador.” Os franceses parecem ter dúvidas..Jared Kushner, o fiel genro e conselheiro de Trump que já sugere aceitar a derrota